Um ano do golpe, o dia da vergonha nacional

por Sulamita Esteliam

Há que não esquecer que o 17 de abril está marcado a ferro e a fogo na memória do Brasil. É o dia da vergonha nacional. Há um ano, deu-se o primeiro passo para o golpe de Estado, sob o vezo parlamentar, no país. Há 21 anos, a PM do Pará assassinava 19 trabalhadores sem-terra em Eldorado dos Carajás, no Pará.

Direitos humanos violados. A democracia arrombada pela força do poder – parlamentar, econômico, midiático, jurídico.

Em nome da “família”, três centenas e meia de deputados votaram pelo acatamento do processo de impeachment contra Dilma Rousseff. Desconheceram 54,5 milhões de votos.

Sabiam que atacavam uma uma mulher honesta, porque esta se recusara a dobrar-se ante a chantagem política, moral e – hoje se sabe, do poder do dinheiro. Sabe-se, também, que a recusa em interferir no andar da Lava Jato – “Doa a quem doer” – definiu sua queda. Tudo confeitado com alta dosagem de misoginia.

Jogaram o País no abismo, na lambança ampla, geral e irrestrita.

Navegamos no escuro e sob tempestade, e em marcha-ré acelerada nos direitos sociais, na soberania e no patrimônio nacionais. Aparentemente anestesiados.

Os golpistas contam com isso. E não pudor nem dúvida sobre quem paga a conta: os trabalhadores, tod@s, o Zé e a Maria Povinho.

A ver no que será o 28 de abril, dia de parada geral, no duplo sentido – nos locais de trabalho e nas ruas.

Há saída, sempre há. Mas não está fácil. O jogo é pesado, e o naipe dos jogadores não aconselha previsões.

Li um artigo nesta segunda, do teólogo Leonardo Boff, que aponta três possibilidades. Resumo:

1) o golpe dentro do golpe, com a entrada em cena dos militares, ante o esfacelamento pleno das instituições, todas. A questão é se eles querem meter a mão nessa cumbuca. Eles que devem se lembrar do que foram 21 anos de ditadura, quando se colocaram a serviço da casa-grande;

2) eleições gerais antecipadas, com o povo reassumindo-se como sujeito de poder originário. Até porque, esse Congresso que aí está perdeu a legitimidade ao violar a Constituição para salvar a própria pele;

3) buscar uma espécie de concertação nacional, um pacto tipo Comissão da Verdad e da Reconciliação da África do Sul, coordenada pelo bispo Desmond Tutu. Umbutu à moda brasileira.

Haveria uma quarta possibilidade, o STF julgar a inconstitucionalidade do afastamento de Dilma e anular o golpe. Mas a Corte, assim como parte do Judiciário, está no golpe. E não se sente pressionada a mudar de atitude; afinal não depende das urnas.

E aqui caberia mea culpa e perdão, por exemplo, do caixa 2 – pratica ilegal amplamente requerida na política destas terras. E que a hipocrisia conveniente, que sustenta o tribunal de inquisição em que nos tornamos, faz de conta que não há.

Como bem lembra a presidenta legítima, ora deposta, Dilma Vana Rousseff: fora da democracia é o caos.

“Não haverá condição de estabilidade no País se a Constituição Federal não voltar a vigir plenamente, se os espaços democráticos não forem restabelecidos, sem uma constituinte exclusiva que promova uma ampla reforma política. Para esses tempos estamos que estamos vivendo, é preciso firmeza e determinação e expandir o espaço democrático.”

Dilma tem percorrido universidades nos Estados Unidos, país que os golpistas colocam em primeiro lugar, à revelia dos interesses nacionais para dissertar sobre a genealogia do golpe de Estado à moda brasileira.

Esteve Harvard, Princeton, Brown, Columbia, News School; Howard e American University foram as agendas do dia do aniversário de um ano da deflagração do golpe, e vai a George Washington University, nesta terça.

Não foi um golpe contra o mandato presidencial, apenas, foi um golpe contra o povo brasileiro, contra um projeto político que, longe de ser perfeito, buscava minimizar as desigualdades sociais, portanto contra as mulheres e as minorias de modo geral:

“A pobreza no Brasil tem a cara de mulher, de negro, de mulher negra, e a desigualdade de gênero pode ser vista pela violência. Um tema pelo qual trabalhamos muito, com leis e políticas. Nós acreditamos nas mulheres e depositamos nelas muito de nossos programas de distribuição de renda e de riqueza. Infelizmente isso vem sendo desmontado, as políticas para mulheres, negros, indígenas, pois o governo que assumiu após o golpe é neoliberal e ultraconservador, é contra as mulheres, é de homens brancos, ricos, velhos.”

Ocorre que os golpistas, Dilma tem razão, vivem um impasse:

“Ou eles entregam o que prometeram ao mercado e à mídia, ou perdem o prazo de validade. Acontece que haverá insatisfações monumentais no Brasil com as perdas de direitos, e isso cria impasses em várias dimensões, já que os políticos no Congresso precisam dos seus eleitores”.

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PS: Fui celebrar o aniversário da minha filha, Gabriela, e perdi a hora, e a postagem acabou no dia seguinte. Quando a gente se multiplica, acaba dividindo, fazer o quê…

PS2: Postagem revista e atualizada às 11:59 e 12:48 horas: inclusão de frase no sexto parágrafo e acréscimo de dois outros na sequência; correção de erros de digitação e eliminação de palavras repetidas.


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