Que a energia da garotada estudantil impregne este País

brasil-2036_opor Sulamita Esteliam

Por que hoje é sexta, vou começar com um poema; não, dois poemas: um falado e gravado em vídeo, outro escrito e impresso na memória. Falam de luta e resistência. Mas um fala de esperança, outro do medo que alimenta o ódio, e do ódio que, simbolicamente, alimenta a esperança.

Nesses tempos de ódio e desfaçatez, resistência e esperança expressam a garra de uma garotada que está a dar exemplo ao Brasil, que se recusa a render-se à letargia, à mediocridade e à dominação.

Já ultrapassam mil o número de escolas ocupadas de Norte a Sul do País, em protesto contra a PEC 241, que tem votação em segundo turno marcada para a segunda-feira, 24, na Câmara; e a reforma do ensino médio, que o governo quer impor goela abaixo, via medida provisória.

São escolas públicas, dentre elas os institutos federais; portanto, meninos e meninas, a maior parte menor de idade, a encher de orgulho – e, naturalmente, preocupação – seus pais e avós.

Mas as universidades também engrossam o coro, e vivem o estado de greve. Algumas já aderem à ocupação.

O poema que você vai ouvir agora, foi declamado na abertura de uma assembleia na Universidade Federal de Minas Gerais, no início da noite desta sexta.

Ocupa os três minutos iniciais do vídeo, reproduzido pelo coletivo Jornalistas Livres, a partir da página do DCE/UFMG :

Mergulhei no túnel do tempo e me transportei para o ano de 1976, num dia de junho, quando uma assembleia no saguão da Fafich/UFMG, ainda no Bairro de Santo Antônio, numa Belo Horizonte que não há mais.

Naquele dia, a leitura de um poema que rabiscara enquanto líderes do DA convocavam a assembleia em sala de aula, ajudou a aprovar a greve. E Euzinha, à essa altura já mãe de um garoto, acabei ingressando no movimento estudantil.

Busquei-o no livro Estação Ferrugem, Vozes 1998, um romance-reportagem de autoria desta velha escriba, que resgata tempos soturnos (págs. 237 e 238):

 

IMPOTÊNCIA

Oh! Meu Deus, que sensação de IMPOTÊNCIA

diante das coisas que a vida e apresenta:

estou viva, estou morta de angústia!

A revolta entra e toma conta de mim.

O que eu posso fazer?!

GRITAR, URRAR, BERRAR mesmo

contra as injustiças,

contra a arbitrariedade,

contra o abuso de poder.

Mas, não!

Tenho quer ser um molusco diante do perigo,

esconder a cabeça ante ao inimigo,

para que ele não a decepe.

Tenho que alimentar o ódio

que eu sinto neste momento;

alimentá-lo como uma criança

que acaba de nascer –

para que ele cresça forte e poderoso!

Para que ele, um dia,

possa me servir de defesa

cotra essa corja desabusada.

O ÓDIO

é a minha única esperança.

Sim…

única esperança e arma

contra um bando de irresponsáveis

que pedem responsabilidade

e distribuem o MEDO

EM NOME DA LEI E DA ORDEM!

 

Nesses tempos de agora – também sombrios, a despeito da aparência de normalidade -, a Democracia foi e continua sendo violentada. O Estado de direito está ferido de morte e a Justiça namora com seus algozes.

Em cenários assim, quando vigora a perplexidade, a articulação e capacidade de mobilização, pacífica e organizada, dessa juventude emociona.

Como diz um amigo, só quem tem mais de 50 anos, alguma memória e um mínimo de sensibilidade não se sente tocado.

A maturidade e propriedade com que expressam o momento e as consequências futuras de medidas como a PEC241 e a MP da reforma do ensino, é um feliz sinal dos tempos. E a contradição é apenas aparente, para quem não percebe o poder da comunicação digital.

Exemplo disso é a fala desse garoto, Luiz Eduardo, durante a Sessão Deliberativa da Câmara Mirim, tradição parlamentar em homenagem ao Dia das Crianças:

Lamentavelmente, as tentativas de intimidar e desmocralizar o legítimo direito de se manifestar e reagir à opressão e à mediocridade não se restringe a bate-paus do MBL.

O próprio desgoverno – que aliás chamou o MBL para dar lições de contra-ofensiva ao #ForaTemer vigente, é símbolo da degradação e desmoralização, a começar pelo menosprezo à Lei Maior.

Quer institucionalizar a dedoduragem. Esta semana, o MEC teve o desplante de determinar que as direções dos IFs apontem os alunos que lideram as ocupações.

A energia da garotada não sucumbe ao arbítrio.

Sorte é que além desse sopro de vitalidade, temos a arte solidária a alimentar nossos sonhos de dignidade, justiça e liberdade.

 

*************

Postagem revista e atualizada dua 23,10.2016, às 18:30h, hora do Recife: correçãode improriedade na informação sobre as escolas ocupadas: a maioria não pode ser de institutos federais, pois eles somam pouco mais de oito dezenas. Com minhas desculpas.

 

 

 

 


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