E a nau Brasil segue, perigosamente, rumo ao absurdo

Escola sem partido-artonboitempopor Sulamita Esteliam

À exceção do Primário, que é como se denominavam os primeiros quatros anos do hoje ensino fundamental na minha infância, passei minha vida escolar sob os coturnos da ditadura civil-militar. Foi assim até me bacharelar em Comunicação Social-Jornalismo em julho de 1979.

Como se depreende, também me iniciei na profissão que escolhi sob o regime de exceção. Já era mãe de um casal de rebentos, então. Sim, fiz faculdade parindo. E tive minha terceira filha ainda me equilibrando na instabilidade de um mercado provinciano, numa cidade chamada Belo Horizonte, a capital das Minas Gerais.

Não obstante, jamais vivenciei tamanho ocaso do Jornalismo como agora.  Em tempo algum tive tamanha vergonha do papel que se prestam certos “coleguinhas”, penas de aluguel a título de profissionalismo lesa-pátria. É de dar engulhos.

Isso é parte da mesma história, mas quero falar, na verdade, é sobre a vida de estudante no país do “Ame-o ou Deixe-o”. Eis a opção que nos era colocada pelo governo militar na era do recrudescimento do terror de Estado, pós-1968/AI-5.

Pois digo que nem aí, quando o País sofreu a longa e tenebrosa noite da repressão, a escola deixou de ter ideologia. Era de direita, mas tinha “partido”.

E agora tentam vender a pretensa eficácia de um ensino apolítico, a pretexto de tirar do currículo escolar o que seria uma doutrinação de esquerda.

“Escola sem alma, sem debate, sem posição”, como bem define a presidenta legítima, Dilma Rousseff.  Afastada pelo golpe parlamentar-midiático, sob o beneplácito cúmplice do Judiciário, a pretexto de impeachment.

Processo fraudulento, desde sempre, pois sem crime de responsabilidade. É uma vergonha que desconhece fronteiras. De farsa se trata, e provado está, também pelo Ministério Publico Federal.

Querem nos enfiar goela abaixo um desgoverno usurpador, que o diga a Folha SP e seu instituto de pesquisa.

Um desgoverno que solapa todo e qualquer resquício de autoestima, sentimento de Nação e construção de sociedade minimamente igualitária.

Um desgoverno que mais se assemelha a uma corja, enfiado até o pescoço na lama. Acusado, em boa parte de seus integrantes, a começar pelo provisório que pensa que é presidente e age como mordomo, de assenhorar-se de dinheiro público em benefício pessoal.

Achaque coletivo.

Mas é claro que, para a Justiça que se insurge seletivamente, não vem ao caso.

Pois bem, ensinavam-nos naqueles anos sessenta e setenta que vivíamos uma “revolução”. Tínhamos sido alvo de um golpe dentro do golpe, que redundou numa ditadura sangrenta, cujas contas ainda estão por se acertar.

Pura farsa que se levava a sério, e em nome da qual se aniquilou os insurgentes, taxados como inimigos.

Alguns e algumas sobreviveram e fizeram História. E agora querem dela fazer tábula rasa.

Tínhamos aulas de moral e civismo e de OSPB – Organização Social e Política do Brasil, não obstante. Era adestramento sem pudor, e em nome da lei e da ordem.

Mas tinha “partido”.

No quarto ano do Ginásio – o que hoje é a 8ª série/9º do Fundamental – no Colégio Domiciano Vieira, no Barreiro, periferia da capital mineira, o professor Sílvio tornou-se o grilo falante da nossas primaveris consciências. Foi quem nos ensinou que vivíamos uma ditadura. Até que sumiram com ele.

Em contrapartida, passei pela Escola Técnica Federal de Minas Gerais, atual Cefet – onde cursei um ano de química industrial – e as aulas mais interessantes eram as de laboratório.

A gente aprendia a “entortar” vidro e a transformar óxidos e ácidos em porções fumegantes e coloridas como as da Madame Min. Os ensaios do coral também eram muito estimulantes para quem, como Euzinha, acreditava ter alma de artista.

Acabei migrando para o Científico e, deste período, ficou o professor de Biologia, um maluco beleza de nome Betão. Não me lembro do nome do professor de História, um pragmático que adotou um livro chamado “História para o Vestibular” – o que me levou a fechar a prova para a UFMG.

Na faculdade tudo se desnudou com tamanha clareza, e o debate era de tal modo intenso, que a gente até poderia se esquecer de que vivia uma ditadura. Não fossem as ameças sobre professores e colegas que nos rondavam.

Eliane e Octávio Dulci, de politica. Paulinho Saturnino, Sociologia. João Antônio, Economia. Moacir Laterza, Estética. Romeu Sabará, Antropologia. Luiz Gonzaga, Cinema. Paula Lima, Teatro…  As aulas de fotografia na Escola de Belas Artes,  inesquecíveis.

E tinha também EPB – Estudos de Problemas Brasileiros, e Psicologia Social e Contracultura… Ética, com o professor Anísio.

Ah, sim, Redação, Jornalismo Impresso, Rádio e TV, Comunicação Rural, Metodologia e Pesquisa, Artes Gráficas e Diagramação – dentre outras ferramentas, técnicas profissionais.

Mas o que marcou foi a descoberta da dialética, da polêmica, da verdade e da versão dos fatos.

Aprendizado que não se esquece. Mas há quem abandone, sem pruridos de consciência.

Memórias reavivadas quando leio o brilhante artigo do Marcelos Rubens Paiva – escritor, dramaturgo e jornalista brasileiro -, sobre a baboseira da “escola sem partido”.

Pergunta Rubens Paiva : “Como assim, escola sem ideologia!?” 

E escreve:

“O professor de história tem que ser de esquerda. E barbudo. Tem que contestar os regimes, o sistema, sugerir o novo, o diferente. Tem que expor injustiças sociais, procurar a indignação dos seus alunos, extrair a bondade humana, o altruísmo.”

E segue questionando:

“Como abordar o absolutismo, a escravidão, o colonialismo, a Revolução Industrial, os levantes operários do começo do século passado, Hitler e Mussolini, as grandes guerras, a guerra fria, o liberalismo econômico, sem uma visão de esquerda?”

(…)

“O paradoxo do movimento Escola Sem Partido está na justificativa e seu programa: “Diante dessa realidade – conhecida por experiência direta de todos os que passaram pelo sistema de ensino nos últimos 20 ou 30 anos –, entendemos que é necessário e urgente adotar medidas eficazes para prevenir a prática da doutrinação política e ideológica nas escolas, e a usurpação do direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções”.’

“Mas como nasceriam as convicções dos pais que se criariam num mundo de escolas sem ideologia? E que doutrina defenderiam gerações futuras?”

E finaliza:

“A escola não cria o filho, dá instrumentos. O papel dela é mostrar os pensamentos discordantes que existem entre nós. O argumento de escola sem ideologia é uma anomalia de Estado Nação.”

“Uma escola precisa acompanhar os avanços teóricos mundiais, o futuro, melhorar, o que deve ser reformulado. Um professor conservador proporia manter as coisas como estão. Não sairíamos nunca, então, das cavernas.”

O texto foi publicado domingo no Estadão, onde o escritor mantém blogue sobre cultura. E reproduzido por toda blogosfera – no Vermelho, por exemplo, onde capturei a charge que ilustra esta postagem.

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O projeto que cria o programa “Escola sem Partido” tramita no no Senado, sob as bençãos do senador Magno Malta (PR-ES), conhecido por suas posições nada progressistas, muito menos republicanas.

A casa abriu consulta via internet.  A relatoria é do controverso Cristhovam Buarque (PPS-DF). A conferir o que vai sair daí.

No ritmo trator que tem caracterizado suas ações, os desgoverno Temer parece ter pressa em botar a ideia em pratica, e de cara atropela a autonomia universitária.

A primeira vítima é a Universidade do ABC, obrigada a refazer edital de convocação de professores para, segundo denuncia o corpo docente, “atender ao lobby sionista”.

E, assim, adernando perigosamente, a nau Brasil segue rumo às profundezas do absurdo.

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Postagem revista e atualizada dia 20.07.2016, às 20:00 horas: correção de erros de digitação em diferentes parágrafos; acréscimo do parágrafo 25.

 

 


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