Machismo e preconceito é roupa surrada que não nos serve

Dooa-Eladl-indo-trabalhar
Dooa Eladi, cartunista egípcia

 

por Sulamita Esteliam

Devo desculpas, e explicações, pela prolongada ausência no blogue. Bem que tentei escrever, todos os dias, semana passada, em vão. Padeci de uma espécie de síndrome do bloqueio total. A tela em branco tornou-se esfinge, e me devorou.

Nem queira saber o quanto pode ser desagradável a sensação de tamanha indigência.

Ademais, pense numa semanazinha troncha, também do ponto de vista pessoal, a que antecedeu o domingo das Mães. Não sei quanto a você, mas Euzinha, que já ando com as ideias e sentimentos, todos, embaralhados, quase vou a pique.

Das duas, uma: ou os acontecimentos, no geral, estão com o sinal trocado, ou esta velha escriba começa a fazer jus ao epíteto. Sei que prazo de validade é coisa séria, mas há coisas tão absurdas que nem o tempo é capaz de acomodar.

Falo dos acontecimentos na política e na economia, que mais se assemelham a refrão de samba de maluco. Não obstante, refiro-me, sobretudo, ao desrespeito e ao machismo, ao preconceito e à discriminação, ao abuso do direito de ser reacionário de alguns parlamentares, e seus acólitos nas redes sociais.

O episódio de violência física e verbal de que foi  vítima a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), semana passada, na Câmara dos Deputados, é apenas um exemplo. Trogloditas do tipo Roberto Freire (PSB), pernambucano expulso para São Paulo pelo não-voto de seus conterrâneos, e Alberto Fraga (DEM-DF) estão aí espalhados por toda parte.

A despeito da Lei Maria da Penha, que de fato pôs um freio na carroça desembestada da violência doméstica, a violência contra a mulher está longe de ser exterminada. A cena de bestialidade na Câmara não nos deixa mentir.

Violência e preconceito andam de mãos dadas, e parecem recrudescer em pandemia Brasil afora.

Sei bem que tais atitudes estão enraizadas desde sempre, muito antes de quando minha avó era criança, no final do século XIX. Inaceitável é que tais ideias prevaleçam dois séculos depois. E que mulheres delas tomem parte.

Lembro-me de minha avó contar que se encarapitava no pé de manga para ouvir o soletrar da cartilha, trazido pelo vento que soprava na direção de sua casa na zona rural de Jequitibá, Sertão mineiro.

O pai, meu bisavô, não permitia que ela fosse à escola. Dizia ele que “bicho mulher já é difícil analfabeta, letrada então nem o diabo pode”.

Penso eu, no mote do Dia das Mães, comemorado no último domingo, que homens com esse tipo de pensamento e atitudes bem que mereciam ter nascido de chocadeiras.

Este país que elegeu e reelegeu um homem operário e uma mulher guerrilheira presidente da República está longe de superar a pequenez psicosocial.

De fato, espelha o conservadorismo devastador, numa nação erguida sobre o sangue e o suor das senzalas e sobre o massacre dos nossos nativos. Um filho parido sob as botas, o chicote e os bacamartes da casa-grande e seus prepostos.

Eles estão aí, revividos e despidos de qualquer pudor.

Se Lula foi, e continua sendo, achincalhado a despeito do reconhecimento internacional como o melhor governante que este país jamais teve, com Dilma é ainda pior.

Pouco importa que ela seja considerada uma das mulheres mais poderosas do mundo. Aqui ou é autoritária, ou desengonçada, ou incompetente. Tentam negar-lhe o direito de governar, legitimamente conquistado nas urnas.

É certo que não detemos a exclusividade neste departamento. Muito antes pelo contrário. Carta Maior conta, por exemplo, a história de 40 jornalistas francesas alvos de machismo anacrônico no exercício da cobertura política. Elas publicaram um manifesto no Liberación sob o título Bas les pattes/Tirem as mãos.

Todavia, em que lugar do planeta um/a presidente/a da República, uma senhora de 66 anos, mãe e avó é convidada a ir tomar naquele lugar por um coro de milhares de vozes em estádio de futebol? Fariam isso com Lula, mesmo ele, caso fosse o presidente?

Fizeram com FHC mesmo quando era suspeito de ter filho fora do casamento, quebrar o país três vezes e entregar de bandeja nosso patrimônio?

Fazem com Aécio Neves, apesar do governo temerário nas Gerais e dos flagrantes de vida, digamos, pouco exemplares para quem aspira o mais alto posto do país?

Nós mulheres somos a maioria da população e do eleitorado. Somos maioria nas universidades e dentre as pessoas com curso superior, e comandamos 40% dos lares brasileiros. Temos o direito de escolha, mas não podemos nos apequenar.

O machismo, o preconceito, a discriminação são os combustíveis que movem o desrespeito. E o desrespeito é roupa suja e rota que não nos cabe mais.

 

 

 

 


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