O vale-tudo em nome da democracia

No Recife, o protesto foi à beira-mar - Foto: Rodrigo Lobo/Fotos Públicas
No Recife, o protesto foi à beira-mar – Foto: Rodrigo Lobo/Fotos Públicas
por Sulamita Esteliam

Não foram gatos pingados. Brasil afora as manifestações deste domingo não podem ser ignoradas pelo governo, nem pelo PT, nem pelas esquerdas e forças progressistas que querem o bem do país. A direita esta viva, e perdeu totalmente o pudor. Atiçada pela mídia venal, usa o discurso do ódio para arrebanhar adeptos.

Confesso que fiquei assustada com o que vi e ouvi na Av. Boa Viagem, palco do protesto no Recife. Claro que conferi de perto, até para poder falar com propriedade. Fui pelo calçadão e voltei pela areia. Tive que garantir um banho de mar para tirar o odor de coxinha, antes de voltar pra casa…

É dura a vida de repórter.

A elite branca, limpinha e cheirozinha, se deu ao desfrute do domingo de sol, fantasiada de cidadania.  Havia, sim, um ou outro Zé Povinho infiltrado.  O que saía de sua boca, e estampava faixas e cartazes, entretanto, não correspondia ao pretenso pacifismo cidadão. Pena que esqueci o celular em casa ou teria feito registros inacreditáveis.

A plenos pulmões e ao microfone, imperou a motivação: ‘Fora Dilma e o PT!”, “Fora Dilma e Lula!”, “Impeachment!”, “Fora, ladrões!”, “O petróleo é nosso e o dinheiro é deles”, “Não tenho culpa: votei no Aécio!” …

E a melhor de todas, pelo tamanho da bizarrice, e que se viu em todo o país: “Intervenção Militar Constitucional!”

Tudo isso embalado pelo “rock do impeachment”, recolhido nas redes sociais. E alternado pelo Hino Nacional e pelo Hino de Pernambuco, cantado em coro e com a mão no peito. Salve, oh terra dos altos coqueiros! Verás que um filho teu não foge à luta.

O cientista político Antônio Lassance antecipou o cenário: é Golpismo, sim senhor!

Senhorinhas e senhorzinhos, de pele quase transparentes e cabelos idem, faziam do calçadão camarote. Crianças sopravam apitos e vuvuzelas. Selfies, com ou sem cabo, em profusão. Aqui como lá, acolá e alhures.

Constrangedor ver moçoilas e senhoras maduras, jovens e coroas quase em êxtase, à simples miragem do helicóptero da PM – que sempre monitoram manifestações públicas. Acenavam efusivamente, confundindo-o com as Forças Armadas.

Viva a democracia!

Boa maneira de celebrar os 30 anos de retomada do direito de se manifestar no Brasil!

As camisas da seleção foram tiradas do armário, e faziam parceria com as blusas de tecido sintético com proteção solar. Mas havia muita gente com camiseta de campanha, todas amarelas, estampadas com o “Basta!” sob um mão espalmada – imagem e expressão das campanhas de combate à violência contra a mulher. Nas costas: www.vemprarua.net (sem partido, é o que dizem).

Não, não havia 8 mil pessoas, como estimou a PM de Paulo Câmara – e a imprensa, que desaprendeu a fazer contas, reproduziu. Assim como as imagens da Av Paulista atestam que não havia 1 milhão de pessoas no centro financeiro, até por que, quem é paulistano e cultiva os fatos, sabe que não cabe 1 milhão ali – o insuspeito DataFolha estimou em 210 mil.

Em Beagá teriam sido 25 mil, que marcharam da Praça da Liberdade até a Savassi, na parte da manhã até o início da tarde. Em Brasília, 40 mil. Em Porto Alegre 100 mil. No Rio, teriam sido 15 mil, segundo a PM.

Já em Boa Viagem, aos manifestantes foi reservado o trecho da beira-mar a partir da Antônio Falcão, em direção Pina – cerca de 500 metros depois da metade da orla. Mas no primeiro quilômetro tinha retardatários dispersos, 20 minutos após a saída.

O compacto de gente se resumia às cinco faixas do trecho que vai do terceiro ao início do segundo jardim, onde alcancei os manifestantes, coisa de 500 metros. Como, no pedaço, a ciclovia e o calçadão estavam tomados, é  só multiplicar por 25 metros de largura e chega-se à área de 12.500 metros quadrados. O cálculo é de quatro pessoas por metro quadrado, então, chega-se a 3 mil pessoas; com boa vontade, 4 mil, levando-se em conta a gente dispersa.

Mais ou menos o mesmo número que foi às ruas na sexta-feira, em defesa dos direitos trabalhistas, da Petrobras e da democracia, só que no centrão da cidade.

O mar de gente que ocupou a Paulista neste 15 de março, e as ruas das principais cidades brasileiras num domingão impressiona. Mas não tira o impacto das manifestações  do dia 13, uma sexta-feira gorda de trabalho.

Prova de que a resistência existe. Como escreve Saul Leblon em Carta Maior: “Não importa o que aconteça dia 15, a virada já aconteceu. A agenda do golpe foi maciçamente afrontada – no seu núcleo duro e em mais 23 cidades brasileiras.”

À noite, o governo respondeu em coletiva de imprensa dos ministros da Justiça, José Eduardo Cardoso e da Secretaria da Presidência, Miguel Rosseto. Reiteraram que o governo vai dar ênfase às medidas de combate à corrupção, e também as discussões sobre a reforma política – que aliás é tarefa do Congresso Nacional.

Eis como a blogosfera alternativa viu as manifestações do 15 de março:


2 comentários sobre “O vale-tudo em nome da democracia

  1. Minha Amiga Mineiribucana Sulamita Esteliam,
    Graças a Deus, nem só de descerebrados é formada a população brasileira. Há pessoas como vossa mercê, com uma pena fabulosa para deslizar ideias lúcidas na tela do computador, dizendo coisa com coisa, como você tão bem sabe fazer. Genial, como sempre, a sua crônica-editorial. Acrescento, apenas, que essa “elite branquinha e cheirosa” não é tão cheirosinha como pode-se pensar. Por dentro, é toda podre, asquerosa. E hipócrita! Fico com vergonha de ser um ser humano com tantos imbecis que nos cercam nos ônibus, nos bares, nas praias ou nas ruas. Gente teleguiada por essa mídia escrota, sonegadora de impostos, que tem em seus barões corruptos natos que se encheram de dinheiro lambendo botas dos generais da ditadura militar de primeiro de abril de 1964 e nos rouba a todos mandando seus dólares para o HSBC da Suíça, com os dados ocultados do imposto de renda. Tudo, gente de “família”, de bem. Tenho nojo dessa “gente!”. Infelizmente, jornalistas amigos nossos ou se prostituíram ou foram imbecilizados por esses patrões. Muitos dos que se juntaram às viúvas da ditadura de 1964 não podem ver um governo que passou a dar prioridade à grande maioria pobre da população brasileira. E, infelizmente, alguns desses que mais conquistaram dignidade com as ações de um governo, em toda a história do País, entram na onda dessa lavagem cerebral indecente dos meios de comunicação que pregam o ódio ao PT, a Dilma e a Lula. Esses escrotos da mídia precisam, já de anteontem, de um lei que regulamente a nossa imprensa e acabe com essas oligarquias dos barões da mídia. Que se faça no Brasil o que a Argentina e a Venezuela já fizeram. Ruy Sarinho/Olinda

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