O Brasil despedaçado

por Sulamita Esteliam

Ando mesmo à flor da pele. Minhas antenas têm me pregado boas peças, e o início da semana, terrível e triste, foi de recolhimento. Devo desculpas a quem acessa este blogue, mas foi impossível administrar.

Vivemos nós, brasileiras e brasileiros de boa vontade, em estado de dor permanente.

É preciso buscar energia no fundo da alma para seguir adiante nas coisas corriqueiras, que dirá pensar… E escrever é pensar.  E como dói…

Que flagelo é esse a que estamos submetidos? O que fizemos para merecê-lo!?

Não bastasse a tragédia que nos oprime desde o 17 de abril e o 31 de agosto.

Um impeachment fraudulento. A democracia violada. Direitos e conquistas jogados na lama.

Uma operação policial-jurídico-midiática, que se propunha ser a redenção moral do país, transformada em inquisição e achaque. Pessoas e reputações enxovalhadas, só aquelas que vêm ao caso.

Ratos engolindo a ratoeira. Parasitas do nosso direito de vir a ser.

O país entregue às garras de predadores, abutres daqui e d’alhures, reconduzido ao seu lugar-quintal.

Um não-lugar. Traduzido com infinita maestria por Renato Aroeira, a cujo talento e generosidade mais uma vez desfruto.

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Poderes se engalfinhando por seu quinhão butim. A República no precipício.

Liberdade sequestrada. A truculência vicejando feito erva daninha.

E toda a gente aparvalhada, devolvida à sua insignificância e/ou incompreensão e/ou impotência.

E nós que pensávamos ter iniciado novos tempos de um Brasil soberano, de um povo de autoestima renovada, redivivo no roçar da dignidade, da cidadania, com direito a ser feliz, para além do Carnaval e do futebol…

Até no futebol estamos sendo punidos!

Não basta a dor do vexame eterno de um 7 x 1 em casa. E com o técnico placidamente sorrindo, com o dedo médio sobre a face direita e o resto da mão segurando o queixo caído, pernas esticadas sobre um tamborete ou sei lá o quê … Jamais me esquecerei dessa imagem.

Vergonha ou desfaçatez?

O aumentativo dissolvido em sua pequenez. Assistiu de camarote ao bando de tontos descompensados, que trombava na bola e entre si no gramado, incapaz de reagir à lavada que se anunciava… e se confirmou.

A dor de agora é a dor que não tem volta: 71 vidas, boa parte delas de jovens talentosos – nos campos, nos bastidores, no reportar da alegria e das tristezas que se rolam e se desenrolam com a bola e por causa dela…

Pegaram carona na cauda de um cometa de nome peculiar, e gênero feminino: Chape-coense….

Da série D à final do Sul-Americano em cinco anos.

Tudo que parece sólido se dissolve no ar.

Ao menos se encantaram em estado de euforia.

Êê, êê,  vamos, vamos, vamos Chape…!

Da Colômbia ao Cáucaso, de Chapecó ao Acre, somos todos Chape!

Descansem em paz, rapazes.

Tomo da sensibilidade do querido e também mineiro migrante, Cau Gomez, recém-premiado no 33º Aydin Dögan International Cartoon Competition, em Istambul/Turquia, a homenagem. O vigor no traço desnuda nossa alma despedaçada.

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Postagem revista e atualizada em 02.12.2016, às 8:39 hs, hora de Brasília: correção de erros de pontuação e de ortografia nos parágrafos 19 e 20. Minhas desculpas.

 


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