Dilma vestida de emoção, nos braços da sororidade

por Sulamita Esteliam

Na última quinta, me deixei envolver por atividades domésticas ao longo da tarde e, à noite, o tempo voou num papo prazeroso com a filha mais velha do companheiro, minha de coração, Juba-Juliana, enquanto o pai não chegava da faculdade. Ela veio de Beagá passar o fim de semana conosco. Hoje levei o dia flanando pela praia em boa companhia e, depois do almoço tardio, que ainda preparei no retorno, precisei de um tempinho no berço antes de abrir o computador.

Decidi manter a postagem que teria sido obrigatória, ontem, anteontem. Adoro ignorar o tal do dead line, que se dane. Por consequência, escrevo sem passar os olhos pelo noticiário do dia – da sexta que quebrou a barra e dobrou o sábado -, para evitar contaminação. Por isso tenho um blogue, não um sítio noticioso.

Quero falar da emoção que foi cobrir, ainda que à distância, o encontro das Mulheres pela Democracia com a presidenta Dilma Rousseff, no Palácio do Planalto, na quinta passada. Acompanhei ao vivo pela internet, via Blog do Planalto/TV NBR, registrando no Twitter.

Poucas vezes, nestes cinco anos e meio de governo, Dilma Vana  Rousseff se deixou ver com tamanha clareza e emoção. Revelou-se em toda sua humanidade, numa explosão afirmativa e de sentimentos a um só tempo eletrizante e comovente. E como é bela a Dilma em sua inteireza e claridade.

E como estava lindo os salões lotados de mulheres dos sete cantos deste Brasil. Lá estavam representantes de dezenas de movimentos sociais, parlamentares, ministras, ex-ministras, vice-governadoras. Advogadas, educadoras, filósofas, agricultoras, escritoras, bancárias, trabalhadoras domésticas, estudantes. Mulheres negras, indígenas, brancas, lésbicas e transexuais. Feministas. Mulheres-meninas, crianças. Alguns homens também deram o ar da graça.

E a energia da resistência antigolpe e da emoção contaminou a todas, e resultou numa catarse que transcendeu  as paredes envidraçadas do Planalto. Uma hecatombe que cerimonial não entendeu, e tentou brecar, e que por isso levou um pito público da presidenta: “Menos, cerimonial, menos. Vamos com muita calma, e muito cuidado”, exortou Dilma, logo que tomou a palavra.

Talvez, o zelo profissional se deva aos “brios” feridos por críticas da mídia venal de que a presidenta tem transformado as cerimônias no palácio em “palanque contra o impeachment”. Erraram a metáfora: o Palácio presidencial é o bunquer, a trincheira de onde Dilma Rousseff pode se defender contra o bombardeio e a execração golpista desse mesmo PIG.

A presidenta começou o discurso quase sem voz, roubada pelo emocional. Hidratou a garganta e acalmou os sentidos com água. Vestiu-se de indignação e partiu para cima de seus algozes.

Simbolicamente resumidos na capa da última edição da semanal IstoÉ/QuantoÉ. E na trapaça tão bem urdida no editorial da Folha de SP no início da semana, a propor eleições presidenciais antecipadas: “Nem Dilma nem Temer”, condição sine qua non para o pacto político indispensável à paz verde e amarela – mais amarela do que verde, diga-se.

—  “Produziram uma peça de ficção com a intenção de desmoralizar a presidenta da República por que ela é mulher.”

— “Eu nunca me opus a pactos. Pactos podem oferecer saídas para a solução da crise. O Brasil precisa de um grande pacto. Mas nenhum pacto prosperará se nas tiver como premissa o respeito à democracia. Nenhum pacto pode ser discutido se não se respeitar os mais de 54 milhões de brasileiros que votaram em mim, e os milhões que não votaram em mim, mas que participaram das eleições por que acreditam e honram as regras da democracia”. 

Nas falas das mulheres solidárias, que anteciparam a entrega de manifestos e presentes, o mínimo que ouvira foi de que ela, Dilma, “é vítima de estupro político”.

A frase veio na voz melodiosa e firme da filósofa e escritora Márcia Tilburi. Provocou comoção. Necessária.

Dilma não falou de improviso, como tem arriscado com frequência nas coletivas de imprensa cada vez mais frequentes, e cada vez com mais impacto. Essenciais.

O discurso, como tem sido desde que assumiu a tarefa de defender o próprio mandato, no diapasão da energia das ruas, das manifestações setorizadas e crescentes de apoio, entretanto, não foi uma mera leitura. Foi o eclodir de indignação e assertividade, um vomitar do travo a lhe envenenar o sangue, o corpo, a alma. Foi pronunciado em tom crescente de emoção incontida e partilhada, alternando dor e arroubo.

“Então à mulher só há duas hipóteses: ou é autista ou descontrolada. Não perguntam a um homem se ele perde o controle.”

Ali estava a presidenta da República ultrajada, desde sempre, mas especialmente a partir da Copa do Mundo. Ali estava a mulher de fibra, que há cerca de 1.946  dias e seis horas é assediada moral e psicologicamente, vilipendiada, atacada, ridicularizada, desrespeitada, violentada.

“Tenho suportado a tudo, a todo tipo de agressão e desrespeito, à mulher e à presidenta da República.” Conteve o choro.

Recebeu o clamor: “Força, Dilma!”, “Dilma, eu te amo!”

“Não perco o controle, não perco o eixo nem a esperança, por que sou mulher, e tenho orgulho de ser mulher. Vocês me trazem confiança.”

Alvo, mas não vítima da intolerância que aponta e enumera a progressão de violências geradas por atitudes de ódio e negação do outro, do diferente, do diverso: insulto, ofensa, agressão física, estupro, assassinato.

“Eu quero sim, um pacto político porque governo para 200 milhões de brasileiros e tenho responsabilidade. Mas um pacto requer respeito ao voto, fim das pautas bombas, retomada do crescimento, preservação de todos os direitos e reforma política.”

Condições dadas no contraponto da seletividade que constrói a narrativa golpista, onde os vazamentos seletivos é condimento abusivo. A eles a barreira da legalidade.

Não se depõe uma presidenta por dificuldades na economia, por não gostar dos olhos ou do jeito dela. Não se rompe com a democracia para se chegar ao poder por atalho à revelia da lei.

“Determinei ao ministro da Justiça a apuração rigorosa e providências jurídicas cabíveis dos vazamentos recentes. Passou de todos os limites.”

Uma mulher que na juventude enfrentou a ditadura, a prisão, a tortura, que depois dos 60 anos encarou e venceu um câncer, não se deixa quebrar pela emenda. Dilma fechou com Cora Coralina:

“(…) Sou o que tenho que ser/Sou o que for preciso/o que preciso for eu serei.”

 

 

Força, Dilma! Estamos com você.

Eis a íntegra do discurso presidencial.

 

 

Transcrevo o Manifesto Feminista pela Sororidade, entregue à presidenta Dilma Roussef, do qual esta escriba é signatária, junto com mais duas mil mulheres até agora – clique para assinar:

 

Somos um grupo de mulheres sororárias, trazendo nossa declaração de apoio a você, presidente Dilma.
 
Sororidade é um substantivo feminino que não existe nos dicionários brasileiros. Uma palavra que faz parte do campo semântico do feminismo, é derivada de soeur, do francês, cuja tradução é irmã. Sororidade é, portanto, o irmanar-se entre mulheres. É vê-las, apesar das diferenças, unidas, no fato de sermos e vivermos mulher. É a compreensão de que fazemos parte do coletivo, de um comum. De que não estamos sozinhas. É uma palavra que, se vivida, produz sentimento potente que nasce no peito, que expande o peito. E faz com que não nos olhemos como adversárias, como não somos, mas como irmãs, que é a nossa essência. E é por isso que estamos aqui, neste ato.
 
Como escreveu Maria Gabriela Saldanha: “a todo momento tentam nos matar em muitos níveis: sexual, emocional, politicamente. Dilma já teve câncer, já foi torturada com choques elétricos, abusada nos porões da ditadura militar, vem sendo chamada de puta nas varandas das elites, teve adesivo simulando estupro com o seu rosto estampado nos carros e ainda está de pé. Dilma ainda está de pé. Nós estamos de pé com ela, eu queria muito poder dizer isso pessoalmente”. 
 
E nós viemos aqui para dizer isso pessoalmente.
 
Dilma, você é um pouco de cada uma de nós. Mulher. Mulheres. Mulheres nascidas ou vividas. Mulheres descobertas.

Nos consterna ver e ouvir os sistemáticos ataques violentos de ordem sexista contra a Presidenta da República, Dilma Rousseff, desde que assumiu este cargo. Em um contexto de grave crise política, tais ataques tem se tornados ainda mais violentos Nenhuma discordância política ou protesto pode abrir margem e/ou justificar a banalização da violência de gênero – prática patriarcal e misógina que é, por essência, o antagonismo da dignidade humana.

A solidez de uma democracia é também medida pela igualdade de gênero. No Brasil, mesmo em contexto democrático, continuamos lutando para que as mulheres sejam tratadas de forma igualitária e isonômica em todos os ambientes em todas as dimensões do cotidiano. E essa luta é árdua, nós sabemos. Mas para que ela continue e para que as conquistas avancem, nós necessitamos do Estado de Direito e da plenitude democrática das instituições.

É por isso que, neste contexto, nós, feministas, decidimos nos manifestar contra a possibilidade de um golpe de Estado no Brasil. Um golpe que, diferente do último que o Brasil experimentou, não será protagonizado pelas Forças Armadas. Um golpe que consiste na ruptura com as práticas democráticas e com a ordem constitucional. Articulado por elites políticas e econômicas dispostas à ilegitimamente criar condições para a instabilidade unicamente para, em seguida, recompor uma estabilidade que lhes convém. Querem forçar a saída, à revelia da lei, da Presidenta Dilma de seu cargo, conquistado legitimamente por duas vezes por meio de eleições democráticas,Salvo comprovação de crime comum ou de responsabilidade, somente pelo voto deve se dar a alternância de poder.

Nosso posicionamento contra o golpe não significa apoio incondicional ao Partido dos Trabalhadores ou à gestão da Presidenta. Os rumos da política conduzidos pela atual administração muitas vezes negligenciaram os nossos direitos bem como os de outros grupos sociais historicamente vulnerabilizados: negros e negras, população indígena, pessoas LGBTs, dentre outros.

Contudo, entendemos que o retrocesso contido na possibilidade de ascensão do projeto conservador, constitui um grave risco e fragiliza as conquistas dos últimos anos, especialmente aquelas que beneficiam as camadas populares na qual recaem as obrigações e os deveres sociais:as mulheres negras e de baixa renda.

São conquistas como o Bolsa-Família, do qual mulheres são 93% dos titulares do cartão. Como as cotas, o PROUNI e o FIES, que não só aumentaram o números de pobres e negros nas universidades, como o números de mulheres. Como a Lei Maria da Penha, sancionada pelo ex-presidente Lula em 2007 e considerada um exemplo internacional de legislação de combate à Violência contra a Mulher pela ONU. Como a PEC das domésticas, que assegurou direitos trabalhistas para as trabalhadoras domésticas, já que o trabalho doméstico é majoritariamente feminino, e negro, no Brasil.. Conquistas como o programa Minha Casa Minha Vida, que prioriza mulheres como titulares e tem 94% de mulheres entre os beneficiários das residências para baixa renda.

Alertamos que, em contextos de crise econômica mundial, a História nos mostra que não é novidade o avanço da extrema direita na arena política. O Brasil não é exceção. O réu Eduardo Cunha e o deputado Bolsonaro, dentre outros seguidores da cartilha ultraconservadora, tem como plataforma política o ataque aos direitos coletivos e às liberdades individuais, mas, principalmente, o ataque à vida das mulheres. Cunha, inclusive, já se articula para aprovar lei que dificulta o aborto até em casos de estupro, algo que já é permitido pelo Código Penal brasileiro desde 1984. Finalmente, há que se pensar que no plano simbólico seria lamentável que a primeira mulher eleita presidenta no Brasil fosse derrubada injustamente por homens que são, comprovadamente, corruptos.

São 54,5 milhões de votos em um país de maioria de mulheres, negros e pobres. E é por elas e por eles que defendemos que essa escolha seja mantida, Queremos que a jovem democracia brasileira sobreviva e possa amadurecer. Porque ela é condição fundamental para que possamos avançar nas políticas de igualdade de gênero no país.

#MulheresComDilma
#FeministaspelaDemocracia
# NãovaiterGolpe
 
 
Escrito por Stephanie Ribeiro, Manoela Miklos, Mara Coradelo, Antonia Pellegrino

 

 

 

 


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