A ‘Lei de Gerson’ vigora, e quem escapa é mané…

por Sulamita Esteliam

Cheguei há pouco da rua e tenho compromisso agora à noite. Não vou ter tempo para escrever algo que preste. Então, faço minhas as palavras do colega Leonardo Sakamoto, em seu blogue, sobre essa mania nacional de levar vantagem sobre tudo e em qualquer circunstâncias.

Sequer as autoridades se dão ao respeito; aliás, muito antes pelo contrário. E a cara nem queima…

Para variar, as exceções só confirmam a regra.

Quem da minha geração não se lembra da chamada”Lei de Gerson”- aquele jogador bicampeão de 70, que celebrizou num comercial a expressão “gosto de levar vantagem em tudo, certo?”?

 

 

É mais do que o famoso “jeitinho brasileiro”. É escarnecer da ética e da moral em benefício próprio.

Isso também é corrupção. E quem explora essa, digamos, “fragilidade” humana, o corruptor, também o faz se lhe convém e aos seus interesses.

Não importa se para deixar de pagar ou para receber uma corrida de táxi ou Uber, duplamente, por exemplo. O cotidiano está repleto de casos. Lamentavelmente.

Ao texto – a charge eu capturei na página do Renato Aroeira/Facebook, a quem A Tal Mineira agradece, penhoradamente:

geddel

Se até ministro tenta levar vantagem, por que devemos seguir as regras?

Leonardo Sakamoto – Blog do Sakamoto

Qual é a motivação de um cidadão comum, que rala o dia inteiro e não tenta levar vantagem sobre o vizinho, quando lê que um ministro tentou usar seu cargo para liberar a construção do prédio onde ele terá um apartamento de luxo? Ministro que, acusado publicamente, ainda acha tudo a coisa mais normal do mundo, reclamando:

”Deixar cargo por isso? Pelo amor de Deus!”

Em outros lugares do mundo, Geddel Vieira Lima teria caído em desgraça com a Presidência imediatamente. Por aqui, onde o governo atua à luz do dia para rever direitos da população, planejando a retirada de proteções trabalhistas, uma profunda reforma previdenciária e a redução no investimento de serviços públicos essenciais sem a devida discussão, ele é capaz de ganhar uma estrelinha de Temer. Afinal, tem sido o homem certo na hora certa para essas tarefas junto ao Congresso Nacional.

Nas últimas linhas da carta que relata o início da invasão portuguesa a Pindorama, hoje Brasil, a dom Manuel, rei de Portugal, Pero Vaz de Caminha se aproveita do cargo e da oportunidade para pedir um favorzitcho:

“E pois que, senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer cousa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida. A ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da Ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro – o que d’ela receberei em muita mercê. Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro, da vossa Ilha da Vera Cruz.”

Se a graça de levar o genro foi ou não concedida, não faço ideia e nem quero saber. Afinal, Inês é morta, ou melhor, Pero Vaz. Mas Geddel é vivo. Muito vivo.

E o que mais assusta é que ele recebe o aplauso silencioso de muita gente que não vê problemas éticos em usar uma função pública em nome de vantagem pessoal e deseja ser igual a ele quando crescer. Gente que faria o mesmo se tivesse oportunidade.

Isso leva a uma outra questão: a quem pertence o Estado brasileiro e a quem ele serve?

Por que ”manifestantes” são aqueles que fecham avenidas para lutar por algo com o qual os que controlam o Estado concordam e ”baderneiros” são aqueles que fazem o mesmo por algo sobre o eles discordam?

Por que empresas que grilam terras públicas são ”ocupantes irregulares” e grupos de sem-terra que permanecem em fazendas griladas e pedem sua destinação à reforma agrária são ”invasores” para alguns políticos?

Da mesma forma, por que proprietários de imóveis mantidos vazios para a especulação imobiliária que devem o seu preço em IPTU atrasado são ”devedores do poder público”, enquanto os sem-teto que ocupam esses imóveis pedindo sua destinação à moradia popular são ”invasores” na boca de muitos administradores públicos?

Por que rico que deixa de pagar milhões em impostos não é ”ladrão” mas está apenas exercendo seu protesto contra a pesada carga tributária? E ”Ladrão” é pobre que rouba xampu?

Se esse episódio de Geddel – que envolve não apenas o fato em si, mas o cinismo de não provocar ao menos constrangimento nele – passar incólume, não vejo como o Estado terá moralidade de pedir que funcionários públicos dos Três Poderes não tentem se aproveitar do cargo para levar vantagem.

Pelo contrário, agir corretamente será visto com maus olhos pelos chefes picaretas, que perguntarão: ”O que é você? Um mané?”


Um comentário sobre “A ‘Lei de Gerson’ vigora, e quem escapa é mané…

  1. Se faz necessário punição para todos os políticos envolvidos em crimes contra a nação e, a todo custo, trazer de volta tudo que foi saqueado através das transações desonestas. As mordomias absurdas e os salários faraônicos, isto também deve ser revisto. Não é correto não é justo, não fazerem uma análise para colocar tudo no seu devido lugar. As corrupções e as privatizações feitas nesses 50 anos devem ser revistas e se comprovado que houve falcatruas a punição deve vir com efeito retroativo. O Brasil precisa ter governantes honestos, patriotismo acima de tudo, que a justiça também tenha um sério compromisso com a verdade e não dê chance para a impunidade ria de nossa cara. O povo brasileiro está cansado com a falta de sensibilidade dos que poderiam nos proporcionar saúde, educação, segurança… mas é exatamente o que não se vê. O que esperar de uma nação onde os seus governantes querem vida de rei as custas da miséria do povo?

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