Jessé faz sua última viagem

por Sulamita Esteliam

 

“A música ajuda a aliviar o desconforto. Tem muita gente que até se esquece que está em pé no ônibus.”
(Jessé de Paulo, violinista olindense)

 

Jessé de Paula_Ivaldo BezerraJesse de Paula_arquivo pessoalDesculpe-me, Jessé, mas ainda não consigo crer que você, um surfista ousado de coletivos, tenha sido pego no contrapé por um trem de metrô sem eira nem beira. A Estação Afogados há de reverenciá-lo para todo o sempre.

O destino é um grande pregador de peças, às vezes de muito mau gosto.

Somente no final da manhã de hoje soube de sua viagem ao encontro dos deuses da música. Então, entendi todo o mal-estar, inexplicável, que de mim se apossou na tarde de ontem: tonturas e um sono incontrolável, que me jogou na cama no meio da tarde.

Sei bem que sua partida foi involuntária. Quem aos 30 anos pode pensar que amanhã não há mais!?

Quanto mais você, que conseguia arrancar do incerto e do sonho o alimento cotidiano, do corpo e da alma. Não, você não desistiria do sonho de vir a ser reconhecido grande…

Você um andarilho inconformado, que conhecia o próprio valor, não se quedava diante de obstáculos. E eles foram tantos, e tão grandes, desde sempre, em sua vida…

No entanto, você cultivava a humildade do trabalho e a generosidade do partilhamento.

Partiu ainda assim, de maneira tão estúpida, que nos deixou a todos que lhe queremos bem em estado de choque. Perplexos diante do insondável que comanda nossa passagem neste plano.

No outro – melhor acreditar que existe – há refulgir com seu talento, como nos encantou, a todos quantos tiveram o privilégio de ouvi-lo.

Lembro-me bem da última vez que nos encontramos, ano passado. Tomei um ônibus na Boa Vista, de volta do trabalho, e você estava lá, levando a alento dos acordes, contraditoriamente angustiados, que brotavam do seu violino.

Passara-se um ano desde a entrevista (imagens reproduzidas acima) – passeio que fizemos pelo Recife Antigo,  para a Revista dos Bancários. Você, então,  preparava-se para se apresentar no Janeiro de Grandes Espetáculos, e mal conseguia controlar a ansiedade.

Não me surpreendeu vê-lo de volta aos coletivos. Saudei-o com um sorriso e um toque na aba do meu chapéu, indefectível – e sinalizei aplausos inaudíveis, antes de ganhar o fundo do veículo.

E você, habitualmente sisudo, devolveu o sorriso e, sem parar de tocar, engatou um cumprimento, com sua voz forte, acostumada a cobrir polifonia de sons das ruas e dos transportes públicos: “Salve, grande mulher!”

Confesso que fiquei sem jeito.

Terminada a apresentação, já a meio caminho de Boa Viagem, repetiu o discurso da falta de estímulo ao artista pernambucano, a justificar o porquê de estar ali, exercendo sua arte. E ofereceu os CDs com sua música, percorrendo o corredor da roleta à cozinha: um autoral, e outro com músicas clássicas, também para mim.

– Fico com o de músicas clássicas, o autoral eu já tenho – devolvi, em tom suficientemente audível. A intenção era influenciar os vizinhos. Se fez diferença, não vem ao caso. Recordo, porém, que você apeou no Pina, bem em frente à igrejinha, com um aceno e um “até mais, amiga”.

Tenho saído pouco de casa no dia a dia. Nunca mais topei com seu violino nas raras incursões pela cidade. Lembro-me de no início deste ano ter visto um cartaz do “Janeiros…” e me perguntado por que você não estava na programação…

Enfim, nada disso importa agora. Fique em paz, onde estiver.

Amanhã é aniversário de Olinda e Recife. As cidades-irmãs não têm tempo de chorar a sua perda. De minha parte, escolho imaginá-lo encantado, como na metáfora roseana*. Mas, como dói.

Com vocês, Jessé de Paulo, num vídeo-reportagem da revista Aurora, do Diário de Pernambuco, de 2012:

 

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