Rua neles! Povo acuado não é povo feliz

por Sulamita Esteliam

A segundona começou quente, com povo na rua, único antídoto que dispõem as forças progressistas contra o golpe em curso, traduzido no assalto aos direitos fundamentais consagrados na Constituição Cidadã, e portanto #ForaTemer.

Um mar de gente pelo direito à moradia à tarde, em São Paulo, marchou pela Paulista e se postou em frente ao escritório da Presidência da República.

Organizados por Guilherme Boulos, do MTST e Frente Povo Sem Medo, arrancaram do desgoverno a promessa de retomada de assinatura dos contratos do programa Minha Casa Minha Vida em dez dias úteis.

É um começo? Pode ser, a questão é confiar num desgoverno golpista, sorrateiro pela própria natureza. Como se há de? Quem trai e rasga a Constituição é capaz de qualquer coisa.

A manifestação , contudo, se uniu a outra que começou no fim da tarde, e segue noite afora, no vão do Masp e depois em passeata pela Paulista até a sede da Febraban na Brigadeiro Faria Lima. Trabalhadores sem teto e estudantes juntos contra a PEC 241.

“Não tem arrego, você tira meus direitos que eu tiro o seu sossego.”

Protestos massivos também aconteceram na Cinelândia, no Rio de Janeiro, onde a repressão pegou pesado, já na dispersão.

Em Belo Horizonte, milhares se reuniram na Praça Afonso Arinos, no final da tarde, e caminharam até a Praça da Estação, passando pela Praça 7. Lá também, jovens formam a maioria dos manifestantes, o que se repete em outras capitais como Vitória-ES e Goiânia-GO.

Manifestações convocadas pelas redes sociais contra o congelamento por 20 anos dos recursos do orçamento federal, sobretudo para saúde e educação.

Um “retrocesso grave”, conforme a presidenta legítima deposta, Dilma Roussef. A PEC terremoto, se for aprovada, é uma tragédia a abater-se sobre os ombros da maioria do povo brasileiro.

Ou, na expressão muito feliz do The Intercept Brasil: é a “PEC do Apocalipse”, que “serve lombinho do povo brasileiro aos super-ricos”.

Confira as 10 principais questões que envolve a medida, articuladas pela economista Laura Carvalho, professora da USP; e veja quem paga o pato.

Não obstante, há múltiplas frentes em ação na tentativa de mostrar “quem manda”. Tentativa de manter o povo inerte, acuado, e as forças de esquerda ou progressistas perplexas.

Um eterno e conhecido jogo de culpas que faz tanto mal – com licença e perdão, Gonzaguinha.

Pela manhã, centenas de pessoas fizeram um escudo humano em frente ao prédio onde mora o ex-presidente Lula, em São Bernardo.

Somaram-se a outras que passaram a noite acampadas, em vigília devido a notícias ou rumores de que a República de Curitiba o prenderia até as primeiras horas da segundona.

O risco de prender Lula é ameaça permanente, e útil às forças golpistas – que inclui parte do Judiciário, aliada à antiga oposição, e a militância luxuosa e obscena do PIG.

A ofensiva é tida como apoteose indispensável ao trabalho de destruição do PT e a sua maior liderança, abrindo as portas para a trupe ruim de voto em 2018.

Mas, o efeito bumerangue é uma possibilidade que não se pode descartar. Lula herói e mártir é tudo que eles não precisam.

Há quem avalie que o medo do que pode acontecer, inclusive a repercussão internacional – e não a evidente e “dispensável” falta de provas -, é o freio na sede de sangue dos justiceiros.

Assim como há quem considere a reação popular ante a prisão de Lula, previsível mas que não se pode mensurar, uma oportunidade para intervenções ainda mais totalitárias, Em nome da segurança e paz nacionais.

Filme velho, de quinta. Mas o que não faltam são vivandeiras, tanto no desgoverno, como nos demais poderes.

Luis Nassif escreve no “xadrez” da hora sobre o assunto, que resumo do meu jeito. A lembrar, como faz o autor, que tendências mudam conforme as variáveis.

Aponta vários sinais de “flerte” do desgoverno e do STF com as Forças Armadas em contraposição com a “dispersão das várias forças golpistas”  que guindaram o traíra ao poder – Parlamento, mídia, Judiciário, Ministério Público e empresariado.

Nenhuma delas conseguindo impor-se no furdunço. Muito menos o desgoverno medíocre, descompensado e truculento, conduzido pelo que Nassif define, apropriadamente, como “a camarilha dos 6 (Temer, Cunha, Geddel, Padilha, Moreira Franco e Jucá)”.

Na análise do colega jornalista e blogueiro, fora a ânsia de destruir Lula e o PT – trabalho único e exclusivo da Lava Jato, que chega ao esgotamento -, não há nada que os una. E 2018 os dilacera.

O cenário atual, também de aprofundamento da crise econômica, sinaliza o esgarçamento da, perversa, mas frágil aliança. Sugere disputa intestina com vistas à sucessão do poder civil usurpado.

Tanto mais na hipótese de derrota na aprovação da PEC 241. É para isso que o povo está nas ruas. Por enquanto, sem o movimento sindical, preso às suas dificuldades de calendário, digamos assim.

Pode não parecer, mas há discordância entre os próprios golpistas sobre a eficácia do remédio, na verdade um veneno que seca a raiz. E nenhum pudor em apelar para os coturnos, de novo.

Transcrevo o trecho final do Xadrez das vivandeiras dos quartéis, por Luiz Nassif – clique para ler a íntegra:

(…)

Peça 4 – As possibilidades políticas

Como se percebe fora a aliança contra o inimigo comum – o PT e Lula – não há um grupo hegemônico nem uma pauta capaz de unir os mentores do golpe. Por outro lado, mesmo com o PGR não tomando medidas mais efetivas contra o PSDB e setores aliados do PMDB, há a percepção generalizada da falta de legitimidade de todos esses grupos civis, ainda mais em uma empreitada em que a palavra de ordem foi o combate à corrupção.

O único fator a uni-los seria a perspectiva de perder as eleições de 2018.

Por tudo isso, as perspectivas atuais são as seguintes:

1.     Permanece o risco da prisão de Lula, visando promover agitações populares que justifiquem o endurecimento do regime.

2.     Continua baixa a probabilidade de recuperação da economia, ainda mais com a combinação de ajuste fiscal rigoroso e ritmo lento de queda dos juros.

3.     Há uma probabilidade não desprezível de Temer ser despojado do cargo por conta dos julgamentos do TSE e pela desmoralização contínua de seu governo.

4.     Persistirá a tendência de ampliação da presença dos militares no governo, ao mesmo tempo em que se aprofunda a desmoralização do poder civil.

5.     Mesmo assim, qualquer ampliação da intervenção militar viria como retaguarda para um governo civil.”

 

Fotos: Jornalistas Livres e Mídia Ninja


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