Povo na rua mostra que não tem arrego para golpistas

por Sulamita Esteliam

O Brasil que preza a democracia e a cidadania brilhou neste domingo. Manifestações massivas em diversas capitais do país, as maiores desde que a consumação do golpe de Estado que depôs a presidenta legítima, Dilma Rousseff.

São Paulo reuniu 100 mil na Av. Paulista. O Rio e Salvador botaram milhares –  em frente à praia de Copacabana e na orla soropolitana. Curitiba, reduto tido como conservador, também se manifestou com milhares.

O recado é inequívoco para o governo golpista: #ForaTemer, aquele que não cabe no terno presidencial, resolveu ridicularizar as manifestações e a dignidade das pessoas, diretamente da China: “Inexpressivos. Grupos mínimos. Não tenho os números, mas são 40, 50, 100 pessoas…”

Cometeu dois erros primários: ameaçar e desdenhar. Faz lembrar Collor de Mello, que em 1992 convocou a população a vestir verde e amarelo em defesa do seu mandato; o povo foi às ruas de preto, aos milhares, e deu no que deu.

O usurpador pagou pra ver, e viu, e vai continuar vendo, tudo multiplicado por muitas vezes mil, por enquanto…

O 7 de setembro, quando a celebração da independência do Brasil tem como contraponto o Grito dos Excluídos, promete. Há manifestação nos sete cantos do país. Capitais que não protestaram no domingo, se organizam para o feriado. Como o Recife, onde a concentração é a partir das 9:00 horas, na Praça da Democracia, ou do Derby, área central. Em Beagá, no mesmo horário, na Praça Raul Soares.

Acompanhei pelas redes sociais. Primeiro feliz – no que toca a reação ao golpe, pois tenho séria resistência a essa história de diretas-já, e tenho me manifestado a respeito; se ainda fossem Eleições Gerais-já! Acho mesmo que a gente deve se acautelar, por que, no andar da carruagem do assalto, corremos o risco de nem ter eleições em 2018.

Mas isso é assunto para outra postagem. Entre o livre pensar e o escrever há o tempo de maturação. Todavia, o Arnóbio Rocha já escreveu a respeito, com muita propriedade, aliás.

De volta aos acontecimentos do domingo, o que era prazer, deixou-me estarrecida e angustiada com o que sobreveio na capital paulista no início da noite.  Terror que, para alguns, varou a madrugada e só terminou no início da noite desta segunda, para uns; para outros só quando a noite esbarra no dia seguinte.

Violência armada, e arquitetada, para sair nas redes cúmplices do golpes, especial a Globo.

Não obstante, falemos primeiro de beleza.

O domingo foi lindo, por todo país. Compartilho vídeo de quatro, via Jornalistas Livres e Mídia Ninja:

1. São Paulo deu de lambuja:

2. Rio de Janeiro, e num dia de praia:

3. Salvador, Bahia – do Campo Grande ao Farol da Barra:

4. Em Curitiba, Paraná – da Praça 19 de Dezembro ao Batel:

 

E em São Paulo teria maravilhoso se tudo terminasse como começou e permaneceu, desde a concentração no vão livre do Masp, na Av. Paulista. O clima se manteve durante a marcha de cerca de 6 km até o Largo do Batata, em Pinheiros: em paz até a dispersão.

Aí entrou o Choque, sem qualquer motivo aparente, e a bestialidade campeou.  Mulheres com crianças de colo, idosos e adolescentes que exerciam com alegria o sagrado direito de se manifestar, foram objeto de violência gratuita. Até no Metrô Faria Lima a polícia atacou.

Houve feridos. Muita gente presa sem justificativa, antes mesmo do ato começar.

Pais e advogados de menores e jovens não puderam ter acesso aos detidos, 26 no total, incomunicáveis até bem próximo da madrugada.  Vinte um deles estava no Centro Cultural São Paulo. Outros cinco nas imediações da Paulista. Aos parlamentares chamados a intervir, como Paulo Teixeira e o ex-senador Eduardo Suplicy, o delegado de plantão reconheceu que não havia flagrante.

Rapazes e moças foram detidos, e indiciados por “associação ao crime”, porque “desde o ano passado”, o referido agente público havia “formado a convicção” de que… Tal e qual nos anos de chumbo do governo militar, quando três pessoas juntas na esquina era o suficiente para tornarem-se suspeitas de subversão.

https://www.facebook.com/jornalistaslivres/?fref=ts#
https://www.facebook.com/jornalistaslivres/?fref=ts#

Clique na imagem ao lado e leia a carta de Pimenta e Suplicy ao governador Geraldo Alckmim sobre o caso.

Se isso não é arbítrio típico de uma ditadura é o quê?

Dezoito dos 21 jovens só foram liberados na noite desta segunda, depois que o juiz decretou sua soltura; os demais aguardam decisão do juiz da Vara da Infância e Juventude, segundo reportagem de Laura Capiglione, do coletivo Jornalistas Livres. Um deles era estudante de Jornalismo, e estava no CCDP para usar o wi-fi para estudar.

Em depoimento ao coletivo Mídia Ninja disse que sequer conhecia os outros 20. Libertados, celebraram com jogral. Veja aí:

O juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo, que libertou os jovens, disse tudo numa frase: “Triste é viver em um país que a gente não pode se manifestar”.

Os oito menores, presos ilegalmente, só foram liberados próximo à meia noite

Helio na frente do tanque_JL_n
Foto capturada nos comentários do FB/Jornalistas Livres

Um dos fatos mais emblemáticos da repressão no protesto paulista do domingo refere-se à atitude do publicitário Hélio Leandro, apelido Jesus … A exemplo do jovem da Praça Celestial, em Pequim, de memória inapagável, o homem se postou de braços abertos em frente a um dos tanques brucutus, que disparavam jatos “de água ardida, que queima”.

Recebeu-os no peito, não caiu, mas foi sequestrado para dentro do veículo. “Eu só queria que aquilo parasse”, relatou o homem ao coletivo Democratize. Leia o belo texto de Victor Amatucci.

Nas redes sociais, por outro lado, alguns comentários mostram que o fascismo mora ao lado e a truculência está internalizada em nós. Há quem comemore a cegueira da garota Deborah, atingida no protesto do dia 31 de agosto, e quem peça mais repressão para os manifestantes. “Não querem dar uma anarquistas, agora aguentem”. Nem vale à pena falar o que berram sobre os “ptralhas”.

Queria ver a opinião de gente (?) desse tipo quando a vítima for alguém próximo a ele ou a ela – tipo irmã, filha, sobrinha, neta, namorada, mãe e seus opostos de gênero. É como se diz, no dos outros, é refresco.

A menos que as famílias respectivas detenham a unanimidade rara, e burra, do reacionarismo e da falta de solidariedade e senso humanitário, e sejam todos recatados e do lar.

Costumo dizer que o ser humano representa a si próprio quando revela sua animalidade.

socorro
Foto capturada no GGN

Luis Nassif escreve sobre o ridículo sem fim da imagens do material “apreendido” com jovens socorristas – como o próprio nome diz, especializados em prestar socorro a vítimas da polícia em manifestações:

“Um estilingue; pedras; um extintor de incêndio; celulares; uma câmera GoPro; um maço de cigarros; uma caneta esferográfica; um cabo de televisão; bandanas; um gorro; um chaveiro do Pateta, personagem da Disney; máscaras de gás; um boné; panfletos contrários ao governo Temer; óculos de proteção; luvas; gazes e outros materiais de primeiros-socorros, como comprimidos de analgésico; e garrafas com líquido aparentando ser vinagre.’

Mencionam também uma barra de ferro. Mas não a mostram. Provavelmente porque não tinha nenhuma por perto para ser colocada, da mesma maneira que fazem com revólveres que aparecem nas mãos de crianças de 12 anos fuzilada por eles.

Provavelmente a brava PM julgou que o chaveiro do Pateta fosse alusão a alguma alta autoridade do estado de São  Paulo. Não se sabe se da área militar ou civil.”

Os Black Block, arruaceiros a serviço da direita, que brotam “do nada” foram expulsos pela organização do ato paulistano, logo no início. Mas a truculência na dispersão em São Paulo mostra que não é suficiente.

Como bem lembrou uma amiga no Facebook, a tática da infiltração é velha, e o movimento social tem que viabilizar uma forma de neutralizar a ação dessas pessoas. Talvez mantendo guardiães próprios não apenas na concentração e ao longo do percurso, como já fazem, mas também no local de desembarque, em comunicação permanente com a organização, todo o tempo.

O relato abaixo, colhido na página do coletivo Jornalistas Livres no Facebook, mostra que é preciso cuidado:

PROVOCADOR INFILTRADO
A estranha história do “manifestante” da CUT

Depoimento de Izabel Dias Machado
Suposto militante da CUT, de plantão no Largo do Batata, chama de "ladrões" os manifestantes que ainda não haviam chegado... - Foto capturada no FB/Jornalistas Livres
Suposto militante da CUT, de plantão no Largo do Batata, chama de “ladrões” os manifestantes que ainda não haviam chegado… – Foto: Lina Marinelli/Jornalistas Livres

Cansados após horas de manifestação na Paulista, resolvemos voltar para casa dali mesmo, porém como uma de nós havia se perdido e seguido a população até o Largo da Batata, optamos por pegar o metrô e irmos até lá para encontrá-la.

Chegamos momentos antes da multidão e nos colocamos próximos ao metrô Faria Lima esperando e observando. Primeiro nos assustamos com a PM que, em número surpreendente, se posicionou estrategicamente como se estivesse preparada para uma batalha.Impressionados , comentamos com um manifestante da “CUT”, que como nós, estava parado ali, em uma bicicleta (???), aparentemente aguardando a multidão que em pouco tempo chegaria.

Ele, muito estranhamente, disse que as pessoas que estavam vindo, eram todas bandidas e que havia black blocs no meio delas ameaçando causar um enorme tumulto no Largo da Batata (grifo do A Tal Mineira). Alegamos, revoltados, que nós não éramos bandidos coisa nenhuma e que havíamos estado o tempo todo junto à multidão e que toda a manifestação estava em paz e harmonia sem que houvesse o mínimo tumulto.

Desconfiados, perguntamos se ele não era da CUT. Ele deu umas respostas estranhas e tratou de sair dali rapidinho (grifo do A Tal Mineira). Tirei uma foto do “infiltrado” que vestia roupa da CUT e que estava incitando as pessoas paradas ali contra a manifestação que, repito, TRANSCORREU EM IMENSA PAZ ATÉ O FINAL.

O único tumulto foi na hora de voltarmos para casa de metrô ali mesmo, quando a PM atirou bombas de gás lacrimogêneo contra manifestantes que tentavam passar pelas catracas, pedindo aos gritos para que elas fossem liberadas porque evidentemente não comportavam a enorme multidão concentrada ali.

Quem me garante que aquela turma que começou a gritar causando o enorme tumulto, que poderia ter sido bem pior, não seriam outros “infiltrados” como aquele que, com toda certeza, NÃO ERA DA CUT COISA NENHUMA.
Se me dissessem que pessoas alheias ao movimento “fora temer” se infiltravam entre nós para causar tumulto, eu duvidaria.
AGORA TIVE CERTEZA DE QUE A MALDADE DELES NÃO TÊM LIMITES!!!!

Lina Marinelli_JL_o
Coletiva de imprensa no Sindicato dos Jornalistas SP – Lina Marinelli/Jornalistas Livres

No fim da manhã desta segunda, parlamentares e lideranças dos Movimentos Sociais e das Frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular concederam coletiva de imprensa no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Falaram sobre o que aconteceu ontem no final do Ato Fora Temer em São Paulo.

Transcrevo, a partir dos Jornalistas Livres, algumas declarações:

“Nós ficamos até o final. Eu estava lá. Não houve UM ato de violência por parte dos manifestantes. Foi uma ação premeditada da Polícia Militar. O objetivo de tudo isso é passar essas imagens, assustar a população e diminuir a força dos movimentos. Já afastaram a presidenta e gente não pode mais se manifestar? Nos preocupam os próximos passos. Se a gente deixa passar isso, virão mais coisas depois. Nós não podemos aceitar essa escalada autoritária. Temos que fazer uma manifestação como as Diretas Já, com artistas, pessoas públicas, em apoio à resistência popular contra o golpe.” Senador Lindbegh Farias (PT).

“Queremos alertar a população para a escalada de violência promovida pela polícia. Ontem, foram presas pessoas sem nenhuma motivação criminosa, elas estava indo se manifestar. Exigimos proteção ao direito sagrado de manifestação e não à repressão orquestrada que está acontecendo aqui em São Paulo e em todo o Brasil.” Deputado Federal Paulo Teixeira (PT).

“Nós vemos o desprezo que o governador Geraldo Alckmin tem pela Democracia. Os policiais foram lá preparados para jogar bomba a qualquer momento. O governo federal não tem nenhum compromisso com a Constituição e nem com a vida das pessoas. Nós não vamos aceitar que esse governo tente intimidar as pessoas e tirá-las das ruas. Vamos voltar e vamos trazer mais gente.” Edson Carneiro (Indio) – Intersindical e Frente Povo Sem Medo.

“Fizemos inúmeras reuniões e colocamos pessoas nossas para fazer a segurança da manifestação por que estávamos decididos que faríamos tudo para que a manifestação fosse pacifica. Nós propusemos um encontro com o Secretário de Segurança para conversar e acertar o horário e o trajeto. Da nossa parte, fizemos tudo que estava ao nosso alcance para que não houvesse problemas. Mas não é a primeira vez que a Polícia Militar de São Paulo mostra que tem lado. Os atos da direita sempre tiveram o total apoio da PM, inclusive eles tirando fotos com os manifestantes. Está claro que a polícia de São Paulo é uma polícia política. Mas não é por causa dessas intimidações covardes que vamos sair das ruas.” Raimundo Bonfim – Frente Brasil Popular.

“Foi uma truculência sem motivo nenhum. Mostrou mais uma vez o caráter arbitrário da PM de São Paulo. Os trabalhadores estão percebendo que há algo muito errado. Nós vamos conclamar a população para continuar indo às ruas defender seus direitos e a sua vida.” Rogério Nunes – Central dos Trabalhadores do Brasil.

 

Fecho com o coral de canto lírico, diretamente da Av. Paulista, para inspirar a semana: Messiah, de Handel, traduzido em #ForaTemer, #ForaGolpista!

Sim, e aí vai um bônus do país que fomos perante a comunidade internacional e no Brasil que nos tornamos sob a égide golpista:

 

Postagem revista e atualizada às 23:42 horas: ajustes na formatação e correção de informações sobre os jovens presos no domingo. E novamente dia 08.09.2016, para agregar linque de reportagem sobre a liberação dos oito menores, informação de que não dispunha no dia 05; incluí, também, o nome do juiz responsável pela soltura dos jovens maiores de idade – no parágrafo imediatamente após o vídeo sobre a manifestação em São Paulo.

Embora a informação já estivesse contida no linque da reportagem da Laura Capiglione, dos Jornalistas Lives,  no parágrafo anterior. Fato é que a crítica do amigo Marco Antônio Campos, no Facebook, a respeito da “omissão” do nome do juiz em diferentes matérias de diferentes veículos, mesmo nos alternativos, me alertou para a falha; a carapuça serviu. Visto-a.

 


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