Enquanto isso, no cabaré da república bananeira…

Aroreira e La Suprème Cage Aux Folles ou Le Folie Bergère Putchiste_o
Aroeira e a ópera da república Brasilis
por Sulamita Esteliam

Claro que não acompanhei a sessão do circo no Senado que resultou na pronúncia da presidenta legítima, Dilma Rousseff, na fraude que caracteriza o processo de impeachment. Não tenho estômago para farsas.

Tenho mais o que fazer. Cuidei da vida, que não para.

No fim da tarde, fui pra rua, junto com meu companheiro, gritar #ForaTemer!

Não é uma chuvinha fina, incômoda e fria, aqui pelo Recife, que vai minar nossa resistência. Muito menos a desfaçatez de uma quadrilha que toma de assalto o País.

Incomoda, sim, a letargia e a paralisia que imobiliza boa parte da nossa sociedade – esquerdas e sindicatos, inclusive.

Às vezes sobrepõe-se a impressão de que tudo é parte de um imenso teatro. Tragicomédia.

Não podemos jogar a toalha, contudo. Enquanto houver tempo e luz, há esperança.

Dilma Vana Rousseff, agora, é ré sem crime, é fato. Precisa de um terço de 81 votos para escapar da degola. Obteve 21 na votação desta madrugada; faltam seis votos. Temer requer 54 votos para consolidar o golpe; obteve 59 na fase da pronúncia.

Vai a julgamento por nada, além de ser mulher, filiada ao Partido dos Trabalhadores e honesta. Vai ser julgada por que se recusa a fazer jogo de cena, a compactuar com a camarilha.

Na prática, está condenada.

Ousou governar um país do tamanho do Brasil. Um país gigantesco pela própria natureza, mas dono de uma elite tacanha e um séquito de amestrados, aninhado nas classes médias e/ou na ignorância, que raciocina tão somente com o umbigo.

Sustentam aqueles que se acham donos da Terra Brasilis, por direito de herança, quiçá por legado divino, e que não podem suportar quatro derrotas sucessivas. Se não conseguem ganhar nas urnas, vão para o tapetão.

Valem-se do jogo sujo, da traição, da hipocrisia, do cinismo.  Eles que estão de lama até o pescoço.

Não há o que julgar. Não há crime de responsabilidade de Dilma Rousseff à frente do Governo do Brasil. Disso até os grãos de areia da Praia de Boa Viagem o sabem.

O próprio Ministério Público Federal já disse: não houve pedaladas orçamentárias, e não há operação de crédito no Plano Safra. Além do que, pauta-se as contas de 2015, que sequer foram apreciadas pelo Tribunal de Contas, que assessora o Congresso em tais questões.

Todos nós sabemos disso. Eles sabem disso, mas traçaram um roteiro e estão dispostos a cumpri-lo até o fim.

A gente vai permitir!?

E o que faz o presidente do STF, Ricardo Lewandowski?

Cuida dos ritos, tão somente. Posa de Pilatos, ele que entrega o próprio cargo no dia 12 de setembro – para a sucessora Carmem Lúcia, um poço de presunção.

Às favas a Constituição.

Não é a primeira vez que a Suprema Corte se omite, e ao omitir-se, alia-se às vivandeiras, que na falta de tropa, seguem os ratos de poder.

Em 1964, deu-se o mesmo, referendou-se o golpe, e pronto.  Havia tanques, havia armas, havia coturnos, entretanto. Hoje, dispensa-se as fardas. São outras as armas, embora sejam as mesmas motivações.

Não obstante, a covardia reflete-se no espelho da História, enevoando a visão.

Dilma errou, sim, como todos erram. Mas não se tornou alvo do golpe por seus erros, e sim por seus acertos.

O erro de Dilma foi ter estado ao lado do povo. Na trilha do seu antecessor, e estimulador, o ex-presidente Lula, acreditou ser possível tornar o Brasil menos desigual, minimamente.

Errou, sim, ao negar-se à prática da politicagem rasteira, que faz do exercício do poder um balcão de negócios; e aos rapapés para além da liturgia do cargo.

Todavia, o erro principal, que Lula também cometeu, foi crer que seria possível, concomitantemente, ascender uma vela para Deus e outra para o Diabo. E, de certa forma, o fizeram.

Ou seja, olhar para os desfavorecidos e buscar um mínimo de equidade e de cidadania para quem sustenta com seu trabalho este País; e manter um pacto com as elites-abutres que devoram as riquezas do Brasil, desde sempre.

Não há aliança possível entre a chibata e o lombo.

E agora, leio, ouço e me recuso a crer que se queira colocar no colo da presidenta Dilma Rousseff a responsabilidade pelo golpe de que é alvo; e que fere de morte a Democracia, os direitos e as conquistas da maioria do povo brasileiro.

O pior é que parte de aliados, na política partidária, no centro e à esquerda, e na mídia, incluindo a alternativa, o referendo do golpe.

Tudo, democraticamente revestido por uma proposta de plebiscito, onde o povo escolheria a hipótese de novas eleições presidenciais ou não, aliada a uma reforma política. Dilma, no caso, cumpriria um mandato de transição, mas, “obtusa, não entendeu”.

Tempo para o quê, para o suicídio!?

Argumentam, e se sustentam nas próprias convicções – e em pesquisas colhidas em meio ao caos -, que a presidenta não teria condições de governar nos dois anos que lhe restam de mandato. Caso ele venha a ser mantido.

Pergunto, na minha teimosia militante: quem neste País seria capaz de governar com este Congresso que aí está, ele próprio fonte e combustível da crise política – com o auxílio luxuoso da mídia, do Judiciário e do Ministério Público Federal?

Sim, o usurpador, em desgoverno, talvez… Mas, a que preço?

Dilma sempre se dispôs ao plebiscito como fator de repactuação, imprescindível para a pacificação do País. Falou sobre a proposta em todas as entrevista que concedeu, mesmo antes de seu afastamento.

Mas pensava, justamente, em consulta sobre a possibilidade de eleições gerais, acompanhada da imprescindível reforma política.

Aliás, sempre insistiu na necessidade da reforma política. Encaminhou a proposta ao Congresso ainda em 2013, atendendo à dita “voz das ruas”.

E no que resultou? Na mini-reforma eleitoral, uma gambiarra que acabou com o financiamento empresarial de campanha – com a interveniência do STF -, e também com a reeleição para a chefia do Executivo.

A lembrar que senadores representam os estados, e são eleitos na majoritária, a eleição que escolhe o chefe do Executivo – federal e estadual. Senadores têm mandato de oito anos. Deputados são eleitos na proporcional, e têm mandato de quatro anos.

O Senado que julga Dilma Roussef, portanto, foi eleito junto com a presidenta; boa parte em 2010; outra parte em 2014, assim como todos os deputados e todos os governadores. Quem deles abre mão do mandato em nome do equilíbrio político do Brasil?

Ora, se a proposta de eleições presidenciais, e não eleições gerais, antecipadas não é outra face do golpe, é o quê?

Querem que Dilma se ajoelhe diante do Senado, e diga que está disposta a abrir mão do seu mandato, legitimamente conquistado nas urnas, em troca dos seis votos que a livram do golpe travestido de impeachment.

Assim, livra-se o Congresso do vexame do golpe parlamentar. Abre-se espaço para quem quer que se habilite a submeter-se ao voto popular para assumir a cadeira mantida quente pela presidenta “de transição”; de preferência um varão de Plutarco.

Dilma volta para casa, vai cuidar dos netos, que é o que cabe a uma mulher de respeito.

E todos suspiram aliviados.  Salva está a República, de bananas.

*****************

Postagem revista e atualizada dia 11.08.2016, às 10:27: correção de erros de digitação e de gramática em diferentes parágrafos; inclusão de frasess e/ou complemento de frases nos parágrafos 30, 31, 33 e 36.

 

 

 

 

 

 

 


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