Pela vida e pela dignidade, as mulheres param no 8 de março

por Sulamita Esteliam

Não sei quanto a você, mulher, que honra este blogue com seu acesso, mas Euzinha, que é o outro nome de A Tal Mineira, vou me juntar às mulheres que, no mundo todo, e nos sete cantos do Brasil, vão cruzar os braços neste 8 de Março.

Significa que no Dia 08 Internacional das Mulheres, não haverá postagem por aqui.

E já avisei aos navegantes familiares, o pequeno núcleo que divide comigo o lar sacrossanto, que a dona Maria, que é meu alter ego, também vai parar. Portanto, quem quiser comer, beber e que tais, é bom se virar.

Ah, sei, você acha que “isso é coisa de feminista”, não postura de “mulher normal”.

Além do mais, você tem mais o que fazer, e está muito satisfeita em ganhar 70% do que o colega homem que faz o mesmo que você e, muitas vezes, com menos empenho.

Também já está acostumada à sua dupla ou tripla jornada, que a obriga a ralar mais sete horas por dia do que o homem. Afinal, liberdade tem seu preço! Quem mandou querer trabalhar fora de casa e meter-se a independente?

Mas já que entrou na labuta das chefes de quase 40% das famílias brasileiras, que tal pensar que você só vai poder se aposentar aos 65 anos? Imagina que sua filha vai ter que trabalhar 49 anos para chegar lá, e sua neta pode nem vir a ter esse direito.

Duvido que, como leitora deste blogue, você se enquadre no epíteto, “bela, recatada e do lar”.

Ainda que seja, você considera que seu trabalho é “obrigação”, desde que o mundo é mundo, e que por isso deve ater-se à invisibilidade da insignificância e do não-reconhecimento?

Você certamente não se informa, somente, pela mídia venal e golpista, ou não navegaria por aqui.

Sabe, portanto, que o aprofundamento da crise econômica, nacional e internacional, coloca em risco direitos das pessoas, sobretudo das mais necessitadas. Direitos duramente conquistados, sobretudo das mulheres.

O avanço das forças conservadoras nos tem no centro da mira. E por quê? Porque cham que somos a parte mais frágil deste cabo de guerra.

Porque teimam em nos considerar como objetos de posse. É isso que nós feministas chamados de “herança do machismo patriarcal”.

No entanto, nós mulheres somos metade, não do homem, mas da população, da força de trabalho; e somos maioria em determinados ramos da produção – como educação, saúde e serviços. E também somos maioria nas universidades.

E parimos a outra metade. E parir é, sim, um direito sagrado, não um dever. Temos escolha, e esse é um direito que deveria ser sagrado, também, porque o corpo é nosso, de cada uma.

Se nos juntarmos, paramos o país, os países, o Planeta. Se nos espalharmos, ninguém nos junta.

Por outro lado, você diria que é exagero 85% das mulheres do país temerem ser alvo de violência sexual, por exemplo?

E o que dizer da violência doméstica – que, inclui, sim, estupro da mulher pelo marido -, que campeia, e que leva ao túmulo milhares de mulheres a cada ano?

No Brasil, a média é de 405 agressões por dia, segundo o Mapa da Violência.

São 13 mulheres assassinadas por dia no País, uma a cada duas horas.

Sem contar as mulheres que sucumbem ante ao aborto clandestino, portanto inseguro, o que não deixa de ser homicídio, institucional. São um milhão que interrompem a gravidez, todo ano. A cada dois dias, morre uma.

Claro que violência doméstica e institucional não é prerrogativa brasileira.

Mas, em Minas Gerais, por exemplo, onde estão fincadas minhas raízes, a cada hora, 14 mulheres são agredidas pelo marido ou companheiro. Terra da cordialidade…

E em Pernambuco, onde resido, a média aponta cinco mulheres alvos de algum tipo de agressão a cada hora. São cinco as estupradas a cada dia no estado – números que não levam em conta a subnotificação. Dados das secretarias de Defesa Social e da Mulher, relativos a 2016.

Não obstante, você diria que é normal que uma mulher seja assediada, violentada, desrespeitada, usada e jogada fora, pelo simples fato de ser mulher? Pior, pelo fato de ser mulher, pobre e negra em sua maioria?

É por tudo isso que mulheres de 49 países vão parar neste 8 de Março, numa ação articulada como poucas vezes se viu no mundo.

No Brasil, a mulherada que se organiza em diferentes movimentos, e aquelas que querem e podem, vão para as ruas. Há atos públicos e manifestações confirmadas em capitais brasileiras e outras cidades (exemplos ao lado).

Confira onde encontrar sua turma aqui, no sítio oficial do 8MBrasil.

Por algum motivo, o ato unificado de BH consta do mapa, mas não está relacionado neste rol.

No Facebook, alguém questionou e a organização do 8MBrasil explicou que “não houve adesão oficial”. Um cochilo, talvez. Mas o ato acontece na Praça da Liberdade, de 10:30 às 23 horas, conforme mídia ao lado.

No Recife, a concentração se dá na Praça 13 de Maio, às 14:30 horas. A caminhada sai pela Av. Conde da Boa Vista em direção à Praça do Derby, corrijo – com ajuda dá amiga Ana Freire -, às 16:30 horas.

As organizadoras sabem das dificuldades das brasileiras, num país sob golpe, que derrubou a primeira e única mulher eleita presidenta da República, também por ser mulher. E que afunda aceleradamente, feito carroça desembestada.

O desemprego grassa, por obra, em grande parte, das trevas golpistas. Nesse contexto, obviamente, há que se ter em conta as mulheres que temem perder o sustento, ou que trabalham em atividades que as impedem de parar um dia.

E há as mulheres que não têm atividade remunerada, ou que estão em casa porque são mães de crianças pequenas, recém-nascidas, doentes, enfim…

Se você se enquadra nessas ou outras restrições, pare suas atividades pelo tempo possível. Se é impossível, há outras formas de se manifestar, sugeridas pelas organizações.

Por exemplo, use roupas ou adereços – no corpo, na casa, no carro -, nas cores do movimento: rosa, lilás, roxo, violeta… Suspenda as compras de quaisquer produtos no dia 08 de março.

Descole um apito e participe do apitaço ao meio dia e trinta minutos (12:30h) do nosso Dia Internacional.

Outra opção, para quem usa o Twitter, é aderir ao tuitaço ao meio dia do  de março. Use as hashtags: #8m #8mbrasil #paradabrasileirademulheres #euparo

Quem está em outras redes sociais pode sinalizar seu perfil com o material disponível no sítio do 8MBrasil. Ou, simplesmente, compartilhar as informações ou fotos sobre a Parada de Mulheres, disponíveis também na página do 8M Brasil no FB.

É Pela Vida das Mulheres! Contra as reformas Trabalhista e Previdenciária

Fora, Temer, golpista!

Compartilho, porque é essencial:

Convocação para a Greve Internacional de Mulheres no Brasil – 8 de março

(Texto traduzido e adaptado à realidade brasileira a partir da convocatória feita pelo movimento argentino #NiUnaMenos)

Neste 08 de março, a terra treme. As mulheres do mundo nos unimos e organizamos uma medida de força e um grito comum: Greve Internacional de Mulheres. Nós paramos. Fazemos greve, nos organizamos e nos encontramos entre nós. Colocamos em prática o mundo no qual queremos viver.

#NósParamos

Paramos para denunciar:

Que o capital explora nossas economias informais, precárias e intermitentes.

Que os Estados nacionais e o mercado nos exploram quando nos endividam.

Que os Estados criminalizam nossos movimentos migratórios.

Que recebemos menos que os homens e que a diferença salarial chega, em média, a 26% na América Latina.

Que não é reconhecido que as tarefas domésticas e de cuidado são trabalhos não remunerados e adicionam três horas a nossas jornadas laborais.

Que estas violências econômicas aumentam nossa vulnerabilidade diante da violência machista, cujo extremo mais brutal são os feminicídios.

Paramos para reivindicar o direito ao aborto livre e para que não se obrigue nenhuma menina a enfrentar a maternidade.

Paramos para visibilizar o fato de que, enquanto tarefas de cuidado não sejam uma responsabilidade de toda a sociedade, nos vemos obrigadas a reproduzir a exploração classista e colonial entre mulheres. Para ir ao trabalho, dependemos de outras mulheres. Para migrar, dependemos de outras mulheres.

Paramos para valorizar o trabalho invisível que fazemos, que constrói redes de apoio e estratégias vitais em contextos difíceis e de crise.

#NãoEstamosTodas
Paramos porque estão ausentes as vítimas de feminicídio, vozes apagadas violentamente ao ritmo assustador de treze (13) por dia só no Brasil.

Estão ausentes lésbicas e travestis assassinadas por crimes de ódio.

Estão ausentes as presas políticas, as perseguidas e as assassinadas em nosso território latino-americano para defender a terra e seus recursos.

Estão ausentes as mulheres presas devido a delitos menores que criminalizam as formas de sobrevivência, enquanto os crimes corporativos e o tráfico de drogas permanecem impunes porque beneficiam o capital.

Estão ausentes as mortas e as presas por abortos inseguros.

Diante de lares que se tornam um verdadeiro inferno, nós nos organizamos para nos defendermos e cuidarmos umas das outras.

Diante do crime machista e da pedagogia da crueldade, diante da tentativa dos meios de comunicação de nos vitimizar e de nos aterrorizar, fazemos do luto individual um consolo coletivo e da raiva, uma luta compartilhada.

Contra a crueldade, mais feminismo.

#NósNosOrganizamos
Nós usamos a estratégia da greve porque nossas demandas são urgentes. Fazemos da greve de mulheres uma medida ampla e atualizada, capaz de abrigar a empregadas e desempregados, a assalariadas e as que cobram subsídios, a autônomas e estudantes, porque todas somos trabalhadoras. Nós paramos.

Nós nos organizamos contra o confinamento doméstico, contra a maternidade compulsória e contra a competição entre as mulheres, práticas impulsionadas pelo mercado e pelo modelo de família patriarcal.

Nós nos organizamos em todas as parte: nas casas, nas ruas, no trabalho, nas escolas, nas feiras, nos bairros. A força do nosso movimento está nos laços que criamos entre nós.

Nós nos organizamos para mudar tudo isso.

#InternacionalFeminista
Nós tecemos um novo internacionalismo. A partir das situações concretas em que estamos, nós interpretamos a conjuntura.

Vemos que, diante do avanço neo-conservador na região e no mundo, o movimento das mulheres emerge como potência de alternativa.

Que a nova “caça às bruxas”, que agora persegue o que nomeia como “ideologia de gênero”, tenta justamente combater e neutralizar nossa força e quebrar nossa vontade.

Diante das múltiplas desapropriações, das expropriações e das guerras contemporâneas que têm a terra e os corpos das mulheres como territórios favoritos de conquista, nós nos incorporamos política e espiritualmente.

#ODesejoNosMove
Porque #VivasELivresNosQueremos, nos arriscamos em alianças incomuns.

Porque nos apropriamos do tempo e construímos juntas a disponibilidade. Fazemos da nossa reunião um alívio e uma conversa entre aliadas; das assembleias, manifestações; das manifestações, uma festa; e da festa, um futuro em comum.

Porque #EstamosJuntas, este 8 de março é o primeiro dia de nossa nova vida.

Porque #ODesejoNosMove, 2017 é o momento da nossa revolução.

#NiUnaMenos
#VivaNosQueremos
#EuParo #ParadaBrasileiraDeMulheres #8MBR

*******

Postagem revista e atualizada às 14:16 horas: correção do horário de saída dá Marcha das Mulheres no Recife.

 


3 comentários sobre “Pela vida e pela dignidade, as mulheres param no 8 de março

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s