Batalha da verdade sobre a morte de Paulo Morato

por Sulamita Esteliam

Há algo no mínimo estranho sob o reino socialista em Pernambuco.

Na tarde desta segunda, a SDS – Secretaria de Defesa Social de Pernambuco atribuiu a um “erro de comunicação” as suspeitas de bloqueio de perícia papiloscópica complementar no quarto de motel onde foi encontrado o corpo do empresário Paulo César de Barros Morato, semana passada.

Morato é um dos arrolados na operação Turbulência da Polícia Federal, mais um desdobramento da Lava Jato, deflagrada dia 21 último. Tinha prisão preventiva decretada, junto com outros quatro empresários pernambucos, estes presos, e dado como foragido.

A Turbulência investiga desvio e lavagem de dinheiro público para, dentre outras coisas, a compra do jatinho que matou Eduardo Campos (PSB) e outros seis, na campanha presidencial de 2014. Marina Silva (ora na Rede) não estava no Cessna e acabou assumindo a candidatura.

O Sinpol – Sindicato dos Policiais Civis colocou o procedimento sob suspeita, a partir de informações de associados. Cópia do ofício da delegada Gleide Ângelo, de Olinda, encarregada das investigações, solicitando perícia papiloscópica no quarto onde o corpo do empresário fora encontrado, foi apresentado hoje pela manhã, em coletiva de imprensa, pelo presidente do Sinpol, Aureo Cisneiros.

A entidade representaria junto ao Ministério Público requerimento de explicações de parte da SDS. A cúpula da secretaria havia garantido à imprensa, 24 horas após a localização do cadáver, que a delegada responsável pela investigação não havia solicitado perícia adicional.

Em nota divulgada na sexta-feira, 24 no sítio eletrônico da entidade, o SINPOL, em nota – imagem ao pé do texto – e também a nas redes sociais -, questiona o bloqueio.

Mais: afirma ter informações de que a ordem para barrar a realização da perícia papiloscópica teria partido do Secretário de Defesa Social, Alessandro Carvalho, e da Gestora da “Polícia Científica”, Sandra Santos.

Todavia, na quarta-feira, 23, a cúpula da SDS garantira à imprensa que não havia solicitação de perícia complementar.  Esta versão foi confirmada hoje à tarde pela própria delegada, em coletiva de imprensa, ao lado de seus superiores.

Segundo a delegada, o documento apresentado pelo Sinpol é o único que foi assinado por ela, requerendo cópia do laudo.

É no mínimo esquisito que uma delegada encarregada de investigação de homicídio tenha que requerer cópia de laudo pericial. Além do que, o texto do ofício, como se pode constatar na imagem, solicita a perícia e, ao fim o encaminhamento do laudo.

A coletiva da SDS, de fato, pouco ou nada acrescentou aos termos da Nota à Imprensa, datada do domingo, 26 e disponível na página da SDS. Foi apresentado, porém, o papiloscopista que defendia nova perícia e que, segundo as autoridades da SDS, teria provocado os equívocos em cadeia.

O Sinpol não retorquiu os argumentos até o fim desta postagem. (Na manhã da terça, 28, postou cópia do ofício, com data de 27, e encaminhado à SDS cobrando “explicações convincentes”).

Como e por que morreu Paulo César Morato? - Foto: reprodução internet
Como e por que morreu Paulo César Morato? – Foto: reprodução internet

Paulo Morato, era casado e tinha duas filhas. Até um ano atrás, segundo reportagem da Folha de Pernambuco, levava vida pacata e simples em casa alugada em Tamandaré, município do litoral Sul do estado. Mantinha lá uma loja de equipamentos para celular. Os vizinhos o definem um sujeito de bem com a vida, simpático e prestativo.

Nada compatível com alguém cuja empresa recebeu R$ 18,8 milhões para “fazer terraplenagem nas obras de transposição do Rio São Francisco”, e que movimentou outros R$ 24,5 milhões só na conta corrente pessoal.

A mesma matéria dá conta de que um pouco antes, quando do estouro da Operação Politeia, desdobramento da Lava Jato que arrastou políticos da terra, ele teria fechado o escritório da empresa-laranja, em Boa Viagem, no Recife. “É como se quisesse submergir”.

Tinha 47 anos, e a Polícia Federal o considerava “pessoa-chave” para elucidar todo o esquema de lavagem de dinheiro.

O superitendente PF em Pernambuco, Marcelo Diniz Cordeiro, participou da coletiva da SDS. Ele reafirmou que acompanha e “confia” no trabalho da Policia Civil pernambucana para apontar a causa da morte.  A expectativa é que os exames no IML estejam concluídos até o dia 30, quando o corpo será liberado para sepultamento.

O óbito só entra em investigação na PF se ficar comprovado que houve “queima de arquivo”.

Pelo andar da carruagem…

No que respeita à Turbulência, a PF acredita ter elementos suficientes para pedir a condenação dos quatro empresários presos na operação:  João Carlos Lyra Pessoa de Mello Filho, Eduardo Freire Bezerra Leira, Arthur Roberto Lapa Rosal e Apolo Santana Vieira – aqui.

A lembrar que, ao longo desses dois anos, a imprensa pernambucana fez-se de morta diante das evidências de irregularidades na compra do Cessna 560 XL.

Campos
O ex-governador Eduardo Campos morreu na explosão do jato oriundo de malfeitos, em 13.08.2014, no litoral paulista – Foto: arquivo

O PSB chegou a apresentar os empresários envolvidos na operação como proprietários do jato. Dentre eles, João Carlos Lyra Pessoa de Mello Filho, filho do ex-deputado Piauhylino, que teria feito empréstimos pessoais para bancar o avião “cedido” a Campos.

As investigações da PF chegaram a outra conclusão.

Impossível não relacionar a trágica coincidência. A memória nacional, mesmo passadas duas décadas, não esquece o duplo assassinato “misterioso” do empresário Paulo César Farias, operador da campanha e eminência parda do governo Collor de Mello, e sua mulher. Deu-se em 23 de junho de 1996. Nada foi esclarecido.

Outro crime não elucidado, a envolver o submundo político-empresarial, é o da modelo mineira, Cristiana Aparecida Ferreira, em 2000, num flat em BH. O caso foi tratado, primeiro como suicídio, depois como crime passional. Mas o advogado da família, Dino Miraglia, sustenta que “foi queima de arquivo”.

A moça teria sido “mula” do esquema hoje conhecido como mensalão tucano.

Outro advogado, ligado a políticos e empresários do esquema, gravou conversas “entre amigos” que integram o inquérito do mensalão tucano, nas quais se trata a morte de Cristiana como “homicídio por encomenda” – A Tal Mineira recebeu a transcrição e as publicou, há dois anos.

 

 

PS: Postagem atualizada em 28.06.2016, às 16:00hs: inclusão de link do ofício do Sinpol à SDS no 13º parágrafo.

 

 

 


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