Na véspera de deixar o Alvorada, Dilma fala ao Le Monde e assinala a indignação do Brasil com o golpe

por Sulamita Esteliam

Dilma deixa o Palácio da Alvorada, como deixou o Palácio do Planalto, nos braços do povo. Muita gente foi se despedir da presidenta, que segue para Porto Alegre, de mudança. Mas quem enfrentou longa caminhada e o sol a pino para abraçar Dilma Rosseff, não se conforma com o adeus. No peito de cada um, lá no fundo, se diz “até breve”.

Eis o vídeo do exato momento em que a presidenta Dilma, cassada num golpe de Estado travestido de impeachment, desce do carro e se aproxima do povo. A comitiva que a acompanha é de membros da sua equipe de governo e parlamentares do seu partido e da esquerda que a apoia. Recolhi no FB/Dilma Rousseff:

 

Dilma segue para Porto Alegre, aonde vai juntar-se à sua filha e netos. Lá, outra recepção calorosa, organizada pelo ministro Miguel Rosseto (PT-RS) a espera. É um descanso merecido para quem enfrentou um turbilhão de emoções e ataques. Entretanto, deve fixar residência no Rio de Janeiro, no apartamento em Ipanema, onde morava sua mãe, d. Dilminha.

Viaja para a capital gaúcha em avião da FAB, junto com seus livros, discos e outros itens pessoais, que fez questão de catalogar e embalar, um a um. Fez o mesmo com cada item de valor – quadros, objetos e obras de arte acumulados ao longo dos quase seis anos em que morou no Alvorada.

No sítio Os Divergentes, Helena Chagas, que assessorou a presidenta no primeiro governo, escreve sobre a mudança:

“A presidente tem dito aos interlocutores que não quer levar do Palácio, onde viveu quase seis anos,  um alfinete sequer que não seja de sua legítima propriedade, e quer ter provas disso. Dilma, obviamente, não gostou do escândalo em torno do falso sumiço da faixa e do broche presidenciais, afinal encontrado embaixo de um armário.”

Não apenas isso. Ela assistiu o que a mídia golpista tentou fazer com o ex-presidente Lula e os presentes que recebeu nos oito anos de Presidência da República, e que a ele, como a outros presidentes, pertencem por lei.

A presidente Dilma, através de seu advogado, vai continuar lutando pela restituição do seu mandato. Sabe quais as cartas estão sobre a mesa, e quem são os jogadores, entretanto.

É o que disse à jornalista Claire Gatinois, enviada especial do Le Monde, a quem concedeu a última entrevista pós-golpe. Esta dito e publicado na edição desta terça, 06 de setembro, com direito a chamada principal de capa do diário francês – conservador, tanto como o Estadão daqui, mas que não se furta aos fatos, ao Jornalismo como se deve.

Reproduzo o texto em português, com o auxílio luxuoso do Tijolaço, que publica colaboração de Jari Rocha:

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Este processo de destituição é uma fraude

Cinco dias depois de sua demissão, a ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff, recebeu Le Monde, segunda-feira, 5 setembro, na residência presidencial, o Palácio da Alvorada, em Brasília. Na véspera da sua mudança para Porto Alegre, onde ela vai reencontrar sua família, a ex-guerrilheira  continua a afirmar a sua inocência das acusações de manipulações contábeis que são, oficialmente, a origem de sua saída.

“Esse processo de impedimento é uma fraude. Uma ruptura democrática que criou um clima de insegurança nas instituições políticas e afetam toda a América Latina.”

Sua demissão ocorreu em um clima de profunda crise e a corrupção e escândalos econômicos espirrou nos partidos políticos, incluindo o seu, o Partido dos Trabalhadores (PT, esquerda). Qual é a sua opinião sobre o julgamento do Senado?

Os argumentos que levaram à minha demissão são pretextos. Depois de ter sido deposta sem perder meus direitos políticos, isso demonstra que, não há lógica, este processo não tem base jurídica. Para justificar o meu impeachment, tiveram que encontrar outras razões, como “um conjunto de ações” [o conjunto da obra]. Isso não é permitido pela Constituição Brasileira. Não são os oitenta e um senadores que tem de julgar minha política, mas toda a população, por meio de eleições diretas.

Na verdade, eu acho que houve outra motivação por trás disso, que é a de interromper a operação Lava Jato, para interromper todas as investigações relacionadas com a corrupção, a lavagem dinheiro, a existência de caixa dois [para o financiamento dos partidos e das campanhas eleitorais].

“Eu entendo que os eleitores ficaram desapontados com todos os partidos políticos”.

Para Dilma, “não havia outra motivação” por trás de sua destituição: “Isso foi para interromper a operação Lava Jato, para parar todas as investigações relacionadas com a corrupção, a lavagem de dinheiro, a existência de caixa dois (para o financiamento dos partidos e das campanhas eleitorais). “O escândalo de corrupção da operação Lava Jato, da estatal petrolífera Petrobrás,  afetou toda a classe política brasileira.

“Eu entendo que os eleitores ficaram desapontados com todos os partidos políticos”, explica a ex-presidente, que defende seu balanço (prós e contras) e também de seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva.

Para ela, sem as leis adotadas, desde a chegada do seu partido ao poder, o Partido dos Trabalhadores, em 2003, “a polícia nunca conseguiria passar por cima do sistema (de corrupção) na Petrobras”.
“O outro interesse obscuro (dos seus adversários) foi implementar uma agenda neoliberal, que não estava prevista no meu programa”, Rousseff também explica: “Os protagonistas desta destituição são a oligarquia brasileira”.  Um grupo dos mais ricos, como os meios de comunicação (que, de acordo com a presidente, auxiliou para transmitir informações tendenciosas).

Critica um sistema político de 35 partidos onde se é obrigado a fazer alianças. E reconhece a incapacidade de uma reforma em 2013. “É como se você pedisse para uma raposa proteger o galinheiro”.

“Eu já deixei de estar sujeita às observações machistas”.

A ex- chefe de Estado, finalmente, evoca as “observações machistas” que ela tinha que ouvir: “primeiro disseram que eu era dura ( … ) . Em seguida, queriam fazer de mim uma mulher frágil, doente, deprimida.”.

Mas para ela, este revés não é o fim: “A resistência vai acontecer através da crítica, do debate político. Este é o início de uma luta. Estou otimista, a indignação está mais viva hoje no Brasil. O país vai se agigantar.”

A partir da página da página de Dilma Rousseff no Facebook, chega-se ao original em francês, que você pode ler aqui.

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Postagem revista e atualizada às 23:45: correção gramatical no título  (…) fala ao Le Monde e assinala (…); e de erros de digitação e repetição de palavras em vários parágrafos; pelo que, peço desculpas.

 

 


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