Querem compartimentar a espontaneidade no Recife

por Sulamita Esteliam
Naná Vasconcelos em ensaio  com os batuqueiros nas comunidades - Foto: PCR/2013
Naná Vasconcelos em ensaio com os batuqueiros nas comunidades – Foto: PCR/2013

Fiquei chocada quando soube, fins do ano passado, que Naná Vasconcelos foi expurgado do Carnaval do Recife. Durante 13 anos comandou 400, depois 600 batuqueiros na abertura da melhor folia do Brasil, hermanamente, partilhada com a catarse das ruas de Olinda – aqui e aqui no blogue. A meu ver, é o melhor da festa.

Na verdade, a história acabou não se confirmando. E Naná vai abrir o Carnaval 2014 do Recife, e os ensaios começam esta noite, na Rua da Moeda. É o que leio nos jornais do dia, e corro para atualizar a postagem. Melhor ter que dar a mão à palmatória, do que privar-nos de Naná.

Absurdo seria, como cogitei no texto original, se a finura, a simplicidade e a ancestralidade transbordante de Naná, reconhecido como maior percussionista do mundo, não coubesse nos compartimentos da atual administração da cidade. É o que sopram “os meus perplexos botões”, como diz o Mino Carta.

Semana passada, li que a tradicional concentração de blocos no Pátio de Santa Cruz, na Boa Vista, entretanto, está suspensa. Assim como a espontaneidade das agremiações populares que desfilam, todos os anos, no Recife Antigo e outros sítios do Centro da Cidade, está engessada, senão ferida de morte. As novas exigências para participar da festa implicam investimentos que excluem a maioria.

Agora, descubro, num delicioso texto, assinado por um certo Pedro Brandão, no blogue Direitos Urbanos, que o Carnaval que vara a madrugada e amanhece o dia, em alegres, descompromissados e multicoloridos arrastões, passa a ter hora para acabar. Informa-me, também, que as troças ou blocos que fazem a alegria nos mercados públicos também estão proibidas. Afe!

Reproduzo um trecho:

No dia 13 de fevereiro de 2013, na manhã da quarta-feira de cinzas, fiz o seguinte post no meu facebook:

Às 06:10 da manhã, saiu o arrastão do Marco Zero. Sem dúvidas, o melhor momento do carnaval. Orquestra gigante, gente que parecia que nem tinha brincado 4 dias e, claro, todos bêbados e felizes. Incrivelmente, os gritos de “ah, é Pernambuco”, não paravam. Às 7:30, chegou a hora de partir. O homem da corneta já não aguentava mais. Uns resistentes permaneceram. 

Foi-se mais um carnaval.

Hoje, as vésperas do carnaval de 2014, boêmios de todo mundo recebem a notícia que a Prefeitura e órgãos de segurança pública, seguindo recomendação do MPPE, decidiram que a folia momesca terá horário para terminar: às 2 horas da madruga.

Clique para ler a íntegra.

Ao que parece, a felicidade não cabe nesta gestão socialista.

Começo a ficar preocupada com o que acontece com as pessoas, na verdade. E o artigo do Pedro me lembra o hino da campanha de Dudu: “Queiram ou não queiram os juízes…/ o nosso bloco é de fato campeão…”?

As palavras, a poesia, as pessoas e suas interpretações….

Política com viseira, me diriam. Só que reconhecida por ampla maioria da população que parece aplaudir o apartheid cultural e social, pois é disso que se trata. É o que dizem as pesquisas recentes, a se acreditar em pesquisas.

Há gosto e versões para tudo. E há exemplos simbólicos do andar da carruagem…

Praia de Boa Viagem: no verão é assim... - Foto: SE
Praia de Boa Viagem: no verão é assim… – Foto: SE

Domingo passado, por exemplo, fiquei de cara com o desplante de uma senhora, já bastante avançada no tempo – aparentemente muito mais do que esta escriba -, na Praia de Boa Viagem. Ela espinafrou um abulante, vendedor de churrasco, porque ele estava “poluindo a praia, enfumaçando todo mundo…”

Esculhambava, e olhava em volta, buscando aprovação, que não obteve. “Não é um absurdo?”, perguntou para mim, já à beira da histeria. “O cara está trabalhando, tem direito. Daqui pouco ele segue em frente e a brisa fica …”, contemporizei.

A mulher surtou, de vez: “Sei que ele tem direito a trabalhar, mas não pode perturbar as pessoas. Mas deixe estar, o prefeito vai colocar ordem nesse furduço. Aliás, já começou… Aí eu quero ver essa palhaçada continuar, essa falta de higiene, tudo a céu aberto. Quero ver ele continuar vendendo suas porcarias…”

Não respondi, não valia à pena. Tinha razão o meu companheiro, que já me sussurrava ao pé do ouvido.

Mas o homem, que a princípio fazia ouvidos moucos à cantilena da mulher, sentiu o golpe, e devolveu com lição de civilidade: “Porcaria não, a senhora seja mais educada. Não chame meus produtos de porcaria”.

A mulher não se intimidou e o desafiou: “É porcaria, sim. E você vai fazer o quê? Vai me agredir? Vamos, me agrida. Me agrida, que você vai conhecer a Lei Maria da Penha….”

Dá para sentir a falta de noção.

(A Lei Maria da Penha é aplicável somente em caso de violência doméstica contra a mulher.)

Tá certo que a praia é o quintal cinco estrelas dos moradores de Boa Viagem, privilégio que esta escriba também desfruta. Mas não é por estar em casa que a gente pode perder o senso. Quem estava agredindo quem?

O homem e sua carrocinha-churrasqueira acabaram ficando mais tempo do que ficaria, simplesmente porque os banhista do entorno o encheram de pedidos, em claro desagravo ao ambulante. E a mulher destemperada ficou a ver navios.

É bom situar a história: o reordenamento da praia só se fez necessário porque a nova gestão cochilou, e deixou que o espaço de lazer mais democrático da cidade gestasse nichos de privilégios. A ausência de fiscalização gerou, inclusive, latifúndios de areia.

Pior, um barraqueiro privilegiado, de nome Pesão, jactou-se na mídia de ter triplicado seu espaço sob a proteção de quem ele teria ajudado a eleger. Mais, a Polícia Militar lhe estaria garantindo a segurança dirigida, cotidianamente. Bocão deveria ser o nome do sujeito.

Foi a senha, na verdade despertador , para o alcaide agir – certamente admoestado pelo padrinho governador, que quer vir a ser presidente do Brasil.

Nesse caso, seria bom que Dudu desse uma voltinha pela Praia de Porto de Galinhas. Lá, hoje, é raro encontrar uma barra gestada por nativos. A maioria tornou-se empregada de empresários da estirpe de Pesão. A administração local, que teve apoio do governador para se eleger, finge que não vê.

No caso do Recife, a incontinência verbal do barraqueiro empresário, comprometeu prefeitura e governo do estado, e precipitou a situação. Agora, tem que mostrar serviço.

O espaço de ocupação para cada barraqueiro está limitado a 12 metros de frente; criam-se currais para banhistas que querem levar sua própria cadeira e guarda-sol; libera-se área do preamar para os trauseuntes; mantém-se a proibição de vender bebida em garrafas de vidro. Tudo conforme manda a lei.

As pessoas se esquecem, talvez, que a praia é espaço público, de uso coletivo. Portanto, a rigor, a presença de barraqueiros não pode impedir que eu estenda a minha canga e arme meu guarda-sol onde bem entenda. Aliás, há uma placa da Marinha do Brasil, fixada em diferentes pontos da praia: “Patrimônio do Povo Brasileiro”.

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Postagem revista e atualizada às 15:30 e às 19:43, hora do Recife.

 


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