A hora de falar e a hora de calar-se

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Foto: Ricardo Stuckert
por Sulamita Esteliam

Vou pular a segunda-feira típica de tempos golpistas neste triste País.

Volto ao sábado, 4 e a São Bernardo do Campo, no ABC paulista.

Ali, na despedida pública do amor da sua vida, mãe de seus filhos e sua consciência crítica, pós-ato ecumênico – que reuniu padres, bispos e uma mãe de santo -, um Lula entre soluços disse que dona Marisa Letícia “morreu triste”.

E prometeu à companheira de toda uma vida, que não descansará enquanto”os facínoras” responsáveis pelas acusações torpes, que a levaram à doença e morte, “pedirem desculpas”.

Sim, foi uma fala política. A vida é política.

E o gatilho que acelerou a eclosão do aneurisma de Marisa Letícia, o AVC hemorrágico, foi político.

E seus algozes, estão no poder, vergonhosa e impunemente.

Sou daquelas que creem que a morte tem hora para acontecer. A gente fica triste, chora, se deprime, se revolta, cobra responsabilidades, mas ninguém vai de véspera.

Nascemos com prazo de validade, só não vimos com etiqueta, caro Lula. Palavra da minha irmã filósofa, a Lili.

Adotei a máxima, pois concordo plenamente. O que não me exime de sofrer com as perdas de pessoas queridas, familiares ou não, ou mesmo fora do meu círculo de convivência.

Quando a morte chega sob o manto da injustiça, da tragédia, da barbárie ou do descompasso da própria vida, tantas vezes tão breves, então… é dor que dilacera.

Lidar com situações desta natureza é questão de se colocar no lugar do outro. Diante da morte, que não compreendemos, como diz o filósofo em voga, este de carteirinha, Leandro Kamal, “se não tiver nada solidário para dizer, cale a boca”.

E cuidado para não engasgar com a hóstia ou com o próprio veneno ao gritar, “em nome de Jesus”.

A gente quer os que ama sempre ao nosso lado, mesmo que a vida trabalhe contra. Como é o caso de mães e pais trabalhadores, que só têm tempo para os filhos no fim de semana, quando têm. A luta pela sobrevivência é renhida.

Como é o caso da atividade de Lula, sindicalista e político; ele como tantos outros e outras.

Lula não esteve presente no nascimento de nenhum dos três filhos que teve com Marisa Letícia. Ela pariu e os criou sozinha. Pai fruta rara, cuidava de “estragar”, ou “relaxar” nos raros momentos de convívio familiar, porque, senão, como os filhos entenderiam que ele era parte do imbróglio!?

Ocorreu com Marisa e Lula o que costuma ser padrão nos casamentos: as mulheres assumem as crias, quase sempre sozinhas, ainda que tenham profissão ou atividade extra-lar. As exceções são cada vez menos raras, mas ainda são exceções.

Com o agravante, no caso de Marisa, de ter que explicar aos filhos que o pai não era esse sapo barbudo que a TV e os jornais apresentavam como bandido. E que comunistas não comiam criancinhas , e greve não era coisa de arruaceiros, e  toda aquela luta é para que todos pudessem viver melhor.

Lula contou parte dessa história na fala que encerrou o velório público no salão do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde se conheceram, se casaram, militaram juntos e criaram o maior partido de esquerda da América Latina. Voltou a fazer o “mea culpa”, que vez por outra fazia sempre que se referia à Marisa.

Os dois se entendiam.  Jamais viveram para si. A casa deles sempre foi uma casa coletiva, como testemunham todos que partilharam da vida do casal.

Uma parceria de 43 anos, com desfecho triste. Mas que trouxe muitas alegrias para si e para muita gente neste País.

Como não falar de política na despedida de sua mulher? A vida de Lula e Marisa Letícia foi política, desde sempre.

Além de esposa, mãe, pai, avó e avô, amante, militante, administradora, costureira, cozinheira, relações públicas, secretária, Marisa Letícia era o grilo falante de Luiz Inácio Lula da Silva.

“Sem Marisa, eu não teria conseguido. Ela parecia frágil, mas era muito forte.”

Lula disse que tem sorte em acreditar em Deus, o que o ajuda a aceitar as provações, e apesar de reafirmar sua crença de que ainda vai viver muito  –  para desespero de seus perseguidores – Marisa Letícia permanece viva em seu coração:

“Vou me lembrar dela todos os dias. E quando eu morrer, quero me encontrar com ela do outro lado.”

 

Deixo a íntegra do discurso do Lula, com os votos de que ele siga a recomendação do bispo Emérito de Blumenau, Dom Angélico Bernadino, e procure descansar bastante. Temos muito trabalho pela frente.

Fé, esperança e determinação. Amor. Forças que podem mover o mundo.

E já que falamos em filosofia, compartilho a reflexão de Wilson Gomes, doutor na matéria e professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, no Faceboo. Tive acesso via Tijolaço, do incansável Fernando Brito, de quem sou fã sem disfarces:

‘Pobre tem que sofrer calado’

por Wilson Gomes – no Facebook

Primeiro apareceram os que acusaram Lula de pecado futuro: vai usar a morte da esposa para se fazer de vítima. Acusar alguém de pecados ainda não cometidos é uma tentativa de fechar ao acusado uma alternativa, de desqualificá-la de antemão: “vai doer, mas chorar você não pode; tente, então, ficar quietinho”. “Fazer-se de vítima” é uma dessas expressões curiosas da alma brasileira, vez que quem acusa o interlocutor de se fazer de vítima geralmente está fazendo o papel de verdugo. O carrasco está barbarizando, mas, por favor, tenha compostura, “não se faça de vítima”.

Depois apareceram as condenações pelo “uso político do velório”. Como pode um sindicalista e político enterrar a própria esposa com um coração de político e sindicalista? Tinha que ter havido discrição, silêncio. Como pode um sujeito enterrar a sua companheira de vida, cuja morte foi, no mínimo, acelerada pelo desgosto e por acusações que, segundo ele, são injustas, berrando, esperneando, acusando? Não, o certo era ficar quietinho ou, se fosse mesmo para fazer drama, que se cobrisse de cinzas, batesse no peito, em lágrimas, e gritasse “mea culpa, mea maxima culpa!“.

Fosse apenas questão de ser sommelier do luto alheio, até me pareceria razoável. Afinal, o Facebook é principalmente uma comunidade de tias velhas desaprovando as saias curtas e os comportamentos assanhados dos outros. Mas, é mais que isso. Pode haver um aluvião público de insultos, augúrios de morte e dor, e difamação à sua esposa, durante duas semanas, mas Lula não pode mostrar-se ultrajado ou ofendido, não pode desabafar do jeito que pode e sabe, não pode espernear. Em vez do “j’accuse“, o certo seria a aceitação bovina do garrote, da dor, da perda. Em vez do sindicalista e político, em um ambiente privado do sindicato, velando entre amigos a mãe dos seus filhos, havia de ser um moço composto e calado. Todo mundo tem direito de velar os seus mortos como pode e sabe, exceto Lula.

Uma parte da sociedade brasileira nunca se cansa de mostrar a Lula o seu lugar. E de reclamar, histérica, quando ele, impertinente, não faz o que ela quer. Tem sido assim. Lula já foi insultado de analfabeto, nordestino, cachaceiro, ignorante e aleijado, muito antes de ser chamado de corrupto e criminoso. A cada doutorado honoris causa de Lula choviam ofensas e impropérios porque ele não tinha todos os dedos, porque era uma apedeuta, porque era um peão. Qualquer motivo para odiá-lo sempre foi bom o bastante para uma parte da sociedade.
Agora, estamos autorizados a odiá-lo por mais uma razão: o modo como acompanhou a agonia e como velou sua companheira. Que os cultivados me perdoem a analogia, mas isso me lembra a acusação feita em O Estrangeiro, de Albert Camus, ao sujeito que não conseguiu chorar e sofrer, como aos demais parecia conveniente e apropriado, no funeral da própria mãe: “J’accuse cet homme d’avoir enterré sa mère avec un cœur de criminel”. “Eu acuso este homem de ter enterrado a sua mãe com um coração de criminoso”.

No surrealismo da narrativa política brasileira, a história se repete: Lula deve ser desprezado porque enterrou a esposa com um coração de político e sindicalista e isso não está direito.

Voilà. Lula nunca vai aprender o seu lugar.

 

 

São os meus sinceros votos.


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