Profetas da Chuva em Quixadá é tradição cearense

por Sulamita Esteliam

A confiança no poder da memória, não raro, nos prega peças. Por pouco não passo batida e deixo de divulgar evento que é uma bela tradição do povo do Sertão do Ceará, que é quem de fato preserva a cultura ancestral daqueles torrões. Quem nos conta é a amiga-irmã cearense , Ana Karla Dubiela, jornalista, escritora e doutora em Literatura, uma das convidadas do XIX Encontro dos Profetas da Chuva, em Quixadá.

Transcrevo, com algumas adaptações temporais, o texto que ela me enviou há alguns dias, via Facebook:

 

“Vá, por exemplo, ao sertão nordestino, nos meses de novembro e dezembro.
O povo lá não tira os olhos do céu, em procura dos prenúncios”.
Rachel de Queiroz


Profetas da ChuvaÉ tradição que se perpetua de geração em geração: todos os anos, os profetas e profetisas da chuva usam como instrumentos para as suas previsões a sintonia com a natureza. São rituais, a observação dos ventos, formigueiros, cupinzeiros, casas joão-de-barro, o juazeiro, a flor do mandacaru, a barra da lua, a pedra de sal, dentre outras “experiências”, como são chamadas as fontes de seus estudos, feitos a partir de observações ao longo do ano, que prenunciam como será a próxima quadra chuvosa do Ceará.

Em 2015, eles se reúnem no XIX Encontro dos Profetas da Chuva, que acontece em Quixadá, de hoje até domingo. O evento, que faz parte do calendário climático-ambiental brasileiro, é promovido pelo Instituto de Viola e Poesia do Sertão Central (CE), produzido pela Mungango Produções e conta com a apoio da Prefeitura municipal de Quixadá, CAGECE, Instituto Agropolos, SEBRAE, SDA, Convention Bureau Fortaleza e ACVQ.

Logo na abertura, esta noite, o talento de violeiros e trovadores de várias regiões do Ceará, no VIII Encanta Quixadá (Praça da Fundação Cultural Rachel de Queiroz). O ponto alto do encontro se dá no sábado, 10: é a exposição das previsões de 30 profetas. Cada profeta ou profetisa faz a sua previsão para a próxima quadra chuvosa e diz qual o método usado para sua análise.

Segue-se o Seminário Convivência com o Semiárido, que reúne especialistas como Helder Cortez, gerente de Saneamento Rural da Cagece, que fala sobre o Modelo de Gestão para o Saneamento Rural; Nicolas Fabre, engenheiro agrônomo, representante da Aprece e graduado na França, que aborda o tema Agroecologia – estratégias para agriculturas sustentáveis no contexto do Semiárido Brasileiro; Rodrigo Castro, da Associação Caatinga, que discorre sobre a experiência da ONG na convivência com o semiárido.

A preservação da cultura e da sabedoria popular seculares, herdadas de pai para filho, é o que incentiva a organização anual do encontro. O evento, que em 2016 chega aos seus 20 anos, é um dos mais esperados pelos agricultores cearenses, que buscam identificar o melhor momento para o plantio.

“Existe uma disputa saudável entre os participantes, cada um em busca de conhecer melhor os sinais da natureza e de sua terra. Portanto, a ideia maior é a de fortalecer a tradição e cultura popular, não só em Quixadá como em outros municípios do Ceará e do país, tendo como elemento a água e as condições climáticas que tanto afligem os sertanejos”, diz João Soares, idealizador do encontro.

É a sintonia do homem do campo com a natureza que fez surgir os “profetas da chuva”. Ao longo dos anos, a cada plantio e expectativa de colheita, os sertanejos vão ampliando sua interação com o meio ambiente e passando suas experiências e rituais para filhos e netos.

Em 1996, o gerente regional da Cagece em Quixadá, Helder Cortez observou o grande número de pessoas que o procuravam alertando quanto às chuvas e recargas dos mananciais da região todos os anos. Juntou-se a João soares para reuni-los no I Encontro dos Profetas da Chuva, que hoje é uma tradição no Ceará.

A casa do joão-de-barro é um dos instrumentos usados para previsões - Foto capturada na Internet
A casa do joão-de-barro é um dos instrumentos usados para previsões – Foto capturada na Internet

Os sinais são múltiplos, e as interpretações também são diversas. Se o ninho do joão-de-barro está com a porta voltada para o poente, é sinal de chuva. Se o joão-de-barro não está no ninho, para alguns profetas, esse é um sinal de bom inverno, pois elas saem em busca de alimentos antes, para evitar sair no período invernoso; para outros, é sinal de seca, pois os passarinhos estariam armazenando alimentos para a difícil época que se aproxima.

A escritora cearense, Rachel de Queiroz, primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, ficou famosa ao escrever seu primeiro romance O Quinze, sobre a seca que assolou sua terra. Mesmo morando no Rio de Janeiro, ela voltava sempre à Quixadá, para sua fazenda Não me deixes.

Sobre os profetas da chuva, dizia a autora: “Vá, por exemplo, ao sertão nordestino, nos meses de novembro e dezembro. O povo, lá não tira os olhos do céu, em procura dos prenúncios. Pequenas nuvens ao poente… pequenas, claro, ainda não é tempo das grandes, mas, se elas se juntam para o sul, quer dizer uma coisa; se aparecem ao poente, a coisa muda. Só o que elas não dizem é que a coisa será essa: como todos os adivinhos do mundo, gostam de se envolver em mistério…” (p. 13) – QUEIROZ, Rachel. Existe outra saída, sim. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha, 2003.


 


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