A vida do jeito que a vida é…

IMG_20150722_111524119
por Sulamita Esteliam

 

Melhor falar em saúde. Pois, cada vez mais, me convenço de que – depois do SUS, que salva vidas todos os dias, aos milhares  – realmente,  “o melhor plano de saúde do Brasil é a Justiça”. E não há aqui segundas intenções. Naquilo que você pensou, os fatos têm mostrado que a engrenagem gira no sentido contrário. Mas isso é assunto pra outra conversa.

No caso, tomo emprestado a frase de um comentário da minha amiga-irmã mineira, Eneida da Costa, em recente conversa telefônica. Tirou da gaveta da memória de um debate ou seminário que cobriu pela TV Assembleia, de Minas. Foi quando contei para ela, na sexta passada, que saíra a liminar judicial que garante hospital domiciliar para minha irmã Zeíca.

Quando retornei ao Recife, no antepenúltimo dia de julho, ela já estava, praticamente, em estado de alta. Faltava o OK do plano de saúde para a internação domiciliar. Com quadro clínico estável, mas sem fala, contato fecundo e com movimentos restritos, minha irmã precisa de assistência de enfermagem e/ou cuidadoras 24 horas para ajudá-la em suas necessidades mínimas.

Precisa, tanto quanto, de equipe multidisciplinar que possa auxiliar em sua recuperação: neurologista, fisioterapeuta, fonoaudióga/o. Hospital  tem que ir até ela, não ela permanecer no hospital, que passou a representar risco à sua saúde e qualidade de vida.

O Bradesco Saúde enrolou quanto pôde, e disse não. O jeito foi lembrar ao plano dos direitos do paciente, constitucionais e de consumidor.  A liminar ou tutela antecipada preserva o direito até o julgamento do mérito do processo.

Sim, esta é a boa notícia da semana: Zeíca está em casa, finalmente, desde a tarde da terça, 22 de setembro de 2015, véspera do equinóscio da primavera nestes trópicos.  Dia do aniversário do marido Osmane.

Depois de cinco meses e 28 dias, desde o atropelamento que quase leva sua vida numa travessia da Brasil com Afonso Pena e Aimorés, Centro-Sul de Beagá. Voltava para casa, depois de exames médicos, naquele lusco-fusco de outono em Beagá.

O homem que a atropelou prestou o socorro devido, e nunca mais deu as caras. Se procurou se informar, o fez incógnito.

O fato de não ter sido dele a culpa – uma vez que Zeíca atravessou fora da faixa, com o sinal fechado para pedestre, numa avenida movimentada – não lhe tira a autoria da obra. Uma tonelada de aço contra um corpo de 65 quilos de osso, tecido, gordura, sangue, água e pele – e alguma ou muita aflição, pode-se supor.

Provavelmente, o homem cujo carro jogou minha irmã para cima, como uma bola,  a três metros do chão, não sabe o que é feito da vida da Zeíca. Se sabe, não consigo imaginar de que é feito seus sonhos, se sono há.

Deixar os horrores no passado. É vida que segue, do jeito que a vida é…

Meu filho, Elgui acompanhou o translado, junto com minha irmã Lili.  Nas fotos que me enviou pelo WhatsApp, Zeíca está com o rosto afogueado, com a expressão conhecida de grata surpresa e agradecimento, de quando está feliz. Certamente gostou da suíte novinha em folha que o marido providenciou para acolhê-la.  Claro que o mexe-mexe do transporte, e o calor que castiga Belo Horizonte na transição inverno/primavera, contribuem com o corado da face. Zeíca é do tipo calorenta, desde menina.

Importa que ela tem seu canto de volta. Está de novo em seu lar. Tem de novo sua filha, seu marido, seu núcleo familiar em torno, todos os dias, no ambiente que se lhes pertence.

Aos poucos Zeíca vai se reapropriando dos sons familiares, vozes de pessoas queridas, tropel de passantes, latidos dos cães na rua, o latido do Duque (?) no quintal. O cantar dos canários, que parecem não sofrer com as gaiolas. Os automóveis na rua, os da casa entrando e saindo da garagem. A campanhinha, o latido do cachorro. O frenar e o arrancar dos ônibus na parada logo em frente. O café-com-pão-manteiga-não dos trens de carga, e o barulho irritante de ferro com ferro, roda com trilho, engate-desengate.

Haja sono!

Os odores cotidianos, mesmo os detestáveis. Os olores que ela aprecia. O cheiro das plantas, das frutas, o perfume da filha,  rescendendo a canela, da sogra recém-tomada banho – que se mistura ao do bolo acabado de sair do forno. E, dia há de chegar, do café coado na hora, da comida fumegante na panela…

Sentir o sol da manhã embocar por uma janela, e o sol da tarde se desmaiando janela outra afora…  E quando a noite cai, capturar um estrela no céu azul profundo, fazendo duo com o trinar dos grilos no capim beira-linha, e o véu do sono nublar os olhos devagarinho…

Zeíca, com certeza, vai gostar de recuperar essa sensação cotidiana de finitude para tornar a renascer…

É o canto dela, ao lado da filha, do marido, da sogra, das cunhadas, da sobrinha do marido. Era também o canto do sogro.

 

IMG_20150627_122721855_HDR

Não sei se lhe contaram, mas um dia antes de ela entrar por uma porta, Noel Rosa saiu pela outra.

E não voltou.

Por isso, Osmane não estava no hospital quando ela saiu. Por isso, o marido não estava em casa a esperá-la…

Estava com o pai no hospital, em outro hospital – do Ipsemg. Noel se aposentou como funcionário público estadual. Vinha doente faz bom tempo. Não sabia que o caso era de tal gravidade. Talvez nem ele soubesse, nem a família suspeitasse.

Baixa desesperadora de hemoglobina, me disse o filho pelo celular, quando liguei para cumprimentá-lo, já tarde da noite. Os médicos não davam muita esperança. Estavam à espera de uma vaga no quarto – talvez fosse no CTI? Desliguei o telefone para que Osmane pudesse cuidar do pai. Pude ouvir, chamava pelo filho.

Pobre Osmane, e era dia do seu aniversário.

Noel Rosa  – isso mesmo, igual ao compositor carioca – tinha alma de poeta e espírito de curiango. Partiu na madrugada da chegada da primavera.

Seresteiro – tocador e cantador. Filho de Rodeador, lugarejo pras bandas de Montes Claros. Terra de gente braba e cheia de razão.

Bom de prosa, brincalhão, gozador, cruzeirense.  Boêmio. Conquistador. Deu trabalho para a Odete –  e também para o filho, para as duas filhas, Helen e Noelma.

Carinhoso, prestativo, atencioso e divertido. Tinha um milhão de amigos.

Avô quase que de tempo integral. As duas netas distam 11 anos – Marina, minha sobrinha, a moçoila; Eduarda,  5 anos de muita esperteza, filha da caçula Noelma. Desfrutaram da disponibilidade de Noel Rosa.

Agora, ele vai encantar estrelas. Muita luz para Noel Rosa.

Força e consolo para as pessoas que o guardam no coração.

 

margaridasRetomo o blogue esta noite, depois de dois dias de gazeta forçada. Sim, estou quase no ponto. Continuo sem saber como batizar o mal que me acometeu. Dengue sei que não é, porque dessa eu já fui freguesa – tenho sete nos costados, nenhuma hemorrágica, graças. Conheço os sintomas de cor e salteado. Não tive febre, então o mais provável é que é a Zika mesmo, que das três é a mais maneira – a Chikungunya ou Chicungunha também é brava.

Não, não fui ao médico, mas não sou exemplo. Andei tendo overdose de médico e hospital nos últimos três anos – para não falar de boa parte do resto da minha vida passada – sou praticamente um caso de compêndio. Se puder evitar, passo à léguas.

Engraçado, esse nome, Zika! Parece, e deve ser, redução de ziquizira: má sorte, confusão, azar, urucubaca. Quem já não ouviu alguém dizer: “Fulano tá na maior zica…!” O pai Google me ensina que, hoje, a gíria funqueira contempla interpretação avessa. Assim, ‘muleque zica’ ou ‘mlk zica’, seria ‘muleque massa’, ‘legal’.

Eu, hein, desafasta! De Zika já basta o vírus da febre, que nem sempre vem. Mas a dor aqui e acolá e mais ali, e a coceira, afe! Mesmo com antialérgico, ainda estou me coçando…

Saravá! Cruz credo, mangalô três vezes!

 

 

 

 

 


2 comentários sobre “A vida do jeito que a vida é…

  1. Nossa, levei um susto agora. Feliz porque a Zélia finalmente voltou para casas e triste porque seu Noel foi para o andar de cima. Que o merecido descanso. Meus sentimentos à família.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s