O poder da cultura e da comunicação contra o golpe

Brasil_democracia_npor Sulamita Esteliam

O ministro da Cultura, Juca Ferreira, tem plena razão: é crescente a mobilização no Brasil contra o golpe. Significa que, pontua,”cada dia é menor o número dos que são manipulados pelos meios de comunicação de massa no Brasil”.

A fala de Juca Ferreira se deu durante o ato que reuniu trabalhadores das artes e da Cultura na Fundição Progresso, na Lapa, Rio de janeiro. O manifesto Cultura pela Democracia foi lido pelo escritor Eric Nepomuceno.

O ato, em si, é uma prova de que a cada dia mais gente se soma à resistência contra o impeachment, por que é golpe.

Em plena segundona, 5 mil pessoas no anfiteatro, capacidade esgotada. Lá fora, cada vez mais gente ia chegando, e assistia à sucessão de discursos de artistas, intelectuais e representantes dos movimentos sociais, e também às cantorias pelo telão instalado junto aos arcos centenários.

Chico Buarque, Leonardo Boff, José Celso, Gregório Duvivier, Guilherme Boulos, Otto, Tico Santa Cruz… Lula chegou e foi ovacionado. Chico e Lula se abraçaram longamente, emocionados. Beth Carvalho cantou o Samba da Democracia.

O ato na Lapa que a Globo escondeu
O ato na Lapa que a Globo escondeu e a TV Brasil mostrou ao vivo- Foto: Ricardo Stuckert Filho/IL feita com drone

Aí, quem estava dentro juntou-se à massa que já era uma multidão lá fora. Dezenas, talvez centenas de milhares, porque esse negócio de números depende do freguês, mas as imagens fornecem, inequivocamente, a dimensão. Uma festa de arrepiar, e acelerar corações.

Só a mídia venal, golpista de primeira, segunda e todas as horas, não enxerga.

Daí a importância da comunicação pública para o contraponto, para além da blogosfera alternativa e da redes sociais.

No ato do Rio, lá estava a TV Brasil e a TV dos Trabalhadores, que não é pública, mas cumpre seu papel social. Beth Carvalho sugere a formação de uma Rede de Comunicação pela Legalidade, de rádios públicas, estatais e comunitárias; a exemplo do que fez o ex-governador Brizola, na tentativa de barrar o golpe de 64.

Em seu perfil no Facebook, a propósito, minha amiga Eneida Ferreira Costa, ex-presidenta do Sindicato dos Jornalistas de Minas, chama a atenção para o papel da comunicação pública neste momento de tamanha gravidade. Fala no mote da cobertura impecável que a TV Brasil fez do ato  Cultura pela Democracia no Rio:

“A TV Brasil cumpriu o papel de levar aos brasileiros uma notícia de grande interesse público que as TVs comerciais insistem em ignorar. É papel das TVs públicas e estatais preencher essa lacuna. De que outra forma o público vai saber que existem fatos e versões além daqueles que circulam e são divulgados pela mídia empresarial? A Democracia carece de diversidade de ideias e opiniões. No momento, só as TVs públicas e estatais podem oferecer isso aos brasileiros. Só as TVs públicas e estatais estão aptas a romper com a cobertura monolítica da grande manipuladora e parcial velha mídia.”

A gente nos blogues, “sujos”, faz o que pode. Mas a internet ainda não é universal no Brasil, embora caminhe a passos largos para sê-lo.

Mesmo assim, é nas redes sociais, nos blogues e na mídia alternativa digital que se vê o que não se vê no PIG, que Euzinha chamo de mídia venal. Especialmente na Globo, filhote da ditadura, como diria Brizola, carro-chefe do golpe e, por isso mesmo, alvo dos protestos antigolpitas.

As milhares de pessoas que se reuniram no domingão, na Praça do Patriarca, em São Paulo, não foram vistas na Globo. Nem as centenas que se aglomeraram na Praça da Matriz, em Porto Alegre,  na mesma segunda. Muito menos a mobilização popular na Praça do Confisco, na periferia de Beagá, de juristas na Faculdade de Direito do Recife, de comunicadores no Sindicato dos Jornalistas em São Paulo, nesta terça.

Os brasileiros estão em vigília cidadã e democrática nos sete cantos do país. Mobilização, todos os dias até o domingo 17, quando o plenário da Câmara dos Deputados vota o impeachment, e até que cesse o golpe.

juristas mineiros_n

Enquanto o povo se mobiliza, a C0missão de Impeachment na Câmara  fez nesta segunda, o que se previa: aprovou o relatório, sem eira nem beira, pelo impeachment da presidenta Dilma, sem razão jurídica, sem crime de responsabilidade, em total afronta à Constituição, à democracia e ao Estado de direito.

Cumpriu roteiro pré-estabelecido pelo presidente da Casa, réu por corrupção e lavagem de dinheiro no Supremo.

O placar de 38 x 27 é revelador de que a batalha dos golpistas está longe de estar ganha, entretanto. Moralmente, é o banquete da hipocrisia. Para quem tem ido às ruas defender a virtude, é bom lembrar que 35 dos deputados senhores do voto Sim ao golpe, respondem a processos por corrupção.

Importante reafirmar, por outro lado, que, no plenário, é preciso maioria de 2/3 ou 374 votos para aprovar o encaminhamento do impeachment ao Senado, que é quem de fato julga. O governo precisa de 172 votos para barrar o impedimento. As contas são de que ultrapassa 200. #NãoVaiTerGolpe.

Todavia política, já dizia uma ou mais raposas felpudas da política mineira, é como nuvem; você olha está de um jeito, pisca, já mudou. É salutar manter a confiança, mas é fundamental seguir na pressão. Esta é a linguagem que o Congresso entende, quando entende.

É preciso barrar o golpe, e as ruas nos a medida e a régua. Cada dia mais pessoas se apercebem de que há uma fraude em curso, mas é precisa que, cada vez mais e mais pessoas saiam do conforto de suas casas para manifestar sua oposição ao golpe. Como lembra o advogado-Geral da União, José Eduardo Cardoso, “a democracia não aceita desaforos”.

Só que entre os golpistas é total a ausência de pudor. O desplante é tal, que discutem a montagem do governo que tentam vir a ser por cima da vontade expressa em 54 milhões de votos. Ferem os brios dos democratas e chocalham os devaneios dos distraídos, que se cobrem de certezas e se arvoram patriotas de ocasião.

A presidenta da República referiu-se a tamanha ópera bufa durante ato com educadores e estudantes em apoio ao seu mandato, nesta manhã, no Planalto. Falou, sem pejo, sobre a “farsa do vazamento do aúdio” do ensaio do discurso de posse do seu vice. Michel Temer despiu-se de vez de qualquer senso de decoro.

“Ficou claro que existem dois chefes do golpe que agem em conjunto. (…) Fiquei chocada com a desfaçatez da farsa do vazamento. Vazando para eles mesmos. Se ainda havia alguma dúvida sobre o golpe, a farsa e a traição em curso, não há mais. Há um golpe de estado em andamento.”

Todo o Brasil ficou chocado, presidenta Dilma.

Mas, não vai ter golpe de novo.

 

 

 

 


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