Lula chama os procuradores à razão política: “Provem, e eu vou caminhando para ser preso”

Ex-presidente Lula durante a coletiva em São Paulo - Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula/Fotos Públicas
Ex-presidente Lula durante a coletiva em São Paulo – Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula/Fotos Públicas
por Sulamita Esteliam

Um Lula indignado, mas comedido com as palavras, como convém a “um cidadão diante de uma autoridade”, o ex-presidente da República chamou “os meninos” do Ministério Público à razão política, por que de política se trata.

“Conquistei o direito de andar de cabeça erguida. Provem uma corrupção minha, e eu irei caminhando para ser preso. Peçam desculpas. Mas parem de inventar coisas para justificar a primeira mentira.”

A coletiva de imprensa, convocada para o início da tarde desta quinta, num hotel em São Paulo, onde se reunia o Conselho Político do PT, foi na verdade uma declaração pública. Em resposta à pirotecnia de Deltan Dallagnol e sua trupe, a Força Tarefa curitibana.

Lula falou para a imprensa nacional e internacional, e para correligionários, durante uma hora e oito minutos. Euzinha e o maridão acompanhamos pela TVT – TV dos Trabalhadores, via internet, enquanto almoçávamos – e Euzinha tuítava, simultaneamente.

“Acredito que o procurador-Geral deve estar pensativo hoje, os ministros do STF, STJ, o delegado-Geral da Polícia Federal, devem estar todos pensativos. O que aconteceu ontem? A custa do quê esse espetáculo? A custa de que vender um produto que eles não podem entregar?”

Procurou demonstrar e assegurou tranquilidade. Valeu-se da ironia e das metáforas, recursos que sabe manejar como poucos. Por exemplo, para assinalar o desvirtuamento da Justiça e do sistema acusatório:

“Eu tenho convicção de que quem mentiu está numa enrascada. E os setores da imprensa que mentiram terão de construir uma versão pra sair dessa encalacrada.”

“O Nassif (jornalista e blogueiro) publicou uma coisa interessante: acharam um helicóptero com 400 quilos de cocaína (pasta base, na verdade). Tinham provas, mas não tinham convicção.”

Mas emocionou-se, mais de uma vez, sobretudo quando recordou seus tempos de menino e de adolescente, na Vila São José, nos cafundós de São Paulo, onde morava com a mãe e mais cinco irmãos. “Um domingo de chuva, com a goteira pingando”, quando mãe acendia o fogo, botava a panela, a água fervia, “e não tinha um grão de feijão para cozinhar”.

Nessa hora, engasgou e não conteve o choro. Mesmo assim, garantiu: “Não tenho espaço para ficar triste”.

Permita-me, caro presidente, o melhor de um homem é a sua generosidade, e como dizia Darcy Ribeiro, sua capacidade de indignar-se. Mas há que ter, sim, “espaço para ficar triste”. Até porque, a lembrar a presidenta Dilma Rousseff, “mais do que a doença, dói a injustiça”.

É compreensível o sentimento de Lula. Não é apenas a sua obra, sua imagem, sua reputação que querem desmontar. Envolvem sua família, a mulher que o ajudou a criar os filhos, a companheira que lhe dá suporte para seguir em frente.

“Respeitem a dona Marisa. Deixem minha família em paz.”

Lula lembrou que foi os governos do PT que retiraram “o tapete sob qual se escondia a corrupção”, através da valorização institucional da Polícia Federal e do Ministério Público.  Mas também do “orgulho de ter criado o maior partido de esquerda da América Latina”.

Lembrou, ainda, que sua “única ambição” ao assumir a Presidência da República, foi assegurar o direito a que todo brasileiro e brasileira possa ter três refeições diárias, mas acabou transformando a educação em uma marca. Logo ele, o primeiro membro da família a ter o diploma primário, a concluir o curso de torneiro mecânico, a tornar-se sindicalista depois presidente da República.

“Tenho convicção de que mudei este país, e tenho provas. Promovi a maior inclusão social que este país já viu.Fizemos uma revolução na educação deste país, sem dar um tiro, usando apenas os instrumentos da democracia. Isso incomoda, senhores procuradores!?”

Falou do prestígio internacional que o Brasil adquiriu a partir de seus governos:

“Fui o único presidente brasileiro a participar de todas as reuniões do G-8. Sabe o que é o G-8? É tudo que o sociólogo sonhava em participar.”

E não se esqueceu de reafirmar que a “caçada” ao PT começou em 2005, “porque o governo começou a dar certo”, e não cessou desde então:

“Tentaram fazer comigo, a imprensa e alguns setores do Judiciário, o que fizeram agora com a Dilma.” 

“Se eu tivesse fracassado, não haveria essa ira contra o PT. O que despertou essa ira foi o sucesso do nosso governo.”

Aliás, conforme A Tal Mineira assinalou na postagem de ontem.

expreslula2_ricardo-stuckert_ilLembrou Getúlio, JK, Jango, e sua decisão de disputar nas ruas à falta de vocação para se “dar um tiro”. Mas desdenhou da preocupação da direita e quem os representa com o Lula, citando Tiradentes:

“É uma bobagem se preocuparem com o Lula. Enforcaram, decaptaram, salgaram e espalham as partes do corpo de Tiradentes, mas as ideias permaneceram.”

“Bobagem, a meninada nas ruas fez o Alckmin recuar do fechamento das escolas. Essa meninada que está nas ruas não é o Lula. É um Lula de 71 anos multiplicado por milhões.”

“Vocês vão ter que responder por esse golpe.”

Não poupou críticas nem provocação à mídia:

“Não importa o processo, importa a manchete e a quem a manchete vai prejudicar.”

“Espero que eu tenha o mesmo destaque dos meus acusadores ontem. Só peço igualdade e oportunidade para que as pessoas possam ouvir.”

Para fechar, exortou os petistas a usarem a camisa vermelha, a não se esconderem. E pediu a Rui Falcão que providenciasse um modelo “elegante, para usar com terno”. Tirou o paletó e beijou a estrela no peito da polo vermelha que trajava.

“Na dúvida, se precisarem de mim, me chamem. Não estou abatido. Estou à disposição para contribuir.”

Uma multidão acompanhou a fala do ex-presidente do lado de fora do hotel, e o aclamou à saída.

Encerrada a fala de Lula, a entrevista quem concedeu foram seus advogados. Informaram que deram entrada no Conselho Federal do Ministério Público com representação “por desvio funcional” dos  “procuradores que usaram recursos públicos para enxovalhar a reputação de Lula e Dona Marisa”.

É o que sempre digo: o pote já está trincado, tamanha a sede com que investem sobre ele, hora dessas quebra.

Eis a íntegra da coletiva, veiculada pela TVT. A fala do ex-presidente está no trecho a partir de 11min até 1:19 hora. A parte inicial contém o antes, com comentários da apresentadora e a abertura pelo presidente do PT, Rui Falcão. Inclui, ao final, comentários do ex-presidente da OAB, Marcelo Lavenère, e a entrevista com os advogados de Lula. Capturei no sítio Lula.com.br:

 

 

A Tal Mineira seleciona alguns textos da blogosfera alternativa sobre o assunto. Confira:

Fernando Brito, no Tijolaço: Distorção judicial x tirania de um só homem

Justiça política, defesa política

João Filho, no The Intercept Brasil: Faltamprovas_Sobraconvicção.ppt

Revista Forum: Falta de provas é destaque na imprensa internacional. NYT fala em “verdadeira inquisição”

Carta Capital: “Provem corrupção que irei a pé para ser preso”

Paulo Nogueira, no DCM: E o senador Perrella vestiu a carapuça quando Lula citou o helicoca

Conversa Afiada: OAB critica o espetáculo de Dallagnol

Joaquim Palhares, em Carta Maior: Falta uma palavra no power point de Dallagnol

Kiko Nogueira, no DCM: 15 versões do power point de Dallagnol menos ridículas do que o original

 


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