O interventores e o teatro de sombras

Marlos Guedes
Marlos Guedes ou Zé de Guedes ou “Urubu Rei” – Foto capturada no FB do autor
por Marlos Guedes* – especial para o A Tal Mineira

Armínio Fraga, economista americanizado, enquanto presidente do Banco Central no segundo reinado de FHC, 1999 a 2002,  atuou na defesa dos interesses das duas bandas da moeda.  Ele conseguiu agradar aos dois lados.  Primordialmente aos Estados Unidos e,  por outro lado, ao coroa FHC. Ao final de sua trajetória, sobrou um Brasil, praticamente, destroçado!

Este texto pretende mostrar que o controle da inflação não era a meta principal do reinado FHC.  Muitos economistas dizem que a inflação já estava sob controle.  Por algum tempo, eu procurava entender qual era o objetivo maior, o que estava por trás das imagens projetadas.

No início do segundo mandato de FHC, no dia 13 de janeiro de 1999, Gustavo Franco deixa o BC.  Francisco Lopes assume o comando e inventa a “Banda Diagonal Endógena” que, na prática, significava segurar o preço de um dólar a um determinado valor em Real. Seu objetivo era manter a cotação do dólar a R$1,32.  Em março do mesmo ano, o dólar dispara para R$2,16.  Lopes é demitido por Malan, então Ministro da Fazenda.

Entre em cena, no teatro das sombras, Armínio Fraga. Em toda sua vida, sempre trabalhou para banqueiros e especuladores financeiros. Antes de chegar ao BC, era Diretor Executivo na Soros Fund Management , empresa do mega-especulador George Soros, com sede em Nova York.

Em poucos meses, Fraga consegue estabilizar a cotação do dólar ao valor de R$1,75, para delírio dos tucanos e euforia do governo americano.  Como conseguiu agradar a dois  senhores ao mesmo tempo?

A vibração do cara, Timothy Geithner

Os Estados Unidos queriam o Real valorizado, pelo menos por alguns anos.  Isso era bom para as exportações americanas e ruins para as exportações brasileiras.  O Brasil perderia competitividade externa, ficaria endividado com  organismos financeiros internacionais , teria problemas no equilíbrio de sua balança comercial e, portanto, seria presa fácil para as garras da águia.

O entusiasmo americano se expressa numa fala do ex-secretário do Tesouro Americano, Timothy Geithner.  Em seu livro “Stress Test – Reflexões Sobre Crises Financeiras”, bem ao gosto de Wall Street, ele diz:  “Após abandonar uma tentativa inicial de manter a paridade do real com o dólar, uma liderança econômica soberba do Brasil conseguiu dar a volta por cima em poucos meses”.  A frase cabe em dois momentos, o início e o fim do segundo mandato de FHC.

A vibração do coroa, FHC

O interesse de FHC, independente do alto custo financeiro para sustentar o câmbio no teatro de sombras, era passar para a história como grande estadista internacional.  O objetivo era manter a valorização do real e, assim, mesmo com baixo crescimento e descontrole total das contas públicas, o PIB brasileiro,  expresso em dólares,  manteria o Brasil bem posicionado entre as economias desenvolvidas  ou emergentes.  A matemática é simples, imagine um PIB de R$1,72 trilhões. Em moeda americana  (R$1,72 para 1 U$$), este PIB seria expresso em U$$1 trilhão.

Todo esforço de gastança não tinha como objetivo controlar a inflação e, sim, controlar o câmbio para atender a máxima vaidade do príncipe.  E o príncipe cultivava, na prática, a frase histórica de Rubens Ricúpero, seu sucessor no Ministério Fazenda, em setembro de 1994: “Eu não tenho escrúpulos. Eu acho que é isso mesmo: o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde”. Por conta da repercussão, ele entregou o cargo.

Outubro de 2002, o dólar passa a custar R$3,82.  A maior crise cambial do segundo reinado dos tucanos  e o fracasso completo da alquimia de Malan e Fraga.  Restou um último esforço apenas pra baixar um pouco essa mega desvalorização.  E o sonho do príncipe se desmontava como um castelo de areia. O Brasil descia a ladeira, em 1994, o PIB era de US$543 bilhões e, em 2002 fica em 451 bilhões de dólares.  Para não ser injusto, o PIB, em moeda nacional, era de R$477 bilhões, em 1994 e, em 2002, 1.320 bilhões reais (1,32 trilhões).

Era um erro atrás do outro. A taxa SELIC (Sistema Especial de Liquidação e Custódia), utilizada para pagar juros dos títulos da dívida federal, subiu de 39% para 45%, em março de 1999.  Teve variações para baixo, como 15,25% em janeiro de 2001 e, ao final de sua atuação desastrada, em dezembro de 2002, a selic chegou a 25%.   Em todo histórico de FHC,  a taxa selic esteve superior a 15% ao ano. Até 1999, era superior a 20% ao ano.

Nos últimos quatro anos de FHC, a inflação média foi de 8,78% ao ano.  Chegou a 8,94% em 1999, depois 5,97%, em 2000. Voltou a subir, em 2001, para 7,67% e, ao final, em 2002 subiu para 12,53%. Foi derrotado no câmbio e, na reta final, perdia o controle sobre a inflação.

Ao final do espetáculo,  sobrou  baixo investimento em infraestrutura, desemprego de 8,5 milhões de pessoas, déficit nas contas publicas, apagão de 2001 que gerou um prejuízo de 45,2 bilhões de reais, segundo relatório do TCU. Perda de credibilidade do Brasil no exterior, crescimento da dívida pública interna e externa a níveis assustadores, juros bancários muito elevados, redução e congelamento de salários nas empresas públicas, caiu da 9ª para 15ª  economia mundial, aumento da carga tributária de 25 para 35%, déficit na balança comercial, maior matança de trabalhadores sem terra e tantas outras mazelas.

Com tudo isso, o príncipe ficou despido de suas principais vaidades.

Ao fim das contas, digo que Malan e Fraga, sob a batuta de FHC, envergonharam o Brasil e humilharam nosso povo.

(*) Marlos Guedes, 57 anos. Trabalhou no Banco do Brasil por 36 anos, formado em Psicologia Social, presidiu o Sindicato dos Bancários por três gestões, poeta e compositor musical na Banda Rhudia, Recife.  

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Belo refresco para a memória o artigo do amigo querido, Marlos Guedes. Aproveito a carona para postar uma quadro que rolou hoje pelas redes sociais, via Lola Aronovich, do blogue Escreva Lola Escreva. Querem comparar, pois tome-lhe! E quem tem menos de 30 anos aproveita para saber como foi para valorizar como é:

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