Consciência negra, agenda do golpe e Dilma como ela é

“Por que consciência negra e não consciência humana? O pressuposto de que deveríamos deixar de realizar o dia da consciência negra para celebrarmos o dia da consciência humana vem reforçar a premissa de que no Brasil não existe racismo. Constatamos ao longo da história que essa negação do racismo é um dos fatores que impediram a elaboração de políticas públicas mais eficazes. Termos um dia para a reflexão sobre as relações raciais visa reduzir a desigualdade”.  

Célio Jamaica, militante do Hip hop, escritor, professor e atualmente também é diretor de escola Genocídio da juventude negra – no Brasil de Fato

As fotos acima são o retrato nu e cru de como a polícia brasileira, em especial a fluminense, trata os jovens negros e pobres. Foram capturadas na página do coletivo Midia1508 no FB, reproduzidas pelo Jornalistas Livres.

Sou crítica ao sensacionalismo. Mas não se pode calar diante da barbárie, muito menos quando o Estado é o agente de fomento e execução.

A trilha de violência se repete, ano após ano. A cena macabra é fruto do desvario bárbaro com que age sobre a população que habita as favelas do País, cariocas sobretudo. Impunemente.

No domingo, 20, Dia Nacional da Consciência Negra, a população do Complexo Cidade de Deus, encontrou sete corpos executados no Brejo, mata adjacente. Todos jovens e negros. Consta que há mais de 10 desaparecidos.

O Brasil é país campeão mundial de homicídios, e a polícia brasileira a que mais mata no mundo. Em 2012, por exemplo, foram mortas 56 mil pessoas. Mais da metade das vítimas era de jovens negros, e pobres, de 15 a 29 anos: 23 mil 100. Ou 63 por dia. Um a cada 23 minutos.

Um verdadeiro genocídio.

Genocídio alimentado pelo braço armado da mídia venal, manipuladora e inconsequente, na generalização criminosa, no raciocínio de que todo pobre e preto é suspeito de bandidagem e “bandido bom é bandido morto”.

Boa parte dos assassinatos é obra do Estado, os chamados homicídios “legais”, lavrados em autos de resistência inexplicáveis e não investigados.  Dados do relatório final da CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens, concluído em 2016.

Estamos na semana dedicada à Consciência Negra. Ocasião mais do que propícia para se refletir sobre o papel dos afrodescendentes na formação da identidade cultural da nossa gente, de discutir o racismo e a impunidade que alimentam a barbárie como mais essa chacina na periferia carioca.

Os negros formam a maioria da população brasileira. A despeito disso, pretos e pardos, e indígenas e ciganos, ainda sofrem na pele as sequelas de três séculos de escravidão e mais de 500 anos de opressão, omissão e descaso.

A despeito das políticas públicas dos últimos para reduzir a desigualdade e combater o preconceito e o racismo, a gente sabe que o buraco é fundo. Infelizmente, a tendência, doravante, é aprofundar o fosso.

É está na população negra, sobretudo mulheres e jovens, as principais vítimas da violência doméstica, social,  e institucional.

Do estupro, ao homicídio sexista. Da evasão escolar, ao analfabetismo pleno ou funcional. Da violência obstétrica à mortalidade infantil e materna.  Da falta de oportunidades à execução sumária.

Da morte por aborto desassistido à violência homofóbica. Da exploração sexual ao trabalho em condições análogas à escravidão.

Do desemprego às doenças da pobreza; a exemplo dos males do Zica-vírus e suas consequências, dentre as quais a síndrome congênita que leva à microcefalia dos bebês nascidos de mães contaminadas pelo vírus

Escrevi, recentemente, aqui no blogue, que é preciso discutir o racismo e o feminismo: 51% das vítimas de estupro é negra, 70% são crianças e adolescentes, com menos de 13 anos em sua maioria. Números de 2011, coletados pelo Ipea no sistema de saúde.

Mais, em 10 anos, o número de mulheres negras assassinadas aumentou 54% – de  1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. O número de homicídio de mulheres brancas reduziu 9,87% no período. Fala o Mapa da Violência 2015.

Heranças malditas do nosso passado escravagista. E que  tende a se agravar e perpetuar com a retirada do pouco de direitos que se logrou em 14 anos de governos populares.

A ponte mal-enjambrada para o abismo, armada pelo desgoverno do mordomo usurpador. O congelamento de investimentos sociais da PEC 55 em tramitação no Senado Federal e o encolhimento do Bolsa Família, que retirou milhões da pobreza é crime de lesa-humanidade.

A entrega do Pré-Sal ao capital estrangeiro é a renúncia ao patrimônio brasileiro, a riqueza que deveria sustentar a educação. A MP 746, que empobrece o ensino médio, dentre outras medidas da cegueira liberal que está levando o país à bancarrota.

O desemprego galopante, a terceirização sem limites. Tudo para alimentar a sanha rentista.

Estupro coletivo da já violada Constituição Cidadã.

Quem é que vai pagar por isso? O lombo da classe trabalhadora e do povo mais carente da ação do Estado.

Nas palavras da presidenta legítima apeada do poder, em entrevista ao Brasil 247, nesta segunda, direto de Porto alegre: “Venderam gato por lebre.” Compartilho.

O Dia da Consciência Negra preserva a memória da resistência à escravidão, simbolizada em Zumbi dos Palmares e sua mulher Dandara. O Quilombo dos Palmares, encravado na Serra da Barriga, na hoje Alagoas, fundado por seu pai, Ganga Zumba, foi liderado por ele durante 15 anos.

Zumbi morreu degolado pelas forças coloniais em 20 de novembro de 1695, viveu 40 anos. Dandara, que lhe deu três filhos, capturada, suicidou-se um ano antes para não retornar à condição de escrava.

No domingo, milhares e milhares de brasileiros e brasileiras afrodescendentes saíram às ruas do país, em marcha de protestos contra a pilhagem de seus direitos. Mas também em celebração da sua identidade.

E as atividades prosseguem em diferentes estados. Na capital mineira, depois do Cangerê, Festival de Cultura Quilombola, na Praça da Liberdade, o campus Coração Eucarístico da PUC MG, recebe o Festival Africanidade – Conquistar Direitos e Afrontar o Racismo.

De 28 a 30 de novembro, palestras, atividades culturais e exposição de afroempreendedores, organizadas pelo coletivo Enegrecer.

Ocupado desde o dia 04 deste mês, contra a PEC Terremoto, que congela os investimentos sociais, educação e saúde incluídos, até 2036.

Agora, perguntar não ofende: quando é que os trabalhadores, os movimentos sociais, estudantil incluído, vão acordar que vivemos um golpe de Estado, e que a solução está em desmanchá-lo com a anulação da farsa do impeachment?

Mais do que nunca, é preciso que as ruas pressionem quem pode resolver, a Corte Suprema, embora dela se possa esperar pouco ou nada.

E, claro, quem não quer Dilma de volta, deve se dar o benefício do raciocínio: só alguém eleito tem legitimidade para conduzir a pacificação, através de um plebiscito pela reforma política indispensável, e novas eleições gerais, livres e diretas.

A Democracia, no sentido amplo da palavra, agradece.

 

 


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