O DNA da corrupção não é petista, nem brasileiro

Laerte, genial
Laerte, genial
por Sulamita Esteliam

Vou ser breve. Até porque, a epicondilite, que me acomete há coisa de 12 anos, resolveu dar o ar da graça e com força. Devo economizar movimentos, sobretudo os de teclagem – que é de onde vem o problema.

Ocorreu-me um diálogo que desencadeei há dias. Estava com minha tia, a única que me restou, em 7 Lagoas, nas Minas Gerais. A TV estava ligada – na Globo, para variar -, quando apareceu na tela a figura nauseante do Aécio Neves, que eu chamo de 1º Neto.

Era uma inserção do programa tucano, mas não sei dizer do que falava. Só sei que, embora meu propósito naquela rápida visita à velha senhora, que eu amo e respeito, fosse não triscar em política, não resisti, e comentei:

– Cabra safado! O que é seu tá guardado, pode esperar!

Ao que minha tia, para quem moralidade está acima de qualquer coisa, refutou:

– Uai, ele também? Então, a gente tá mesmo perdido …

– Desculpe-me tia, mas a folha corrida desse rapaz não cabe numa rotativa – impressora que imprime os jornais.

– Mas, e a Dilma …?

– O que tem a Dilma?

– Ela também roubou, está metida num monte de falcatrua, tanto que tiraram ela do governo.

– Não há nada contra a Dilma, tia. Estão tentando derrubar a Dilma, exatamente, porque é honesta. Ela é vítima de um golpe das quadrilhas que há séculos dominam a política nesse país, e das quais este rapaz é parte militante.

– Mas não é isso que a TV mostra…

– É que a mídia, tia, esconde os malfeitos dele e de muitos outros, por que também tem interesses a preservar e muita picaretagem a esconder.

Minha tia não revidou, e mudamos de assunto. Afinal, a gente se vê uma ou duas vezes por ano.

Foi um rompante, como se diz lá em Minas. Necessário, até para se contrapor à narrativa corrente, ainda que de maneira breve.

Mas é triste, e é irritante, ter que fazê-lo com frequência.

É como se a memória nacional se apagasse, num passe de mágica.  Neste país ninguém jamais praticou caixa dois, ou “desvios contábeis”, assim como a corrupção foi “inventada” nos governos do PT, e nem é exclusividade brasileira.

E o PT se acovarda, e não deveria, mesmo que parte dele tenha se deixado empreenhar pelo cinismo. Devia fazer como Dilma, se contrapor de peito aberto: “esse DNA, da corrupção, não me pertence”.

Foi o que fez, por exemplo, o militante solitário em frente à sede nacional do partido, invadida por um grupo de fusileiros da PF, no dia da prisão do ex-ministro Paulo Bernardo, arrolado na operação Custo Brasil.

Se é petista, primeiro condena, escracha, depois apura e julga. Tem sido assim na conexão jurídico-midiática.

O militante a que me refiro aproveitou câmaras e microfones da mídia sedenta por escândalos – quando o viés é petista – para bradar contra o espetáculo do circo seletivo que vigora no Estado de exceção: “O PT não é isso!”

Em outra linha, mas na mesma direção,o pronunciamento da senadora Gleisi Hoffmann, clama por justiça, com dignidade: “Foi um despropósito, do princípio ao fim. Surreal.”

Violência desnecessária, abusiva, que só faz destruir.

 

 

Gente como esta velha escriba, que cobriu política e economia, anos a fio, e que, para tanto, transitou pelos intestinos do poder, sabe do que é feita a matéria que nele circula.

Há que ter estômago de aço.

Mas não se vive sem política. É através da política que se pode alimentar a esperança, buscar caminhos para uma sociedade menos injusta e mais igualitária. Tem razão a senadora.

E é possível, sim, exercê-la de maneira menos, digamos, predadora. É possível fazer diferente, com respeito às instituições e aos direitos humanos. E o PT já provou que sabe fazê-lo, e as esquerdas não podem furtar-se de dar o exemplo.

O que vigora,  entretanto, no Brasil do vale-tudo para o meu pirão, não são os fatos, mas as versões – manipuladas para desfigurar a verdade. Hoje mais do que ontem.

 

Sequer há resquícios de pudor. E as exceções só confirmam a regra da esculhambação geral.

Um dia, batem com a cara na verdade, e o pote se quebra.

Quero ver o que o relator e a comissão que examina o impeachment farão com o resultado da perícia do Senado sobre as acusações que “sustentam” o processo que levou ao afastamento temporário da presidenta.

Não surpreende a conclusão: a presidenta Dilma não só parece honesta, é honesta.

Dilma Vana Rousseff não tem conta na Suíça, nem é investigada por qualquer desvio de dinheiro público ou enriquecimento ilícito.

Dilma não pedalou, não feriu os ditames da Lei de Responsabilidade Fiscal. É a conclusão da perícia do Senado, a despeito dos “sofismas”, como assina Brito em texto postado ontem.

Não há crime de responsabilidade, há golpe.

E os golpistas estão dissolvendo o país.

E  isso, sim, é crime de responsabilidade que precisa cessar.

Todos envolvidos em mil e uma falcatruas, como bem traduz a charge no topo, da genial Laerte.

E não é de agora, como mostra Fernando Brito, no Tijolaço, também no texto que reproduzo abaixo.

Em outra postagem, o jornalista comenta nova delação que coloca Temer, Renan, Jucá, Geddel, e outros do PMDB no centro do esbulho. E olha só o que publica o Conversa Afiada sobre as ligações Temer/Porto de Santos.

E é esse homem o presidente interino temporário que faz e desfaz como se fosse eterno.

E é essa gente que vai julgar a presidenta honesta.

 

Quer dizer que o “lulopetismo” inventou a corrupção sistemática?

listade93

 

Aí em cima está a reprodução da página 5 da Folha de S. Paulo de 3 de dezembro de 1993, para a qual me chamou a atenção o coleguinha Fernando Molica, autor de uma das reportagens daquela edição.

Estávamos em plena CPI do Orçamento.

Já havia uma “lista da Odebrecht”, com 350 nomes de políticos e governantes que receberiam propina da empreiteira.

Já estavam lá nomes que voltaram ao noticiário agora, como o de Geddel Vieira Lima, ministro de Michel Temer.

Já existia, claro, um Ministério Público independente, e o Dr. Rodrigo Janot já tinha nove anos por lá e era Procurador Regional em Brasília.

Como é, então, que estamos assistindo, 23 anos depois, a “descoberta” da corrupção política como se fosse a da pólvora?

A resposta, e todos os cínicos e hipócritas o sabem, é que agora há interesse político.

Da mídia, do conservadorismo e do próprio Ministério Público.

Daí a conversa fiada de que o “lulopetismo” criou a corrupção sistemática.

Sem desculpas para os petistas que se lambuzaram nela, isso é um grossa mentira, que qualquer pessoa realmente honesta não pode aceitar.

Muito menos se pode aceitar que, em nome de um combate à corrupção que nunca antes foi incentivado por uma governante, a mulher que garantiu a liberdade de investigação seja deposta por uma camarilha de políticos  enfiados até o pescoço, e há décadas, nesta imundície.

Não pode haver combate à corrupção com cinismo.

Aliás, cinismo é uma corrupção de natureza, no mínimo, moral.


2 comentários sobre “O DNA da corrupção não é petista, nem brasileiro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s