Na véspera do dia D, a esperança de Edmar, filho do mundo e eleitor de Dilma e Lula

por Sulamita Esteliam

Arrisquei uma caminhada na praia neste domingo, em pleno sol de meio dia e maré cheia, dando tratos às pernas em risco de enferrujar. Hora possível entre a trégua da chuva, que se despede mas faz questão de dizer que existe, e o meu tempo de afazeres e que tais, que não cessam porque é fim de semana.

Esse périplo pelas areias do que eu chamo de “meu quintal” é meu elixir cotidiano, mas nem tanto. A despeito da in-frequência, é vital para minha sobrevivência mental e física. É onde me acalmo e me regenero.

Na barraca da Silvana e do Alex, parei no retorno para uma gelada antes de chegar em casa. Faz quase um mês que não apareço. Edmar me trouxe o segundo latão, estava com sede, e puxou a cadeira para dois dedos de prosa. É hábito dele, que se auto-designa relações públicas desse trecho da praia. A orla inteira o conhece.

Rascunhava uma mensagem de trabalho, que teria que enviar ainda hoje pelo correio eletrônico, e ele, curioso, depois de alguma troca de conversa, quis saber:

– Será que uma pessoa que não sabe escrever pode fazer um livro sobre a vida dela?

Respondi que sim, desde que conte a história para outra pessoa que saiba escrever… E, como sei um pouco da vida dele, de sobrevivente, perguntei:

– Você não sabe escrever?

– Sei ler um pouquinho, mas escrever não sei nada.

Disse a ele que pode usar um gravador, pode ser o próprio celular, ir contando aos poucos, e depois passar para alguém organizar a história.

– Eu mesma posso lhe ajudar, se quiser.

Ele riu, e devolveu:

– Quero escrever um livro sobre a minha vida. Mas vou ter que comprar outro celular, roubaram o meu.

Edmar não se abala com qualquer coisa. Não sabe escrever, mas se vira no essencial do inglês, francês, italiano e espanhol. Aprendeu na praia, com os turistas, e usa seu conhecimento para seduzir outros visitantes.

Minha sobrinha Rachel, de passagem a trabalho por aqui, encantou-se com os talentos do rapaz: “Tia, você precisa escrever sobre ele…”

Aliás, Edmar sempre pergunta por ela: “E aquela moça, não volta?”

Edmar, relações públicas da praia, às vezes se atreve ... - Foto: SEsteliam
Edmar, relações públicas da praia, às vezes se atreve … – Foto: SEsteliam

É uma simpatia. No verão passado, uma amiga achou divertidíssimo ele se oferecer para massagear seus pés e, ao final, beijá-los para fechar o serviço.

Nem quando parece “abusado” – extrapolar no pernambuquês – tira as pessoas do sério.

Tem, talvez, seus trinta e poucos anos… É negro, tem olhos grandes e espertos, voz forte e sorriso fácil. Sabe ser galante e respeitoso, a depender da ocasião, e não se intimida com eventuais deboches.

Saiu de casa ainda criança, expulso pelo padrasto, que não tolerava tratar de um “aleijado inútil”. Teve paralisia infantil, que deixou sequelas no joelhos e, principalmente, na perna esquerda – o que não o impede de andar de bicicleta.

Foi menino de rua, passou pela antiga Febem. Comeu o pão que o diabo amassou com o rabo, como diria minha tia Mundica. “Mas sobrevivi”, resume com um sorriso entre amargo e sarcástico.

Hoje, como sempre, quis saber se estou bem. Respondo que sim, mas emendo que “na medida do possível, com tudo de atravessado que está acontecendo no país”.

Pergunto se descobriu o que eram as cólicas estomacais que o afligia da última vez que nos vimos. Responde que era “coisa da Chikungunya, mesmo”. Está “bom todo”.

E procura me tranquilizar sobre o momento político:

– É verdade, querem tirar a Dilma, acabar com o PT… mas digo que não vão conseguir. E sabe por quê?

– Por quê?

– Por que ninguém pode mais do que o Todo-Poderoso, e ele não quer que isso aconteça. Não dizem que Ele é brasileiro? Pois então.

Palavras do Edmar.

Que Deus fale pela sua boca.

*****************

E pensar que, se depender do desgoverno usurpador, Edmar jamais aprenderá a ler e escrever. A notícia, às vésperas do depoimento da presidenta legítima, Dilma Roussef, no Senado, é de que o programa de alfabetização de jovens e adultos está cancelado.

A lembrar que a bandeira do mandato interrompido de Dilma é “Pátria Educadora”.

O desmonte não respeita sequer compromissos internacionais. E pouco se importa que o Brasil detenha uma das piores taxas de analfabetismo da América do Sul, ainda que tenha caído bastante nos últimos 14 anos. São 13 milhões de pessoas na faixa dos 15 anos ou mais que não sabem ler ou escrever, o que corresponde a 8,3%da população nesta faixa etária.

A ignorância é mais facilmente manipulada. Ou não. Está aí o Edmar para desmentir o senso comum.

Enquanto isso, no Senado Federal, a sessão de sábado registrou a presença de apenas 18 dos 81 senadores da República. Julgadores que dispensam a ouvida de testemunhas. Como, aliás, admitiu, com todas as letras, o senador paranaense, Álvaro Dias, em texto-vídeo que circula nas redes sociais – aqui, no coletivo Jornalistas Livres.

“Isso é uma encenação, o cumprimento de uma formalidade. Esse é um tribunal político, o julgamento é político (…) e já há convicção em relação aos crimes praticados ou não pela presidente. O que haverá é a repetição de perguntas e a repetição de respostas.”

Depois reclamam quando a gente diz que é golpe, e que o julgamento por impeachment é uma farsa.

Pronunciamento recente no Senado, desta vez de Jorge Viana (PT-AC), resume a ópera bufa. Vídeo também capturado no FB do coletivo Jornalistas Livres:

 

A presidenta Dilma inicia seu depoimento na arena do Senado Federal às 9:00 desta segunda-feira. Pode falar por 30 minutos, prorrogáveis a critério do presidente da seção, Ricardo Lewandowski, do STF. Em seguida, responde a perguntas de cada cada senador ou senadora, de Lewandowski, da acusação e defesa. A TV Senado, também pela internet, transmite ao vivo.

Dilma Roussef vai encarar seus algozes acompanhada por convidados, dentre eles o ex-presidente Lula e Chico Buarque; além de sua equipe de seu governo – a parte leal -, assessores e o presidente do PT, Ruy Falcão.

Neste domingo, a presidenta recebeu no Alvorada a visita de Lula. Ambos conversaram sobre a segunda-feira no Senado, sem dúvida o Dia D, de Dilma em sua saga em defesa do mandato e da Democracia.

A militância, mulheres e homens dos movimentos sociais e sindical, representados na Frente Brasil Popular e Frente Povo Sem Medo, recebem a presidenta legítima em frente ao Senado, às 8:00 horas, com rosas.

Flores contra o ódio e a desfaçatez golpista.

dia 29 contra o golpe_nManifestantes dos sete cantos do País desembarcaram em Brasília neste domingo, 28 de agosto, para o Acampamento Nacional em Defesa da Democracia, instalado no estacionamento do Ginásio Nilson Nelson – SRPN Trecho 1. Ficam até a terça, 30, quando se prevê a votação final do impedimento.

Há atividades político-culturais programadas para os dois dias – embora o julgamento possa alcançar a quarta-feira, 31. Nesta segunda, às 17:00 horas, os ativistas marcham em direção ao Senado para ato contra o golpe e em defesa da Democracia.

Eis a programação de manifestações Brasil afora, divulgada pela Frente Brasil Popular – ao lado. Note-se que não há ato previsto no Recife. Em Curitiba, rolou neste domingo, na Praça Santos Andrade. Em Beagá, é dia 30, em frente ao largo Rômulo Paes – na Álvares Cabral com Bahia.

 

 

“S’il n’y a pas coup d’Etat, il y a au moins tromperie. Et les vraies victimes de cette tragi-comédie politique sont, malheureusement, les Brésiliens.”

“Se esse não é um golpe de Estado, é no mínimo uma farsa. E as verdadeiras vítimas dessa tragicomédia política infelizmente são os brasileiros.”

Editorial do Le Monde, jornal conservador francês.


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