Os movimentos sociais e o som dissonante das panelas

O Recife na noite desta terça, 05 - Foto: Rafaela Ribeiro/Mídia Ninja
O Recife na noite desta terça, 05 – Foto: Rafaela Ribeiro/Mídia Ninja
por Sulamita Esteliam

Estou em Beagá, enquanto o Recife ferve. Na tarde de hoje e noite desta terça, milhares caminharam pelo tombamento do Cais José Estelita, na capital pernambucana. O projeto denominado Novo Recife acaba de passar na Câmara de Vereadores, e o prefeito Geraldo Júlio (PSB) sancionou.

O que leio pela blogosfera indica que, mais uma vez, a votação engloba controvérsias, e contraria, inclusive, posição do Ministério Público. Repete-se no Legislativo a farsa concretizada no Conselho de Desenvolvimento Urbano, algum tempo atrás.

É tal o nível de irregularidades, incansavelmente denunciadas pelo movimento Direitos Urbanos, que o #OcupeEstelita ganhou repercussão nacional e internacional – assunto tratado repetidamente por este blogue – aqui e aqui, por exemplo.

Aqui, por Beagá – onde me encontro acompanhando a recuperação da minha irmã caçula -a polícia civil, finalmente, concluiu o inquérito sobre a queda do viaduto Batalha dos Guararapes, Zona Norte da Cidade. O desabamento matou duas pessoas em junho do ano passado.

Sem novidades: omissão das autoridades e irresponsabilidade das empreiteiras envolvidas. Estão indiciadas 18 pessoas, dentre autoridades públicas, dirigentes e funcionários de construtoras. Mas o prefeito Márcio Lacerda (PSB) não figura entre os indiciados. Surpresa seria o contrário. A bola, agora, está com o Ministério Público.

Um caso e outro, e tantos mais, envolvem consórcio de empreiteiras – financiadoras de campanhas eleitorais. E o Congresso quer votar um simulacro de reforma política, para deixar tudo como está.

Enquanto isso, Brasil afora, de suas varandas gourmet, os paneleiros passa-fome repetem a sinfonia desafinada. Desta feita, à guisa de protesto contra o programa do PT. Na região Centro-Sul da capital, onde me encontro hospedada, fez-se barulho também com fogos de artificio e buzinas.

Não foi diferente em Boa Viagem, onde moro com meu companheiro e filha. A caçula me situa em comentário pelas redes sociais: “Difícil morar em Boa Viagem nessas horas”. Contraponto do privilégio, conseguido com muito suor e dignidade, e sem nenhum rabo preso, devo registrar.

Paneleiros e paneleiras têm direito de se manifestar, claro. A democracia foi conquista com muito esforço, e sangue – inclusive da presidenta eleita, que eles querem desapear do poder.

Mas estou seriamente preocupada: vão acabar ficando com LER e tendo que recorrer ao benefício do INSS, os pobrezinhos…

A coisa tem tal pertinência que sequer os trabalhadores, do campo e da cidade são poupados.  Agricultores familiares, sem-terras, professores, carteiros, metalúrgicos, dentre outros; estudantes, mulheres, homens de todas as idades, crianças incluídas.

Juventude presente em ato e passeata no 1º de Maio em Beagá - Foto: Rogério Hilário/CUTMG
Juventude presente em ato e passeata no 1º de Maio em Beagá – Fotos: Rogério Hilário/CUTMG
A ocupação simbólica do BC em BH
A ocupação simbólica do BC em BH
constituin te contra a corrupcao_Rogerio Hilario
Clareza
Plenária das Mulheres no 6º Encontro dos Movimentos Sociais - Foto: Lidyane Ponciano/CUTMG
Plenária das Mulheres no 6º Encontro dos Movimentos Sociais – Foto: Lidyane Ponciano/CUTMG

Fiz questão de acompanhar a passeata do 1º de Maio em minha Macondo de origem. Saí do hospital, onde está internada a minha irmã, direto para a concentração, no final da manhã de terça. Peguei a passeata já em curso.

As manifestações do Dia do Trabalhador em todo o país, lembre-se, tiveram como mote central a defesa dos direitos trabalhistas e do Brasil. Portanto, contra a terceirização que escraviza, o ajuste fiscal que tira de quem mais precisa; em defesa do nosso patrimônio, simbolizado na Petrobras, da reforma política com o fim do financiamento privado de campanha politica; e da democracia institucional e nos meios de comunicação.

Sério, a disciplina e a ordem da caminhada, com a presença do Levante da Juventude – que projeta o futuro (“alguém tem que ficar em nosso lugar”, comenta feliz uma antiga companheira de militância) -, teve uma nota dissonante: de duas janelas do prédio na Rua Guajajaras (nº 65), entre Afonso Pena e Sergipe, no centro dito nobre de Beagá, duas senhoras, um jovem e uma criança batiam furiosamente suas panelas.

Fiquei a imaginar de que vivem tais senhoras. Seriam herdeiras de grandes fortunas a sujeitarem-se a morar em edifício modesto em meio à balbúrdia do trânsito urbano? Não terão tido – nunca, jamais, em tempo algum – que ganhar a vida em horas de trabalho suado ou tedioso?

No prédio ao lado, moradores de três apartamentos diferentes exibiam a bandeiras do Brasil, junto com bandeiras do PT e da campanha de Dilma.

A cena das panelas não voltou a se repetir ao longo do percurso, coisa de 3 km – da Praça Afonso Arinos até Praça da Assembleia (com paradas estratégicas no Tribunal de Justiça/Av. Afonso Pena, no Sindicato dos Jornalistas/Álvares Cabral, no final desta avenida com Santos Barreto/Banco Central. Junto à praça-destino onde o ato se encerrou, a ocupação simbólica do terraço do BC, em protesto contra a política escorchante de juros.

Devo registrar, no entanto, que esta reles blogueira teve a saia respingada por tomate jogado de uma janela de prédio classe média alta na esquina de Álvares Cabral com Olegário Maciel. Bem ali, no outrora aristocrático Bairro de Lourdes. O arremessador, quiçá arremessadora, levou um belo apupo e se escondeu atrás da cortina.

Sinal dos tempos.

Na Praça da Assembleia estavam acampados os trabalhadores que vieram de todos os cantos das Gerais participar, até o domingo seguinte, do 6º Encontro Estadual dos Movimentos Sociais, no vão do prédio da ALMG.

Cerca de 1.500 pessoas encararam quilômetros de estrada para chegar à capital. Os homens de uma delegação do Norte do estado acabaram de chegar a pé. Marcharam dezenas de quilômetros por que o ônibus que os trazia quebrou na estrada.

Ainda assim, aqui chegados, juntaram-se aos demais, e todos caminharam com alegria outro bom pedaço. E depois, enfrentariam tempo considerável de fila para o almoço antes da abertura oficial do evento. Tudo para exercer a cidadania.

Os paneleiros e as paneleiras têm mesmo que espumar de indignação.

Compartilho vídeo que encontrei no FB/Movimento#OcupeEstelita. O pernambucano Lirinha, ex-Cordel do Fogo Encantado, relembra Canudos, a propósito do massacre do Choque da PM contra os a manifestantes em 21 de maio de 2014.

Metáfora da opressão da casa-grande sobre a senzala, do poder econômico – nesses tempos simbolizado por empreiteiros, latifundiários, donos de mídia, banqueiros e que tais – sobre o direito dos moradores à sua cidade – qualquer cidade -, do direito do povo ao seu país.

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Postagem revista e atualizada em 06.05.2015, à 1:09: correção de pontuação em diferentes parágrafos; inclusão do último parágrafo; e às 17:26, correção de concordância verbal na terceira linha do 13º parágrafo: “As manisfestações do Dia do Trabalhador tiveram”, ao invés de “teve”. Foi mal.


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