Depois de tudo, resta a luta ou o caos…

Bandeira da Dilma
Fotos: SEsteliam
por Sulamita Esteliam

Ainda estou entalada, perplexa, indignada. Ainda estou muito triste, angustiada, enojada. Mas, devo admitir: o resultado da votação retumbante em favor da admissibilidade do impeachment incomoda; mas dói menos do que a humilhação do espetáculo deprimente que nos foi servido no domingo 17 pelos senhores e senhoras parlamentares.

O circo da mediocridade. Vergonhoso, repugnante, constrangedor. Opressivo.

Uma tristeza que é minha, profunda, que é de todas as pessoas que pensam e sonham além do umbigo, e que ontem se sentiram violentadas em sua noção de cidadania.

Pessoas como um jovem casal recifense, que levou suas crianças ainda bebês, fantasiadas de super-herói e heroína, para passar o domingo na praça. Enquanto exerciam o sagrado direito de se manifestar pela legalidade.

Jovem família recifense: cidadania para o futuro
Jovem família recifense: cidadania para o futuro

Vestiam camisetas vermelhas, e providenciaram um singelo cartaz, displicentemente colocado no chão do Marco Zero. Quando pedi para fotografa-los, o garoto, pouco mais de dois anos, segurou-o à guiza de escudo: “Quero proteger a democracia”.

Deparei-me com eles em um dos vários giros que fiz pelo entorno, como sempre faço em atos ou festas públicas, para sentir o ambiente, e ver se encontro amigos. E também para buscar imagens que, mania de sempre, registro amadoristicamente com a câmera do meu celular.

Casais abraçados e envoltos por uma ou mais bandeiras, grupo de amigos, jovens, pais e filhos, e netos, estudantes, políticos, sindicalistas; gente simples das fileiras dos movimentos sociais, que escapam para um refresco da longa marcha, jovens aguerridos a mirar o futuro pelo espelho da História. Militantes, todos, mesmo aqueles que não se reconhecem.

dona Ana_MNDUDona Ana envergava com tamanho orgulho e malemolência a camiseta do MNLM – Movimento Nacional de Luta pela Moradia, e não resisti. Posso? “Claro”, respondeu, sorriu e posou, faceira, na imensidão da praça onde tudo começou.

Mulher de fibra sem perder a alegria de ser.

Beleza de família com o olhar voltado para o futuro, coletivo.

Voltaria a encontrá-los, o casal e sua prole, na calçada em frente ao telão, onde a multidão se concentrava para acompanhar a votação na Câmara. As crianças já estavam visivelmente cansadas, e mãe e pai acabaram levando-as para casa, logo aos primeiros votos.

Uma avalanche de sins, que a gente acreditava seria revertida quando se dobrasse a esquina do conservadorismo regional.

Tentava animar as pessoas à minha volta, agoniadas com o desenrolar do processo. Tirante o casal de amigos, jamais as tinha visto por aí. Casais de diferentes gerações, muitos gays e lésbicas, parceiros ou não. Muitos jovens, graças ao Universo conspirador.

Gente que tem algo a perder, diriam ironicamente. Ora, todos nos perdemos quando a democracia é açoitada, violada. A começar, perdemos o respeito por nós mesmos. Ou assim deveria acontecer, se há resquício de consciência.

Uma sociedade que não consegue conviver com as diferenças e que rejeita igualdade, um mínimo de igualdade, está condenada à barbárie.

A propósito, agrego o vídeo da série sobre “Jéssicas”  reais produzida pelos Jornalistas Livres, sugestão da minha filha Carol:

 

 

Na Av. Rio Branco, no Recife Antigo, um rapaz, vestido com camisa de um sindicato, discreto no comportamento, não abandonava a calculadora; traçava projeções.

Brinquei que a matemática é uma ciência exata que gosta de cometer inconsistências. Ele sorriu, com simpatia condescendente, e cravou: “Se eles ultrapassarem 80 votos, nessa proporção, está consumado”.

Lembrei-o da apuração do primeiro turno da eleição que levou João Paulo (PT) à Prefeitura do Recife. O desespero da militância na praça do Marco Zero, e eu dizendo: “Calma, quando os votos do morro chegarem, vira”.  E ele: “Verdade, eu me lembro como foi…”

Venceu a matemática.

Ledo engano, meu e do meu otimismo incorrigível, algumas vezes a brigar com as evidências. A luta de classes é explícita, não nos iludamos. A casa-grande tem fome de recuperar o poder – que a rigor nunca perdeu. Quer a senzala de volta ao lugar que acha que lhe cabe.

impt-votacao por estado_DiapA votação reflete: chega de dar vez ao morro.

A certa altura, bateu o desespero, e as pessoas começaram a deixar o local.

Os votos Sim se anunciavam em profusão, e os Não pigavam aqui e ali. Do Norte para o Sul, sem escala no Nordeste, depois para o Centro-Oeste e Sudeste. São Paulo, a maior bancada, 81% pró-impeachment. Rio a terceira, 74%.

A carroça desembestou de vez em Minas Gerais, que se arvora em ponto de equilíbrio do Brasil e tem a segunda maior bancada federal: 77% a favor do impeachment. Sem refresco.

Por onde andou o governador Fernando Pimentel?

Só então, veio o Nordeste.

A Bahia, quarta maior bancada, e o Ceará, oitava, governados pelo PT, foram os únicos estados majoritariamente contra o impeachment: respectivamente, 62% e 59%. O Piauí empatou.

O Maranhão teve o empenho do governador Flávio Dino (PCdoB), que resgatou votos inimagináveis, como o do vice-presidente da casa, Waldir Maranhão (PMDB), que votou contra o impeachment. Ainda assim, 44%.  Paraíba, Alagoas e Sergipe deram maioria pró-impedimento.

Pernambuco, dominado pelo PSB de Paulo Câmara – exonerou três secretários para votar pelo impeachment. Tem memória curta a dita locomotiva do Nordeste. Esquece que deve tudo aos governos Dilma e Lula. Ou, quem sabe, já não se acha mais nordestino. Foram 72% pelo golpe.

“Frei Caneca, Miguel Arraes, Gregório Bezerra, Josué de Castro e Paulo Freire se remexem no túmulo”, anota outro amigo pernambucano.

E o efeito manada comendo solto. Como o réu Eduardo Cunha – a presidir a Câmara e a sessão pelo impedimento de uma presidenta honesta – planejou.

O Diap traz os detalhes dos votos, por bancada, individualmente e por estado. Detalha, também, no mesmo clique, as próximas etapas do processo no Senado, aonde chegou na tarde desta segunda.

Um efeito colateral pode ser a não cassação do mandato de Cunha pelo Conselho de Ética, o que manteria foro privilegiado na Lava Jato.

E o STF finge-se de morto no que diz respeito ao seu afastamento da presidência do Legislativo.

Cunha no telao
A desfaçatez tem nome

Das idas e vindas no mapa do Brasil, manietadas pelo ainda presidente da Câmara, e das articulações da ponte a Temer para o futuro, de umbral – senão com passagem diretamente para o inferno – restou uma caixa de horrores. Pandora é aqui.

As alegações dos 367 votos sim, estavam na contramão do sentido da palavra democracia.

Um amigo que, junto com sua companheira, estava comigo e o maridão resumiu: “É o reino do tudo meu: minha família, minha propriedade, meu Deus; ordem unida da TFP reeditada.”

Não houve foco no relatório aprovado pela comissão. Dois ou três votos se referiram às chamadas pedaladas fiscais, e decretos orçamentários, como pretenso crime de responsabilidade. Não é de legalidade que se trata.

Alguns pronunciavam um discurso de respeito às leis, à Constituição – pobre Carta Magna – e aos direitos humanos, ora vejam; para, em seguida, votar pela admissibilidade do impeachment. “Como assim?” Ninguém entendia.

Houve seis abstenções  e duas ausências, apenas. Os indecisos bandearam para o lado de lá.

Até o Sid, a preguiça da Era do Gelo contra o golpe
Até o Sid, a preguiça da Era do Gelo contra o golpe

Pense no tamanho do cabresto.

Mas o governo não estava certo de contar com 200 a 210 votos?

E a Frente Parlamentar Mista pela Democracia não protocolara o documento com o compromisso de 186 deputados?

Na véspera, até o PIG ajustava expectativas para não correr o risco do vexame.

Traição e traidores sempre fizeram parte da política, desde Silvério dos Reis. Nosso Judas tupiniquim, de tempos imemorais, deixou herdeiros.

No mais, é a desfaçatez da hipocrisia a encobrir malfeitos. Em nome de Deus, da moral e da Constituição – e também do gato, cachorro, periquito, papagaio e a mãe de todas as virtudes.

Dentre os que votaram pela admissibilidade do impeachment, golpe em marcha batida agora a depender do Senado, 119 estão envolvidos em processos ou suspeita de corrupção e/ou até crimes comuns; palavra da Transparência Brasil. É quase 60%  do total.

A começar pelo presidente e outros sete dos 11 membros da Mesa Diretora da Câmara; e o relatório lincado não inclui as denúncias da Lava Jato.

Dois exemplos que não calam a verdade, e vêm exatamente das minhas duas Macondos: a Gerais de origem, e o Pernambuco de adoção.

Meu marido bandidoA deputada Raquel Muniz (PSC-MG), que vestiu-se de patriota e depositou a bandeira do Brasil no púlpito, teatralmente, antes de votar “contra essa maldita corrupção”, à beira da histeria: “Sim, sim, sim, sim… pelo impeachment”.

Pois não é que o marido dela foi preso logo na manhã da segunda, 18, por suspeita de corrupção na área da saúde? E ela também teria contas a ajustar por cumplicidade na fraude de que Ruy Adriano Borges Munis, prefeito de Montes Claros, é acusado.

Atentem para o que informa o tuíte do conterrâneo @RegisGalo: o tal Ruy Munis “é laranja do Aécio, comprou o jornal Hoje em Dia”. E, informação minha, a partir do Sindicato dos Jornalistas de Minas: recentemente, botou para fora metade da redação, sem pagar os direitos trabalhistas.

Santa bandalheira.

Outro exemplo é o do voto 342 , que sacramentou os dois terços e a abertura do processo. “Quis o destino”, nas palavras do deputado tucano Bruno Araújo, que fosse na boca de um pernambucano, cujo nome está na lista de caridades da Odebrecht, vazada pela Lava Jato. Ele diz que trata-se de doações oficiais. Pode ser…

O colega Luis Nassif tem razão. “O Brasil não merecia isso.”

Curioso é que a  numerologia indica o cabalístico 9 como sendo “todas as possibilidades – tudo ou nada”. Na matemática é nada, noves fora… Já os votos contrários ao golpe, 137, somam 11, um número mestre, que exige do detentor atitude compatível; na matemática é um 2, noves fora – o que na numeralogia traduz visão e mobilidade estreitas.

Temos escolha portanto: chorar ou ir à luta, com estratégia e sabedoria.

Comentei em postagem de Paulo Vilaça, compartilhada pela caçula, Bárbara, no FB: “O 17 de abril entra para a História do Brasil como uma mancha. Mas tenhamos orgulho de ter ficado do lado certo.”

É a segunda mancha na mesma data: na primeira, em 1996, a PM do Pará, a serviço do latifúndio, assassinou 19 trabalhadores sem terra. O crime está impune ainda hoje, pois os mandantes não foram condenados.

Desta vez, o massacre se deu contra a democracia, a Constituição e o Estado de direito.

E há quem comemore.

Mino Carta resume o tamanho da lapada:

“Todos nós perdemos. É totalmente medieval, de forma absolutamente primitiva, a beirar a idade da pedra, porque rasgar a Constituição neste momento, significa um retorno para trás infinitamente pior do que aquele de abril de 1964. Este é o pior de todos os golpes, porque nossa sociedade é extremamente velhaca. Porque o que vem aí, é extremamente pior.”

 

 

Pronto, desabafei.

Agora é seguir adiante. A esperança é nosso guia, e o caminho continua sendo o da luta.

 

 ***************
Postagem revista e atualizada à 00:31: correção de erros de digitação e ortografia em diferentes parágrafos; complementação da frase sobre política e traição; inclusão da frase comparativa entre a numerologia e a matemática. E novamente em 20.04.2016: idem, e complemento da frase sobre a ponte “a Temer para o futuro… de umbral, ou com passagem diretamente para o inferno”.

 


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