O Congresso, o desrespeito e a ignorância política

por Sulamita Esteliam

A informação que se segue, você muito provavelmente não leu no PIG, então, permita-me começar pelo Facebook:

“(…)

Os aplausos efusivos a Dilma vindos da maioria engoliram a fracassada tentativa da oposição de direita (PSDB, DEM e PPS) de iniciar uma vaia contra a presidenta. Mas a oposição de direita não desistiu e quando Dilma mencionou a CPMF iniciou sua vaia, novamente abafada. Esta oposição mal disfarça sua misoginia, machismo e falta de educação em relação a Dilma.

Jean Willys-fb2Nenhum presidente (todos homens até a chegada de Dilma) foi tratado assim em sessão de abertura, mesmo o mais impopular deles. Logo, o motivo dessa tentativa de “avacalhar” a liturgia, antes sempre respeitada, não são os erros de Dilma, mas o fato de ela ser mulher. Nenhum dos machos da oposição de direita ensaiou vaias a Cunha, formalmente denunciado por crime de corrupção e lavagem de dinheiro. Se estes deputados pusessem uma melancia na cabeça, eles chamariam mais atenção do que da maneira que estão pretendendo.

Dá vergonha de ver esses homens de terno preto e cabelos brancos se comportando como alunos do fundão do Ensino Fundamental. Vergonha!”

 Jean Wyllys, deputado federal pelo Rio de Janeiro

 

A presidenta Dilma Roussef discursa na solenidade de abertura dos trabalhos legislativos do segundo ano da 55ª Legislatura. Foto: Lucio Bernardo Jr./ Câmara dos Deputados/Fotos Públicas
A presidenta Dilma Roussef discursa na solenidade de abertura dos trabalhos legislativos do segundo ano da 55ª Legislatura e encara a molecagem da oposição – Foto: Lucio Bernardo Jr./ Câmara dos Deputados/Fotos Públicas

Não, não é tudo viola do mesmo saco. Nem todo político é igual, porque as pessoas são desiguais, e algumas mais iguais ou desiguais que outras.

O deputado Jean Wyllys é uma grata surpresa, dentre outros representantes do povo, de partidos diversos, que fazem a diferença para melhor.

Todavia, se alguém tinha dúvidas sobre o nível de desequilíbrio da oposição no pior Congresso Nacional que o voto dos brasileiros pariu nos últimos tempos, as cenas da reabertura dos trabalhos deste ano, na última terça-feira, soterraram-nas.

Molecagem é pouco, é falta de educação, de decoro, de vergonha na cara, de senso. Se não respeitam, sequer, a autoridade presidencial, se estão se lixando para o que acontece com o país, se não se dão sequer ao respeito, o que não fazem com nossos direitos?

Sim, não podemos nos esquecer que nós os colocamos lá. E só quem cresceu sob os coturnos da ditadura pode afirmar que é melhor um parlamento sofrível do que parlamento nenhum. Longe o tempo em que eram, apenas, “trezentos picaretas com anel de doutor”, na definição de Luiz Inácio.

Eleição, após eleição, a coisa fica pior. Sabe por quê? A gente não presta atenção no sagrado direito de escolha, conquistado a duras penas, porque acha que político “é tudo a mesma coisa”, e bota lá qualquer um.

A gente esquece que vivemos uma República, onde os poderes são compartilhados. A gente não raciocina que qualquer um ou uma que ocupe a Presidência ão manda sozinho, não é imperatriz, pois são três os poderes: o que executa, o que legisla e o que julga.

A íntegra do texto de Brecht no poster, habita o banheiro aqui de casa, faz tempo...
A íntegra do texto de Brecht no poster que habita o banheiro aqui de casa, faz tempo…

Bertolt Brecht dá a medida em “O Analfabeto Político”. Recorro, em livre tradução: a gente estufa o peito e diz que odeia política, mas se esquece que é a política que determina o preço do feijão, da farinha, do peixe, da carne, do aluguel, do sapato, do remédio… a fila nos hospitais, o sumiço da merenda escolar, a violência policial, o tráfico, as milícias,  o volume morto,  o rompimento de barragens, o assassinato de reputações.

Ainda conforme o dramaturgo alemão, é da nossa ignorância política que nasce o menor abandonado, o assaltante, a prostituta… e a matança de pobres e negros, indígenas e sem-terras, o sumiço de Amarildos e Josés; o assassinato de mulheres por instinto animal de posse, por estupro e por aborto; a violência física, moral, psicológica e política contra mulheres, crianças e idosos.

É da nossa ignorância política, continua Brecht, que nasce “o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, corrupto, lacaio das empresas nacionais e multinacionais”.

 

 

 

 


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