O preço da distração é a burocracia intocável

por Sulamita Esteliam
Imagem capturada na rede
Imagens capturadas na rede

Gente, ontem tirei a tarde e a noite de folga, ou quase isso. Deixei meu portátil no hospital onde tenho acompanhado minha irmã, Zeíca, para providenciar nova via de meu RG perdido – Deus sabe onde – e outros afazeres.  Depois, ficou tarde para resgatá-lo.

Uma amiga da família, sucedida ao fim do dia por meu irmão, me substituíram na missão dar suporte à recuperação da nossa caçula. Já que assim foi, aproveitei para, ao invés de usar computador alheio para atualizar o blogue, dormir um pouco mais cedo. Ando carecendo…

Sim, perdi meu documento de identidade, também. É só chegar em Belo Horizonte que começo a perder coisas, observa meu companheiro – não sem razão. Só não posso perder o rumo de casa, aqui; e o caminho de volta pra acolá, no Recife, onde ele está…

Nestes 44 dias na terrinha, já se foi meu celular, deixado num táxi logo na primeira semana de estada. Dias passados, em visita noturna, a chave do escaninho onde é preciso deixar bolsas e que tais para ter acesso ao CTI, tomou chá de sumiço.

E quem diz que eu me lembrava do número do armário onde havia guardado a minha bolsa, com tudo dentro – documentos, cartões de banco e que tais…?

Três horas de procura, segurança do hospital mobilizada, teste de chaves-reserva nicho por nicho, polícia acionada … tchan-tchan-tchannn … Eis que a bolsa estava num local que, teoricamente, deveria estar vazio, pois que a chave estava na respectiva fechadura. Hipótese mais provável: eu guardei a dita e esqueci de levar comigo a cuja…

Antes do desparecimento do RG, ainda teve o eclipse do cartão do banco, percebido e, graças aos bons costumes, resgatado só três dias depois, numa lotérica no Mercado Central.

Como sou useira e vezeira de perder coisas – isso quando não me roubam ou furtam – não posso, sequer, atribuir o perde-perde a praga da recepcionista – que perdeu muito do seu tempo com o procura daqui e dali. Ao contrário, ela foi gentilíssima, extremamente solícita.

Nem mesmo maldição do chefe da segurança, que atrasou a volta pra casa para tentar resolver o caso. E ainda teve que ligar de volta para dispensar a polícia que ele acionara, acreditando na hipótese de sequestro dos meus pertences.

Pensando bem, pode até ser emanação de eflúvios atravessados de um pau mandado, que cruzou meu caminho naquela noite. Ele ousou questionar se eu tinha certeza de que havia entrado no hospital com a bolsa… Claro que teve de volta o que pediu…

Meu consolo é que não sou exemplar único a perder ou esquecer coisas por aí, muito antes pelo contrário… A verdade, nua e crua, nesses casos é, se é gente moça, é descuido  ou distração. Depois de certa idade, o nome que costumam dar a isso é “veieira” ou “veiísse”, mesmo.

Em outras palavras, preconceito e discriminação.

O bom é que onde estou e para onde vou todos chegam. Ou não.

Ainda assim, digo o que dizia minhas avós: não troco minha disposição, cérebro e memória por meia dúzia de braços, pernas e cabeça de  humanos com um terço da minha idade.  Mas que as vezes o trio essencial à vida falha, isso falha…

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Praça 7-Uai
O prédio centenário, por traz do “Pirulito” da Praça 7, onde está o UAI

Pois bem. O centro de serviços ao cidadão de Beagá – e outros locais de Minas –  tem nome adequado: UAI. Que significa Unidade de Atendimento Integrado. De quebra, pode ser resposta à eterna pergunta sobre o que é uai! É UAI, uai! (Mas também pode ser Psiu – Posto de Serviço Integrado Urbano)

Boa parte das pessoas buscam segunda via. Por perda ou furto, ou roubo, ou tempo de uso, ou prazo de validade – o que vem dar no mesmo.

Um jovem pai de primeira viagem, de um bebê de pouco mais de mês, estava aflito. Saíra de sua cidade, vizinha à capital, para resgatar seu RG que se foi junto com a carteira de dinheiro. Não sabe dizer se perdeu ou se levaram.

Sem grana, com a casa desabastecida, não tinha como sacar o pagamento de seu trabalho. O banco recusara sua carteira profissional como identificação, porque a foto é de 11 anos passados, quando era e tinha cara de moleque.

Acreditava que obteria o documento imediatamente, pois lá onde mora levariam 15 dias para entregá-lo.  Ledo engano. Foi informado que seriam cinco dias úteis até tê-lo em mãos. Um terço do tempo, mas uma eternidade para as circunstâncias e necessidades.

Também procurei o posto central, na Praça Sete, em busca de presteza. Na experiência anterior, em 2006, eu e meu companheiro renovamos nosso RG aqui; a minha carteira de identidade ainda era a original, com minha foto aos 17 anos.

Na ocasião, Euzinha optei pelo posto no Barro Preto, área centro-sul. Banquei uma manhã inteira de espera, e só recebi o documento três dias úteis depois, na antevéspera do Natal. Júlio foi ao Psiu, e saiu de lá com a carteira na mão.

Desta feita, peguei a senha 443, quase três da tarde. Pensei, tô lascada! Da senha ao tíquete, que me dará a posse física do documento, foram duas horas e quinze minutos de espera. Isso porque tenho direito a atendimento prioritário.

Mais cinco dias, úteis, para o chefe do serviço conferir, a secretária carimbar, o diretor do serviço assinar, o departamento respectivo plastificar… Pronto: ganhei dois dias em nove anos.

Os funcionários são muito amáveis, e ágeis.  O problema é que é muita gente. E, se há unificação de serviços num único local, não há integração de dados e sistemas.  Isso explica, dentre outras coisas, o porquê de não termos, ainda, uma identidade nacional, que unifique todos os registros num único documento.

Fato é que tive que tocar piano novamente, menos de 10 anos depois; deixar minhas digitais – do polegar ao mindinho – dos lados esquerdo e direito.  Até que é jogo rápido, mas contei cinco guichês para essa função, apenas – dos 100 para todos os serviços ligados à identificação cidadã.

Perguntei para o funcionário se não havia minhas digitais no sistema. A resposta foi que a pessoa pode adquirir uma cicatriz, queimar ou perder um dedo, por exemplo…

Outro problema a observar é o espaço pouco adequado, com acessibilidade reduzida à rampas nas entradas laterais e ligando ao salão central. No prédio onde o centro de serviços está instalado funcionava a agência pioneira do antigo Bemge – Banco do Estado de Minas Gerais. Num tempo em que deficiente físico era relegado ao exílio doméstico.

As tecnologias avançaram, mudaram as leis, mas os espaços e sistemas não foram adaptados. Continuam a servir a quem pode subir e descer escadas, se espremer em cadeiras estreitas, se deslocar com agilidade.  Dispor de tempo, fôlego e paciência para esperas intermináveis.

No serviço de segurança social, a coisa funciona como uma linha de montagem, um tanto pré-modernidade. Um encaminha, outro confere os documentos e dá a senha, outro orienta onde você deve pagar a taxa, se houver.

Para acessar o posto bancário, e também os sanitários, há dois lances de escadas de 10 degraus a galgar. Quem sobe desce, pois há que retornar ao salão onde se aglomeram cidadãos e cidadãs em busca da identificação oficial.

Cadeiras às dezenas, mas insuficientes, dispostas no centro do salão, são rodeadas por guichês e painéis dispostos em círculos. Babel é ali.

Aí, tome espera. Olhos fixos no painel de controle, que apita cada vez que mostra a senha da vez e a imediatamente anterior. Sempre na ordem de chamada, alternando categoria – normal, preferencial – e tipo de demanda. Estas são identificadas por duas letras maiúsculas que não consegui decifrar se ligam coisa com coisa.

Sim, as etapas do atendimento são sinalizadas por cores: vermelho para registro, verde para coleta de digital, laranjado para entrega de documento, rosa para atestado de antecedentes, amarelo para não sei mais o quê.

A catalogação pretende um sentido de organização – que obriga manter um exército de funcionários capaz de traduzir os múltiplos códigos, sinalizações e labirintos da mãe de todos os entraves: sua majestade intocável, a burocracia.

Munida de minha indefectível revista de palavras-cruzadas, atividade devidamente alternada com boa disposição para conversa, uma escapadela para o lanche e uso do banheiro, devo confessar, não vi passar o tempo.

E saí de lá como pelo menos três boas histórias para contar.

Só preciso decidir se o farei aqui no blogue, ou se escrevo e armazeno para um livro futuro de historietas urbanas, outras nem tanto, que há tempos coleciono.

Fico por aqui. Até mais.

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Postagem revista e atualizada em 22.05.2015, às 10:37 horas: correção de pontuação no penúltimo parágrafo da primeira parte e de concordância verbal no 17º parágrafo da segunda e última parte do texto.

 


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