Depois da verdade, justiça à Dilma

Dilma guerreira em sua humanidade - Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil/Fotos Públicas
Dilma guerreira em sua humanidade – Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil/Fotos Públicas

 

por Sulamita Esteliam

A imagem do choro da presidenta Dilma Roussef na cerimônia de entrega do Relatório Final da Comissão da Verdade não me sai da retina. Não é difícil imaginar a força da emoção que a invadia naquele momento. Senti-la, entretanto, só cabe a quem, como ela, sobreviveu à longa noite do arbítrio.

O produto da responsabilidade, assumida, de resgatar o passado, que lhe dói nas entranhas. A possibilidade de clarear o presente, ainda que de forma gradativa. O imperativo de exorcizar os fantasmas para seguir em frente, e assegurar o futuro, sem medo de que tudo possa retornar, como um pesadelo recorrente.

Dilma é uma mulher forte, não precisa prová-lo. Mas não há fortaleza que não se abale ante o vendaval das lembranças, e em meio às vicissitudes, e açoites, do agora. Forjados, mas derrotados mais uma vez.

Justiça seja feita à presidenta. Não se pode cobrar dela mais do que pode dar, neste capítulo. Dilma avançou no limite do possível. Ousou o que nenhum de seus antecessores civis, até mesmo Lula – ungido seu criador -, foi capaz de fazer.

Ou alguém pode duvidar que uma pessoa que foi dependurada num pau de arara, levou pancada de toda sorte, e choques elétricos; que foi aterrorizada, e ameaçada durante três anos, na tenra juventude, não gostaria de ver a Justiça se consumar?

A responsabilidade de desnudar a história não é apenas dela, Dilma. Ela é tão somente a presidenta da República, eleita. É a chefe do Executivo, um dos três poderes da República. Tem a caneta, não o Poder Divino.

Toda a sociedade lhe deve suporte, e deve a si mesma, a garantia das condições para se avançar no fundamental. Condições políticas e jurídicas.

Já temos os responsáveis pelo arbítrio. Falta criar as bases para que paguem por seus crimes de lesa-humanidade. Ou como bem lembra a ministra Eleonora Menicucci, de Políticas Públicas para Mulheres, “fazer justiça”. Ela também uma vítima da tortura e da exceção que durou 21 anos, amiga pessoal de Dilma, de quem foi companheira de cela.

Rever a Lei da Anistia é passo inescapável, e a OAB já se pronunciou oficialmente a respeito, em reunião logo após a solenidade no Planalto. Vai batalhar pela anulação da autoanistia, segundo o que preconiza a Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Crime de lesa-humanidade não prescreve.

A impunidade desse período, sórdido sob todos os aspectos, reflete em nossas vidas, ainda nos dias de hoje. Segue a estimular a continuidade de práticas como a tortura, o “desaparecimento” e o extermínio de pessoas – jovens, pais e até mães de família – por agentes do Estado. Práticas inadmissíveis num democracia digna do nome.

Não menos importante é manter a busca pelos “desaparecidos” – de ontem, e de hoje. Onde estão Amarildo e David? Somente 33 dos que “sumiram”, de 1964 a 1985, foram identificados. As famílias têm direito a enterrar seus mortos.

Natural que se sintam frustradas do pouco ou nenhum avanço nessa direção. As Forças Armadas detêm as informações sobre o paradeiro das vítimas da ditadura, mas até então se recusam a cooperar.  Os governos são responsáveis por suas PMs, e devem prestar contas de seus atos.

De qualquer forma, no que toca ao Relatório da Comissão da verdade, e respectivas providências governamentais, não faz sentido comparar com ações pertinentes de países vizinhos, aqueles, como a Argentina, que viveram, e até compartilharam, anos de terror com o Brasil.

Mal comparando, cada um tem sua receita de cura para a ressaca.

 

 

 

 

 


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