Inês Etienne, a resistência, o direito à verdade e à memória

“{…] professor, eu não quero um tostão de indenização. Esse dinheiro de indenização vem do povo e a grande vítima é o povo. {…) O que eu quero é que a Justiça do meu país reconheça oficialmente que eu fui sequestrada, mantida em cárcere privado, estrupada três vezes por agentes públicos federais pagos com dinheiro do povo brasileiro.”

Inês Etienne Romeu, cidadã brasileira, sobrevivente da ditadura civil-militar
Inês Etiene
Etienne deixa a prisão depois de sete anos – Foto: Alcyr Cavalcanti/O Globo
Ines-Etienne-Romeu por Sulamita Esteliam

Soube da passagem de Inês Etienne Romeu para o outro plano, somente ontem*, via Rede Mulher e Mídia, através da amiga Rachel Moreno. Inês Etienne quedou-se estrela dormindo, em casa. Deu-se na madrugada da última segunda-feira, aos 72 anos, em Niterói, estado do Rio de Janeiro.

Viveu como guerreira cidadã. Sobreviveu à tortura, ao estupro, ao horror da “Casa da Morte”. Foi-se como um passarinho. Que descanse em paz.

A memória da longa noite da ditadura no Brasil terá, sempre, nesta mineira de Pouso Alegre, um exemplo de coragem e desapego. Guerrilheira da VAR Palmares, a mesma organização a qual pertenceu a presidenta da República, Dilma Roussef, na juventude, soube encarar seus algozes. Jamais se quedou.

Única sobrevivente do centro de torturas instalado em Petrópolis, no Estado do Rio. Foi a última presa política a ser anistiada e deixar o cárcere no qual o regime militar a encerrara por deles discordar. Havia sido condenada a prisão perpétua; vivíamos o Estado de exceção.

Libertada em 1979, dois anos depois localizou a casa onde padecera a barbárie, e denunciou o médico, Amílcar Lobo; era quem orientava as torturas que mataram dezenas de jovens que por ali passaram.

E há quem vá as ruas, hoje, pedir o retorno desses tempos que nos enxovalha.

Inês, que não se dobrou ao terror de Estado, entregou à Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos um relatório completo dos abusos a que fora submetida.

Confirmaria seu depoimento à Comissão Especial para Mortos e Desaparecidos Políticos, criada em 1995 pelo governo FHC, a partir de lei aprovada na Câmara, nascida a partir da Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Mais recentemente, o reiteraria à Comissão da Verdade.

Jamais pretendeu indenização. Exigia justiça!

No relatório da Comissão da Verdade, consta à página 533, trecho que o A Tal Mineira reproduz do Blog do Paulo Fonteneles Filho:

Em 1989, Inês Etienne procurou o jurista Fábio Konder Comparato e contou-lhe o calvário que havia sido submetida durante 96 dias na Casa da Morte. Comparato lhe disse que a jurisprudência à época não admitia  indenizações por causa da prescrição. Segundo relato do jurista (…) , Inês declarou:

{…] professor, eu não quero um tostão de indenização. Esse dinheiro de indenização vem do povo e a grande vítima é o povo. {…) O que eu quero é que a Justiça do meu país reconheça oficialmente que eu fui sequestrada, mantida em cárcere privado, estrupada três vezes por agentes públicos federais pagos com dinheiro do povo brasileiro.”

Inês Etienne ganhou a causa. Foi encerrada em 2007, quando a União deixou de recorrer e a sentença foi convalidada.

Conheci esta mulher no início dos anos 90, em Brasília, no gabinete do deputado Nilmário Miranda (PT-MG),  atual secretário de Direitos Humanos de Minas Gerais. Esta escriba o assessorou um breve tempo. Etienne emanava força inquebrantável, e isso me fez admirá-la.

A vivência dos depoimentos, sofridos, à Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos da Câmara dos Deputados, inspirou o resgate de parte da memória do período no livro Estação Ferrugem – Vozes/Prefeitura de BH, 1998. Nele, esta autora conta a história da região operária de Beagá/Contagem, onde cresceu.

Inês Etienne Romeu, mineira guerreira, cidadã brasileira de quatro costados, presente!

Etiene na audiência da Comissão da Verdade sobre a Casa da Morte, no Arquivo Nacional, no Rio, em 25 março de 2014 - Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil/Fotos Públicas
Etiene na audiência da Comissão da Verdade sobre a Casa da Morte, no Arquivo Nacional, no Rio, em 25 março de 2014 – Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil/Fotos Públicas

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PS1: *Na segunda, passei boa parte do dia e da noite envolvida com a transferência de hospital da minha irmã Zeíca – do João XXIII para o Mater Dei, via plano de saúde. Só cheguei ao computador para publicar a postagem que estava no gatilho, rascunhada.

Ontem à noite tive alguns contratempos no hospital (de caráter estritamente pessoal), resolvidos a bom termo, felizmente.  Certo é que somente agora, na virada da quarta-feira, posso finalizar o que comecei quando ainda era dia. Antes tarde…

PS 2: Zeíca está clinicamente estável, na medida do possível, mas ainda requer cuidados intensivos. Continua, guardadas as devidas proporções, sendo bem-cuidada, destarte com mais foco de atenção e conforto, e com acompanhamento mais de perto da família.

Torcemos para que a nova casa possa acelerar sua recuperação vital. O neurológico vem com o tempo. É o que cremos e para o que oramos. Toda evolução é comemorada. Obrigada a todos pelos bons fluidos e pelas orações.

Outro ponto a considerar na transferência é que ela pôde deixar livre o leito que ocupava no hospital público – que é referência nacional em traumas – para quem não dispõe de alternativa, e requer tratamento de emergência. Conheço bem a minha irmã, e acredito que fizemos o que ela gostaria se pudesse tomar a decisão.

E seguimos em frente, com a Graça do Pai, da Mãe, dos Anjos Celestiais e as forças do Universo. Salve a vida!


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