Quando o caos estraga o espírito da festa…

por Sulamita Esteliam
A Dama de Copas não perde um Carnaval - Fotos: SEsteliam, Thiago Alexandre e Daniel Filgueira
A Dama de Copas não perde um Carnaval – Fotos: SEsteliam, Thiago Alexandre e Daniel Filgueira

Sim, dona Marluíta, do alto de seus 94 anos, tem razão: “O Carnaval é a melhor festa do mundo”.

Encontrei-me com ela na noite de domingo, na Praça do Arsenal. Vestida de Dama de Copas, sentadinha em sua cadeira de rodas, guardadas por suas valetes, duas bisnetas de boa idade. Concordou com a foto, mas cobrou cachê: “Me dê um xêro, sua danada!”

Mais adiante, já próximo ao palco, uma senhorinha vinha a passos lentos, conduzida pelo braço do neto e pela filha. Que bonitinha! Ela me devolveu o comentário e o sorriso: “Tá pra existir uma festa melhor do que o Carnaval, não é verdade?”

Concordo, plenamente.

É este o espírito folião, que veste brincantes de todas as idades, raças, credos e classes sociais, e se traduz nos blocos, troças, maracatus e orquestras, que faz o Carnaval do Recife ser a festa linda que é.

Ouso dizer que só mesmo um recifense de boa cepa para gostar mais dessa folia do que esta velha escriba. Mesmo quando, como este ano, não conto com a companhia do maridão, que não está para Carnaval. Acontece.

Por isso, é com dor no coração que registro e, a um só tempo, apelo às autoridades públicas desta cidade que escolhi chamar de minha. Pelo amor, não acabem com a nossa alegria.

Atentem aos responsáveis pela programação de shows durante folia: não tornem a escalar três bandas do peso de uma Nação Zumbi, JQuest e O Rappa num mesmo dia. É brincar com fogo e apostar no caos.

E a culpa, caro secretário de Segurança, Murilo Cavalcanti, por óbvio, não é das bandas nem, a rigor, do público. A culpa é de quem é pago para pensar nas consequências para a mobilidade e a segurança das pessoas, locais e turistas, numa festa de tamanha proporção.

Também não foram casos isolados, nem empurra-empurra, esbarra-esbarra, espreme-espreme comuns nas multidões. A horda estava solta, espalhando o pânico.

Euzinha, minha caçula Bárbara e o namorado só não fomos pisoteados, no Marco Zero, na Marquês de Olinda com Bom Jesus e na Rio Branco porque sabemos, os três, lidar com situações, digamos, de estresse.

É simples questão de bom senso.

Não há espaço para tanta gente no Antigo. Já era difícil antes, e agora com a dita reestruturação do Cais do Marco Zero para o turismo e a classe média que pode pagar por camarotes, ficou ainda mais complicado.

Também não há estrutura que segure a tsunami de gente e garanta o ir e vir, sem molestamentos ou violência de qualquer natureza. Deveria haver estrutura, pois para isso os governos existem – para cumprir o papel que lhes cabe: planejar para minimizar os problemas. Governar para as pessoas.

Quem faz a festa não são os governos, são os brincantes – contribuintes, visitantes, todos consumidores, boa parte eleitores que vão escolher o futuro prefeito. O protagonismo é do povo.

Este ano, teve um fator a mais para contribuir: a vizinha Jaboatão dos Guararapes, que costuma ter, pelo menos, três palcos oficiais de folia – que é em parte bancada pelo governo do estado – cancelou o Carnaval “por conta da crise”. Significa que os foliões de lá foram dormir mais cedo, por acaso?

Mas a programação é a isca que atrai o mar de gente. É preciso equilibrar a agenda.

O caos da segundona de Carnaval já está fazendo história na atual gestão. Nos três últimos anos, voltar para casa é a grande incógnita de quem vai brincar no Bairro do Recife e adjacências.

Nem mesmo quem apela para o expresso folia garante retorno tranquilo. O usuário que tem direito ao regresso por essa via, pois paga no embarque a tarifa de ida e volta, tem que amargar horas de espera. Simplesmente porque não há vazão para o fluxo de pessoas que chegam e que partem usando os mesmos caminhos.

Na madrugada de terça, a fila para os expressos que atendem a Zona Sul – a partir dos shoppings RioMar e Boa Viagem – contornava o quarteirão até a ponte móvel. Os ônibus que fazem o trajeto bairro-centro estavam presos no engarrafamento.

Euzinha, que tenho e uso meu direito à prioridade, esperei mais de uma hora para conseguir embarcar. E olha que abdiquei de ver a conterrânea JQuest e O Rappa, que amo. Depois dos vários arranca-rabos, consegui um cantinho numa ruazinha transversal, de onde foi possível ouvir, ver é impossível, Nação.

No capítulo de transporte, esqueça os táxis. O número é insuficiente. Quando há, o taxímetro torna-se figurativo. Vale a lei de Gerson.

Na madrugada do sábado, depois dos shows da abertura, que brinquei com minha filha Gabi e o namorado, atravessamos São José e Santo Antônio. Só conseguimos um táxi na Rua da Aurora, depois da Buarque de Macedo, a ponte do Galo, onde os garis já davam um jeito em nossa moral.

Passamos pelo terminal de Santa Rita, e lá os foliões estavam entregues à desdita, como sempre. Não há ônibus suficiente. Não tem polícia, nem guardas municipais, nem organizadores de filas ou algo assemelhado. Vimos de perto o caos, também ano passado e no anterior. É o que atesta o noticiário também este ano.

Enquanto isso, o prefeito Geraldo Júlio se nega a comentar o furdunço. Candidamente, diz à mídia local que “importa é que este foi o maior Carnaval de todos os tempos”.

Detalhe, não vi o prefeito nem qualquer de seus secretários com os pés no chão – em nenhum dos carnavais.

Agora, se é para matar as galinhas dos ovos de ouro, o caminho está bem andado…

 

 

 


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s