Domingo no Antigo: muita polícia para pouca gente

por Sulamita Esteliam
Ponte Maurício de Nassau, na entrada do Recife Antigo - Fotos: SE
Ponte Maurício de Nassau, na entrada do Recife Antigo – Fotos: SE

Fazia tempo, desde a campanha presidencial, que não ia ao Recife Antigo. Pois, neste domingo, eu e meu companheiro fomos lá, à noite. O propósito: conferir a história de barreiras e revistas, que têm provocado reações adversas nas redes sociais. Não sem razão.

Escolhemos ir de ônibus. Apeamos logo depois do Cais de Santa Rita e atravessamos a ponte Maurício de Nassau, que liga o Bairro de Santo Antônio ao Antigo. Nas duas pontas, de um lado viaturas da Polícia Militar, do outro da Guarda Civil.

Naturalmente, não fomos barrados, que dirá revistados. Afinal, somos um provecto casal, aparentemente branco, e com cara de classe média.

Verdade seja dita, durante a passagem, também não presenciamos revista alguma. Creio que chegamos tarde, tipo oito da noite. Mas a própria PM admite, nas matérias publicadas pela mídia local: o procedimento está restrito a “suspeitos”.  O Comando não explica o critério, mas não é difícil imaginar.

CAM00939Pois digo a vocês: em 18 anos nessas plagas, nunca vimos tanta polícia junta. Nem mesmo durante o Carnaval. Absolutamente desproporcional à quantidade de gente que circulava pela ilha. Como diz uma amiga pernambucana, “é mais puliça do que gente, afe!”.

 

Rua do Bom Jesus, na entrada para a Praça do Arsenal
Rua do Bom Jesus, na entrada para a Praça do Arsenal

Tinha pra todo gosto, e desgosto: trajando caqui, preto, azul marinho, com capacete, boné, motorizado e andante. Os bonés laranjas, a pé, estavam por toda ilha, e quase sempre em dupla ou quarteto. Na cabeça e nos pés de cada ponte, em toda esquina. No Arsenal, na Moeda, no Marco Zero, em todas as ruas de acesso…

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O novo pier, emoldurado pelos armazéns revitalizados em botecos e restaurantes
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… e ao povo resta apreciar o movimento, e a paisagem que sempre lhe pertenceu
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O restaurante-boteco de grife está nas duas pontas do Marco Zero

Percorremos o pier, que ainda não está com todas as estações de embarque concluídas. Os dois armazéns reformados para turistas, e aquela parte da classe média abonada, ou que não resiste à ostentação e à novidade, estavam apinhados.

Um dos outrora armazéns do Cais do Porto já viveu dias de terminal de passageiros, camarote carnavalesco para autoridades, central de botecos e artesãos durante o reinado de Momo. Outro abrigou o teatro alternativo e outros espetáculos, em contraponto ao abandono do poder público.

Notamos: o bar-restaurante principal, que dá para o Marco Zero, é o mesmo que ocupa a parte de trás do Centro de Artesanato, do outro lado da Praça. Imagina-se que tenha tido licitação pública, e a empresa logrou habilitar-se em ambas.

 

E motoqueiros do Choque, subindo pelo Marco Zero, entre as pessoas, jovens, homens, mulheres e crianças que ali faziam seu lazer – algumas com cadeiras de praia, a maioria sentada em círculos sobre o chão.

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O palco principal para a folia está sendo montado

Houve uma convocação pelas redes sociais: “Ocupar o Antigo” em protesto “contra a higienização”. É como definem a decisão conjunta dos governos municipal e estadual, a pretexto de mais segurança. Era para ter entrado em vigor no fim de semana anterior.

Não entrou, e daí teria havido um conveniente, e inédito, arrastão. Desculpa perfeita para “reforçar” as medidas, conforme se queria estabelecer.

E os motoqueiros do Choque contornando os botecos e restaurantes de grife que agora ocupam os outrora armazéns do Cais do Porto.

Devo confessar, está bonito – e ninguém há de ser contra a beleza, a estética, a atração ao turista numa cidade turística. Lembra muito, aliás, o trato dado à beira-rio em Belém do Pará.

É para turista, e remediado, se deleitar. O Zé Povinho se contenta em observar, de longe, escorado nas grades do pier que guarnecem o estuário.

O problema é a segregação, a intimidação mesmo, do Zé Povinho, que se orgulha da sua cidade e dela se apropria, e quer e precisa, e tem o direito de dela continuar se apropriando.

Parece obviamente clara a intenção de deixar aos frequentadores e comerciantes, dos centros elitizados, a sensação de segurança, tão ao gosto da raça humana que habita a parte de cima da pirâmide. Afinal, paga-se caro o deleite, e precisa ser guardada da plebe ignara, nem tão humana assim.

Engraçado é que a prefeitura quer impedir que o recifense use patins e skate sobre o Marco Zero, largo que sempre foi do povo. Uma das desculpas é não estragar o piso. Mas motocicleta do Choque pode.

Mapa Recife Antigo

 

 

 

 

 

 

 

Seguimos os motoqueiros e damos a volta para retornar ao Marco pelo acesso principal. Lá, em frente ao posto policial contamos mais seis viaturas policiais e duas unidades do Choque, mais uma dúzia de PMs.

Na Rio Branco, mais em cima, à direita, tem outro posto móvel e mais meia dúzia de viaturas.

O giro da segurança de Estado em torno dos armazéns
O giro da segurança de Estado em torno dos armazéns

Um rapaz está sendo preso no posto junto aos armazéns. O amigo choraminga, brandindo a carteira de identidade, e apela por clemência: “Só por causa de uma sandália…?”

Paramos para observar, e tentar entender. O jovem, negro, com roupa domingueira e boné de rapper, algemado com as mãos para trás é levado até a viatura e obrigado a entrar nela. O amigo insiste até o último momento, o rapaz é do bem… em vão (aparentemente só bebera um pouco demais).

Em distância prudente, um outro homem, mais maduro, não tira os olhos da cena, como quem se sente impotente, ou culpado… Só deixa o local depois que a viatura parte, levando o detido. Deixo que se afaste dos policiais e vou até ele, sob protestos do meu companheiro. Puxo conversa.

– Sabe por que o rapaz foi preso?

– Sei. Vi quando ele se desentendeu com um comerciante, na Marquês de Olinda, na esquina antes de chegar no Marco Zero.

– Como se desentendeu?

– Isso não sei. Só sei que o comerciante deu um murro nele, e ele caiu no chão. Ia passando um carro da polícia, e o amigo, aquele de camisa branca, fez sinal para os policiais, mas eles não pararam. Então, o rapaz que estava caído no chão tirou o tênis e jogou no carro da polícia. Aí eles pararam, deram ré e prenderam ele…

– Eita, “desacato à autoridade”, aí lascou…

– Pior é que me chamaram para testemunha. Vim aqui, no Posto, mas queriam que eu fosse com eles até a delegacia. Essas coisas são muito complicadas, demoram, e eu preciso voltar pra casa, tenho dois filhos, minha mulher já deve estar preocupada…

Curioso é que a PM informa “apenas” duas prisões na área no domingo, “nada relevante”: um homem teria sido pego “arrombando um veículo próximo à ponte giratória (liga o Cais de Santa Rita ao Antigo)”. Outro teria sido preso “por portar arma branca”. É o que informa a Folha PE.

Pergunto-me onde foi parar nosso jovem arremessador de tênis…

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Sim, os três diários pernambucanos nesta segunda, trazem capa que enaltecem as medidas de segurança adotadas para “garantir a paz” no Recife Antigo.

Todos queremos paz. A questão, quem me traz é a canção do Rappa – que aliás é uma das bandas previstas para o domingo de Carnaval no Marco Zero –  é saber “qual a paz que eu não quero conseguir pra tentar ser feliz”.

Paro por aqui, por que hoje é segunda. O assunto pede mais, e a ele voltaremos oportunamente.

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