O Recife não é o Rio de Janeiro, felizmente

No trecho mais tranquilo da praia fica o Parque Dona Lindu, com teatro, galeria e área para prática esportiva e lazer e família - Fotos: SE
No trecho mais tranquilo da praia fica o Parque Dona Lindu, à esquerda, com teatro, galeria e área para prática esportiva e lazer e família – Fotos: SE
por Sulamita Esteliam

Domingo pela manhã, eu e meu companheiro saímos para uma longa caminhada na praia, no afã de aproveitar a maré seca prolongada, típica da lua cheia. No ponto em que escolhemos para atravessar a avenida, dos mais movimentados de Boa Viagem, chamou nossa atenção uma viatura da PM com o pisca alerta ligado.

Dois policiais estavam encostados no carro e quatro no calçadão, ao lado do quiosque da Nice, e em frente à barraca da Suzi, antigo Posto 9; com novos postos guarda-vidas, Posto 7.  Aparentemente, à média distância, não havia nada que justificasse a presença ostensiva.

Mesmo que, na pratica, a primavera se faz verão desde o 7 de setembro. E a segurança é reforçada a partir dessa época, mais pelo grande afluxo de turistas, o que sempre atrai espertinhos e espertalhões. Desde que o mundo é mundo. e aqui e alhures.

No 07 de setembro, estava assim o Posto 7
No 07 de setembro, estava assim o Posto 7

Posto 7_dia 07.09.2015

Bafejada pela presença constante do sol, a praia é movimentada todos os dias. Claro, especialmente nos fins de semana. Mas é no domingo que o bicho pega, pra valer. No bom sentido.

Cada centímetro de areia é disputado, alacremente, em quase toda praia urbana, como o são as praias cariocas e o é a recifense. Afinal, ninguém é de ferro. Quem rala a semana inteira tem direito ao lazer no espaço mais democrático da cidade. Ainda que nem todos concordem com igualdade de direitos. Ou se ache mais iguais que os outros.

Por insistência de Júlio, devo confessar, fomos conferir de perto. Estava tudo tranquilo. Nice nos cumprimentou com um sorriso de ponta a outra, como sempre. Suzi estava no azáfama costumeiro para dar conta da clientela, e nem prestou atenção à gente. Sinal de que estava tudo bem. Os policiais conversavam entre si. Se algo houve, foi rotineiro.

Enquanto descíamos à areia, Júlio não se furtou ao comentário, entretanto: “Ainda bem que não é nada. Agora que o Rio de Janeiro resolveu nos envergonhar, pensei que o Recife tivesse aderido à barreira policial na praia…”

O Recife não é o Rio de Janeiro, felizmente.

Ainda que o prefeito Geju (Geraldo Júlio), o que tudo faz – desconfia-se que inventou o Recife, e portanto o mundo, já que o mundo começa aqui, ou melhor, ali, no Marco Zero – peque pelo exagero. Tem feito intervenções, a meu ver, desnecessárias, e até abusivas, na praia e na orla. Nunca vi nada parecido.

Posso falar do tempo que moramos aqui: 18 anos. Como mineiros que se prezam, bem junto ao mar. Vamos combinar, que sentido faz morar em cidade litorânea se não for assim…?

Compreensível que todo administrador queira deixar sua marca no maior cartão postal da cidade.

João Paulo (PT – 2001/2008), fez a Academia da Cidade, no ponto da praia em frente ao Jardim 2, implantou a ciclovia em 6 dos 7,8 km da orla; também inovou na pintura da pista de caminhada no calçadão, que passou a ter cores alternadas. Organizou o comércio na areia e retirou os ambulantes do calçadão. Isso na primeira gestão.

Na segunda, ousou trocar o calçamento de pedras portuguesas, de anos;deixou recortes para preservar a memória. Aportaram os blocos de cerâmica coloridos e intertravados. Construiu seis banheiros públicos, femininos e masculinos, entre a praia e o calçadão, tudo com acessibilidade. Fez o Parque Dona Lindu, alvo de muita polêmica oportunista e até batalhas judiciais, vãs.

Antes de deixar o cargo, João Paulo assinou ordem de serviço, para o sucessor João da Costa (PT – 200920012) executar. Contemplava modernização dos 61 quiosques no calçadão, construção de mais três banheiros públicos e reforma das quadras de futebol e poliesportivas. Tudo feito.

Geju, um técnico desconhecido levado à prefeitura pela mão e esforço do falecido Eduardo Campos (PSB), de quem foi secretário de Planejamento, começou estabelecendo o que a lei já garante: o uso do espaço público sem necessidade de pagar. Reservou faixas de areia onde o banhista pode instalar sua canga, sua cadeira e guarda-sol, levar seus comes e bebes, sem ter que consumir dos barraqueiros.

Depois colocou placas, pretensamente educativas ao longo de toda a orla, estimulando o ato de preservar o espaço que é coletivo. Detalhe: todas elas com patrocinadores bem evidentes: um banco, uma cervejaria, uma fábrica de refrigerantes.

Substituiu os antigos e implantou novos equipamentos de ginástica em concreto e aço pintado por ilhas para aço inox no calçadão, com tratamento térmico, ao que consta. Reformou os parquinhos infantis ao longo da praia, que ganharam brinquedos em madeira de reflorestamento, em substituição aos antigos de concreto e ferro pintado.

Novas quadras foram construídas e as antigas reformadas. Os banheiros também levaram uma guaribada, que inclui a instalação de chuveiros e a cobertura das paredes externas por cerâmica. Em todas as obras, nome e logomarca dos patrocinadores salta aos olhos: o banco, a industria de bebidas, um grande armazém de construção e equipamentos, uma multinacional de alimentos.

Exceto nos novos quiosques de monitoramento, que são obra do governo estadual. Mas a prefeitura é parceria no projeto Praia Sem Barreiras, que dá acesso ao lazer a cadeirantes.

O Segundo Jardim virou academia para a terceira idade, com pista de caminhada e equipamentos em aço inox. Nada contra. A não ser o fato de que o lugar, antes aprazível e bucólico lugar, fere os olhos tamanha poluição visual.

Andei fora da cidade bastante tempo. Só hoje usei o calçadão para caminhar, no fim de tarde. Levei o maior susto quando me deparei com a mudança no ambiente. Pensei, criaram espaço reservado para gente diferenciada. Contraponto ao lado de lá, o da praia, território de Zé e Maria Povinho.

E os tapumes indicam que a “requalificação” está em curso. Sempre com parceria privada.

Claro que Geju não inventou a parceria público-privada. Em Beagá, capital das Gerais, de onde eu venho, vem da década de 80 o sistema de “adoção” de espaços públicos, praças e jardins, sobretudo, pela iniciativa privada. De fato, é uma saída para dividir com a sociedade os custos do investimento em serviços públicos.

O que causa espécie é o abuso do mau gosto, e nenhuma preocupação em ser discreto.

 

 

Com certeza, não se fazem mais socialistas como antigamente.

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Sobre a segregação do espaço público no Rio de Janeiro, a pretexto de segurança, é imperdível a crônica do colega Xico Sá no El País Brasil: Relatos selvagens das praias cariocas; da última frase do parágrafo 18 e todo o parágrafo 23; postagem do vídeo da inauguração.

Recomendo, também, a leitura do Leonardo Sakamoto, em seu blogue, no mesmo diapasão: A solução para Rio e São Paulo: jogar os pobres fora.

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Postagem revista e atualizada dia 29.09.2015, às 10:01: inclusão da palavra vãs no 13º parágrafo; da [ultima frase do 18º parágrafo e de todo o 23º parágrafo; vídeo da inauguração da Academia Recife em Boa Viagem; link do artigo do Sakamoto.


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