Para além do golpe e da luta de classes, impera o machismo

por Sulamita Esteliam
a presidenta Dilma Rousseff foi à Base Aérea de Brasília conhecer o cargueiro militar KC-390, o maior já construído no Brasil num parceria Embrae/FAB. Foto: Ichiro Guerra/PR/Blog do Planalto
A presidenta Dilma Rousseff foi à Base Aérea de Brasília conhecer o cargueiro militar KC-390, o maior já construído no Brasil num parceria Embrae/FAB. Foto: Ichiro Guerra/PR/Blog do Planalto

A Tal Mineira já tratou diversas vezes sobre o viés machista e misógino, que leva ao preconceito, e que está na raiz do assédio moral, do desrespeito à presidenta Dilma Roussef. E não apenas nas redes sociais.

Na opinião desta velha escriba, também, é preciso que as pessoas afetadas, independentemente de questões de gênero, acionem juridicamente os veículos e os jornalistas que se prestam a fazer o serviço sujo, que a minha geração costuma chamar de “penas de aluguel”.

Em toda profissão há desvios de conduta. Dentre os jornalistas, entretanto, a coisa está fugindo ao controle. Tenho pena dos sindicatos e da Fenaj, que devem zelar também pelo exercício ético da profissão.

É claro que sempre se pode alegar a pressão patronal, a necessidade do emprego e de salário, etc. Mas a gente sabe muito bem que, muitas vezes, a pessoa exerce com gosto o papel de algoz, em nome de um status e de uma clumplicidade que, cedo ou tarde, vai descobrir vã.

Aposto que a maioria nem toma conhecimento do Código de Ética ou da chamada ‘cláusula de consciência’ que desobriga o profissional de fazer aquilo que fere os princípios que regem o trabalho profissional.

Há os factoides, como gosta de citar a presidenta. Há a manipulação deliberada, pura e simples, da verdade factual para envenenar a opinião pública. Há acusações graves que precisam ser provadas por quem as faz. E há a desfaçatez que ultrapassa todos os limites e se configura em crime de incitação ao ódio, mesmo.

O que justifica um colunista da Folha – que aliás não é jornalista – sugerir o impeachment de Dilma, ainda que sem base jurídica, como alternativa “mais civilizada do que o assassinato”? Ato falho?

São tantos os casos, no que toca à presidenta Dilma, por exemplo, que vai acabar entulhando os escaninhos do Judiciário.

É o caso da semanal IstoÉ, que já pode ser chamada de revista, e hoje é mais conhecida como QuantoÉ. A matéria de capa da última edição ultrapassa todo e qualquer limite de decência, e providências cabíveis estão sendo tomadas pela Advocacia-Geral da União e também pelos advogados particulares da cidadã Dilma Roussef.

Repercutiu muito mal na blogosfera alternativa e nas redes sociais #IstoÉMachismo. E o mais triste e lamentável é que quem escreve a matéria, que não pode ser chamada de reportagem, porque se baseia em ilações caluniosas e interpretações direcionadas, é uma mulher, Débora Bergamasso. Não é a primeira nem será a última a incorporar a cultura do machismo e usá-la para a própria conveniência, infelizmente.

Quem melhor escreve sobre isso é a página da organização feminista Think Olga no Facebook. Transcrevo para reflexão:

Think Olga

 

 

 

Isto é machismo_nEste não é um post sobre política.

Este é um post sobre GASLIGHTING, que é uma forma de machismo cruel e perniciosa. Pode ser descrita como uma violência emocional que se dá por meio de manipulação psicológica e leva a mulher e todos ao seu redor acharem que ela enlouqueceu ou que é incapaz.

Se você é mulher certamente já passou por isso ou conhece alguém que já viveu. “Você é louca”, “Não dá para discutir com você desse jeito”, “Isso nunca aconteceu, você está inventando!” (quando você tem certeza do que está dizendo e passa a duvidar de si).

É muito grave quando a imprensa apresenta esse comportamento – e ela o faz com toda intenção e consciência de seus atos -, pois ela legitima sua ocorrência nas nossas vidas e na vida de todas as mulheres.

Como no caso da capa desta semana da Revista ISTOÉ, que traz a presidente Dilma em uma foto de aparente descontrole emocional e cujo foco é noticiar esse comportamento na presidenta com o único objetivo de retratá-la como louca e desmerecê-la pessoal e profissionalmente.

Em meio ao conturbado momento político que vivemos, essa é uma estratégia baixa e covarde para convencer a população de que Dilma não é confiável para estar no comando da nação por problemas psicológicos. Muitos outros presidentes e políticos de grande influência no Brasil já passaram por momentos de crise tão ou mais graves quanto os que Dilma vive atualmente, mas suas faculdades mentais jamais foram questionadas dessa maneira.

O negativo estereótipo de pessoa “louca descontrolada” recai apenas sobre as mulheres. Nos homens, os sinais de frustração e raiva são percebidos como demonstrações de poder, confiança, autoridade. Como apontaram o usuário do Twitter Jonatas Andrade e Letícia Bahia (da página Reflexões de uma lagarta) aqui no Facebook, o ex-técnico da seleção brasileira Dunga é conhecido por seu comportamento explosivo, mas quando o assunto foi capa da Revista Época, a abordagem foi bem mais positiva: “O Dom da Fúria. O que nos faz perder o controle. E como usar a raiva a nosso favor.” Veja:https://twitter.com/JonatasAndrad…/status/716317114878062593

Não se trata de um problema exclusivo do Brasil, é o velho conhecido machismo de sempre. Hillary Clinton, candidata à presidência dos EUA, é vítima constante de jornais e revistas que a retratam como uma pessoa agressiva e assustadora quando ela não se comporta de maneira que a diferencie de seus colegas de pleito.

O mesmo acontece com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, retirada de sua humanidade na capa da revista New Statesman com uma montagem que a transforma em um ciborgue. Cristina Kirchner, presidente da Argentina entre 2007 e 2015, era retratada de forma sexualizada, chamada de louca e vaidosa, quando nada disso tinha qualquer relevância em sua vida política.

Mas não são apenas as chefes de estado que sofrem com o problema. Qualquer mulher de destaque pode ser vitima e, se for negra, o gaslighting é ainda pior por causa do estereótipo da “mulher negra irritada”. Existe uma visão racista que recai sobre as mulheres negras de que elas são barraqueiras, de confusão. Michelle Obama já precisou rebater publicamente esse tipo de acusação e Nicki Minaj, quando teve sua discussão com Taylor Swift no Twitter repercutida na imprensa, aparecia em fotos com uma expressão de raiva e Taylor não.

É preciso reagir, falar, não aceitar. Dizer à Isto É que ‪#‎IstoÉMachismo‬ e entender que o machismo é a engrenagem que está detrás disso tudo e ele nos engole diariamente. Discordem politicamente da Dilma o quanto quiserem, mas NÃO ACEITAMOS que a pintem de louca pois conhecemos na pele o peso que tem essa tinta.


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