Teori deixa a Lava Jato orfã da possibilidade de equilíbrio

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Teori Zavascki: serenidade dos que se pautam na letra da lei – Foto: José Cruz/AgBR
por Sulamita Esteliam

Teorias de conspirações à parte, difícil não duvidar de que tenha sido acidente a queda do avião que matou o ministro do STF e relator da Lava Jato, Teori Zavascki. É muito conveniente.

Além do que, como escreveu Leminski, lembrado por Xico Sá no Twitter: “Tudo que respita/conspira.”

Sim, a despeito do tempo chuvoso e enevoado na região de Parati, Estado do Rio, que historicamente contribui para desastres aéreos.

A lembrar o desaparecimento de Ulysses Guimarães, ali pelas bandas de Angra dos Reis, em 1992. O helicóptero em que o deputado e presidente da Câmara viajava com a mulher Mora e o casal Severo Gomes, rumo a São Paulo, caiu no mar, em meio a uma tempestade. O corpo do senhor Constituinte jamais foi encontrado.

O Brasil pode chorar mais uma perda lastimável, justo quando carecemos tanto de um mínimo de equilíbrio para vislumbrar a esperança. É assim, quando o Universo resolve ir à forra, o buraco parece não ter fundo.

Contudo, somente a investigação rigorosa e indispensável poderá esclarecer o que de fato aconteceu. Ou não.

Afinal não faltam acidentes aéreos não-esclarecidos. Vide o caso Eduardo Campos, e mais seis que o acompanhavam, para ficar na política, e nas suspeitas.

Fato é que as redes sociais ferveram desde a notícia da tragédia, antes mesmo de se confirmar a presença de Teori no vôo, que fazia o percurso São Paulo-Paraty.

Com ele estavam o dono do avião, Carlos Alberto Filgueiras, dono do Hotel Emiliano e amigo de Teori; a fisioterapeuta do ministro e a mãe desta, além do piloto. Todos mortos.

O filho de Zavascki foi quem asseverou, pelo Twitter, que o pai estava no avião, e também foi ele quem pouco depois confirmou sua morte, nesta quinta-feira.

A aeronave, um bimotor com capacidade para oito pessoas, caiu pouco depois das 13:00 horas, mas a confirmação da morte só se deu bem depois das 15:30 horas.

Partiu de Francisco Prehn Zavascki, igualmente, em maio deste ano, o alerta para as consequências que poderiam vir das ameaças que o pai sofria, virtuais e à porta de casa.

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conjuto-da-obra-de-medeiros-mtCurioso é que, um pouco antes da confirmação do acidente, por volta das 15:40 horas senador José Medeiros, do PSD do Mato Grosso, postou em seu Twitter uma mensagem emblemática, e que revelou-se, no mínimo, de muito mau gosto. Ironizava que “não daria o furo” porque não é jornalista, mas antecipava a manchete do “Jornal Nacional hj, envolvendo STF”.

Depois quando bombou nas redes sociais o questionamento da “premonição”, por assim dizer, fez o que costumam fazer os incautos: jogou a culpa nos adversários.

Zavascki é reconhecido por sua rigidez ética e jurídica. Nomeado pela presidenta Dilma em 2012, estava prestes a decidir sobre 77 delações de executivos da Odebrecht, no âmbito da operação mais rumorosa que se viu nestas plagas. E ao que tudo indica numa única direção: defenestrar Dilma, Lula e o PT da arena política.

Em parte pelos desvios e excessos, que o próprio Teori teve que conter mais de uma vez, alguma coisa saiu fora da ordem. A despeito da consolidação do golpe de Estado, em grande parte alimentado pela necessidade de barrar a Lava Jato.

O tiro, agora, parecia tender a sair pela culatra.

Duas centenas de políticos bem postos na república golpista estariam envolvidos com benefícios ilícitos – em proveito próprio e em prejuízo dos cofres públicos, a maioria tucana e peemedebista.

Por óbvio, nenhum deles é Lula ou Dilma.

Consta que 43 das denúncias envolveriam ninguém menos que o usurpador geral da nação, o atual ocupante do Palácio do Planalto e ao menos um terço do seu ministério, do PMDB e que tais. Além deles, estariam na lista o inconformado candidato derrotado por Dilma, Aécio Neves e seus correligionários José Serra, Aluízio Nunes, dentre vários;

Como se sabe disso?

Ora, furos nos dutos da república de Curitiba, pródiga em vazamentos direcionados para a mídia venal, não contidos por quem deveria, a Procuradoria Geral da República. Seu titular, aliás, foi a Davos apregoar que a Lava Jato faz bem ao mercado, conforme A Tal Mineira publicou ainda ontem.

Enquanto concentrados no pessoal do PT, alvo-mor da operação político-policial-jurídico-midiática, tudo bem. Mas o que inicialmente cheirava a diversionismo – ceder alguns anéis para não perder os dedos – ao que tudo indica desmantelou de vez.

Teori Zavaski antecipara o retorno das férias para adiantar os processos. E sinalizara para o início de fevereiro o levantamento do segredo de Justiça, regime avocado por ele na tentativa de tapar os furos premeditados.

Agora a questão é quem vai colocar o guizo no pescoço do gato. Ou os principais interessados se locupletam.

Pela lógica regimental do STF, o sucessor de Teori Zavascki herda seu espólio. E quem indica é o presidente da República, um senhor que, além de golpista, é denunciado no processo que seu indicado pode vir a julgar.

Há outras possibilidades. Uma delas é que a presidente (vamos respeitar sua ojeriza ao “a” que indica gênero) Carmen Lúcia determinar a redistribuição dos processos que envolvam réus em regime de prisão, como é o caso da Lava Jato.

Gilmar Mendes, quando presidiu o STF, o fez, por ocasião do falecimento do ministro Carlos Alberto Menezes Direito, em setembro de 2009. O que fará a ministra Carmen Lúcia? Ela que vive a confabular com o mordomo que ocupa o outro lado da Praça dos Três Poderes?

Outra hipótese, defendida pelo ministro Marco Aurélio Mello, é o sorteio dos processos entre os membros da Segunda Turma, até então presidida por Zavascki. Neste caso, os herdeiros seriam: Celso Mello, Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes.

Há quem veja chance, entretanto, de o processo da Lava Jato vir a cair nas mãos do decano Celso Mello, vice-presidente da Segunda Turma.

A ver…

Fecho com o texto-homenagem do ex-ministro da Justiça de Dilma, e vice-procurador da República, Eugênio Aragão, a Teori Zavascki, publicado no Conversa Afiada. Como ele, me solidarizo com os filhos – ficou viúvo em 2013 – toda a família e os amigos. Força e consolo.

Saudades de Teori Zavascki.

Ele era um Juiz, com “J” maiúsculo. Dele nunca se ouviu um pio sobre causas julgadas ou por julgar. Só se manifestava nos autos e tinha uma disciplina extraordinária. Era metódico e quando entrava em sessão, já conhecia pormenorizadamente a pauta de julgamento. Ninguém o iludia. Olhava atrás das linhas escritas, de cada palavra.

Mas sua maior virtude era o ser humano, a alma doce e amiga que morava nele. Incapaz de ofender, incapaz de se exaltar. Tratava todos e todas com distinção. Respeitava seus semelhantes e por seus semelhantes era respeitado.

Dizem que ninguém é insubstituível. De fato, não o somos por uma fatalidade: todos vamos um dia e o mundo continua. Mas Isso não pode valer para os que tornam o mundo mais pobre sem sua presença entre nós. Teori era e continua insubstituível, principalmente nestes tempos de decadência de hábitos da vida publica e de deterioração da cultura política e institucional. O Brasil precisa chorar seu passamento e choro com ele.

– Eugênio Aragão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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