A ambiguidade brasileira e a identidade negra

por Sulamita Esteliam

Zumbi e Dandara_nNa sala de espera de uma clínica em que estive nesta sexta – empenhada que estou em finalizar a checagem geral na saúde antes que o ano finde – ouço uma mulher esmerando-se em cuidados para explicar a um casal atento uma certa dificuldade:

– Minha família também tem gente de pele escura, bem morena, assim… Meu pai é bem mulato, não chega a ser negro, então…

Sim, a mulher é parda, e os cabelos, bem tratados pela cosmética, um dia foram crespos.

A gente brasileira conhece de perto essa história. Certamente, cada qual de nós já ouviu conversa parecida na rua, numa roda de amigos, ou mesmo dentro de casa.

A palavra negro escapa da língua como se brasa fora. A cor da pele discrimina, a partir da palavra.

Tive que me conter para não ficar por ali, e ouvir o fim da conversa e, quiçá me meter jogando azeite na dúvida, e criando uma polêmica: “Moreno é mulato, mulato é pardo, pardo negro é…”. E isso não é defeito, é identidade.

Difícil assumir, sou testemunha.

Meu ouvido interno acionou o breque, ecoando a admoestação corriqueira da minha caçula, sempre que estamos em local público: “Maiinha, pare de ouvir a conversa dos outros, que mania feia…!”

Hábito de ofício. O que é da cronista sem antena e periscópio…!?

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Pelos critérios do IBGE, órgão encarregado de medir e traduzir em números a nossa identidade, negro é a soma de pretos e pardos autodeclarados; e pardos são todos os não-brancos.

Portanto os indígenas – os pardos originais da Terra Brazilis, assim definidos por Pero Vaz Caminha, na carta a El Rey Dom Manuel – estão dentro. Ainda que indígenas e amarelos sejam contados à parte, ao final são agregados, o que eleva a proporção de negros para pouco menos de 54%.

A boa notícia, desde há cinco anos, visível para quem acompanhou as manifestações desta semana que celebra a Consciência Negra, é que cada vez mais as pessoas, sobretudo jovens, assumem a negritude. Em louvor aos ancestrais, mas também em reafirmação da identidade, do pertencimento cultural c0mo escudo para enfrentar o preconceito, quebrar a discriminação e cobrar oportunidades. Caminho para a cidadania plena.

A outra face palpável, revelada pelo Censo 2010, o último, desnuda o mito da democracia racial brasileira, que sabemos nada tem de harmônica; haja vista a selvageria na Esplanada dos Ministérios durante a caminhada da Marcha das Mulheres Negras, dia 18.

Não surpreende, embora indigne.

Há cinco anos, a pesquisa censitária indicava, por exemplo, que 70% dos brasileiros casam com pessoas da própria raça ou cor. No entanto, é a cor que se leva em conta na hora de escolher parceiros – afora renda e nível social, porque se fosse raça, seria meio a meio. Ocorre que, por questões históricas, de triste memória, pretos e pardos formam a maioria pobre e de menor instrução, embora isso esteja mudando.

E os casamentos acabam por apontar a falácia da democracia racial brasileira. Tudo demonstrados pelos dados do Censo 2010 do IBGE: 75,3% dos homens brancos casam com mulheres brancas;69% dos pardos casam entre si; 65,4% dos indígenas, 44,2% dos amarelos e 39,9% dos pretos seguem o diapasão.

O último censo mostra, contudo, e pela primeira vez, que a população negra autodeclarada é maioria dentre nós: 50, 7%, sendo que 43,1% se diz parda e 7,6% se assume negra. E a parcela que se declara branca caiu para 47,7%.

A igualdade, entretanto, ainda é miragem. O abismo sócio-econômico a separar a população branca da negra é imenso e profundo. A despeito das políticas públicas compensatórias de inclusão, sobretudo na educação, estarem removendo as barreiras da trilha. Cotas, Pró-Uni, Pronatec e o próprio Bolsa Família encurtam a trajetória. Na real.

Há de chegar o ponto de equilíbrio.

Salve, Dandara! Salve, Zumbi! Salve toda gente negra guerreira.

 

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Postagemr evista e atualizada dia 23.11.2015, às 20.50h, hora do Recife: correção de erros de digitação e de pontuação em diferentes parágrafos.

 

 

 

 

 


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