A economia e a misoginia explícita na fraude que derrubou Dilma

A presidenta Dilma em visita ao condomínio João Cândido, Taboão da Serra, SP
A Presidenta Dilma Rousseff em ato de defesa do Minha Casa Minha Vida e contra o golpe, no condomínio João Cândido, Taboão da Serra, SP, em julho de 2016 – Foto: Roberto Stuckert Filho/PR
por Sulamita Esteliam

Alguém, em sã consciência, pode ter dúvidas de que a deposição fraudulenta da primeira mulher eleita e reeleita presidenta da República no Brasil, foi a consumação, também, de um ato de misoginia?

Melhor, como tão bem definiu a filósofa e escritora, Márcia Tiburi, em cerimônia que reuniu mulheres em torno de Dilma Rousseff, no Palácio do Planaldo, ano passado: foi um estupro.

Um estupro coletivo, eu acrescentaria.

Violada, em primeiro lugar, a democracia. Rasgaram a Constituição, ao forjar um crime de responsabilidade, que não houve, contra uma presidenta honesta. Urdiram para jogar na lata do lixo a vontade popular traduzida em 54,5 milhões de votos.

E para quê? Para colocar no lugar uma camarilha, enrolada até o último fio de cabelo nas lambanças “investigadas “pela Lava Jato.

E os fatos estão aí para não nos deixar mentir ou alimentar ilusões. É tudo mentira.

No primeiro Dia Internacional da Mulher pós-corporificação do golpe de Estado que cassou o mandato da presidenta legítima,  é preciso não esquecer os números da economia e o caos que traduzem e prenunciam.

Claramente, ao recorrer à memória, vem à tona o quanto de machismo e de falácia moveram a fraude do impeachment de Dilma Rousseff como antídoto para a crise econômica, mundial – agravada por equívocos internos, há que se reconhecer -, que instalava-se no País.

Um trecho que capturei em matéria do ViOMundo sobre o encolhimento da economia brasileira no ano passado, em comparação a 2015, prova que deu xabu.

A produção de riquezas ou PIB caiu 3,6% e a taxa de investimentos do setor privado em 10,5%. Dados do IBGE, ora divulgados.

Então, recuemos um tiquinho no tempo.

O Brasil vivia o achaque das forças político-empresariais sobre o governo Dilma, sob o olhar complacente da Suprema Corte. As ruas em disputa.

De um lado, os movimentos financiados pela direita, os paneleiros das varandas gourmets – agora sob retumbante silêncio -, e os manobrados de plantão; aqueles milhões Cunhas trajados com a camisa da CBF. Tudo devidamente açulado pela mídia venal.

De outro os movimentos sociais e outras forças da esquerda, que custaram a acordar, mas que passaram a reunir milhares, e que defendiam a democracia e, mesmo com reticências, o mandato de Dilma.  Sabedores de que eram os pescoços da gente trabalhadora que estava no cepo.

É nesse contexto que a BBC Brasil entrevista o dono da Riachuelo, Fulano Rocha, empresário entusiasta do golpe, um dentre centenas:

BBC Brasil – O mercado financeiro parece animado com a possibilidade de uma saída da atual presidente. Como empresário do varejo, que efeito acha que isso teria nos investimentos na economia real?

Rocha – Seria instantâneo. Bastaria uma troca da sinalização. É o que está acontecendo na Argentina. Não precisou de dez dias para a criação de um círculo virtuoso. A partir do momento que você sinaliza que está entrando em campo um governo que entende as delicadas engrenagens do livre mercado e vai colocar a sua sabedoria a favor do desenvolvimento, o fluxo de investimentos se reestabelece e a confiança desabrocha.

Pronto. O resultado está aí, a mostrar que é ilusória a pílula dourada vendida pelo desgoverno e seus acólitos na mídia. A economia real caminha na contramão.

Afora o desmanche das políticas públicas e do patrimônio nacional, e o escárnio dos estafetas em postos de comando: 12 milhões e meio de desempregados, a maioria, mulheres.

No município de Fronteiras, no interior do Piauí, por exemplo, todos os 500 trabalhadores de uma fábrica de cimento hidráulico foram demitidos com o fechamento da unidade esta semana.

No Rio, conta Fernando Brito, também no Tijolaço, uma empreiteira chamou os clientes e avisou que aquele sonhado apartamento classe média se dissolveu. Não há recursos para investir. O dinheiro da entrada foi devolvido, ainda bem.

O Brasil vai descendo a ladeira, aceleradamente, e isso é muito triste, mas previsível.

A análise dos números do IBGE mostram queda acentuada no ritmo da atividade nos dois últimos trimestres, exatamente o início do desgoverno do mordomo e a quadrilha que tomaram de assalto o poder.

Ah, diz o desgoverno, é reflexo da gestão Dilma Rousseff. Não é verdade.

O que há é a colheira do que plantaram. Para além de erros do governo Dilma, a crise econômico-financeira foi gestada pela crise política, pelo boicote e pela desestabilização do governo.

A estratégia carecia fabricar opinião pública favorável ao afastamento de uma mulher que se recusava a fazer o jogo das forças brutas. As mesmas que perderam a eleição, ou botaram as fichas nos perdedores. Partiram para a canelada.

No sítio Vermelho, reportagem traz avaliação de um especialista em orçamento e políticas públicas, o assessor técnico da Câmara dos Deputados, Flávio Tonelli Vaz. Ele vai direto ao ponto: o resultado do PIB reflete a falácia de que o impeachment seria a solução para a crise e a incapacidade de Temer para retomar o crescimento.

“Esse é o PIB do golpe. O golpe não se deu só com o impeachment. O golpe começa com toda a articulação econômica, com apoio da mídia, para produzir a crise política. Esse é o PIB da crise, não da Dilma.”

Não posso deixar passar batido duas notícias da véspera do Dia Internacional da Mulher, dia em que as mulheres brasileiras e do mundo vão parar por pela vida e pela dignidade:

  1. Peixe morre é pela boca. O STF acaba negar recurso e, portanto, transformar em réu por incitação ao estupro e crime de injúria o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ). Há dois anos, esse paladino do golpe e da violência como modus operandi na política, insultou a deputada Maria do Rosário (PT-RS) em plenário. Disse que ela não merecia “ser estuprada”, porque era “feia”.
  2. O material comemorativo do 08 de Março do Senado não pode conter a palavra “feminismo” . É o que denuncia a blogueira feminista Lola Aronovich, do Escreva Lola, Escreva, a partir de informação da própria Assessoria de Imprensa da casa.                                                                                                                                                                                                                                   É mais que censura, é a treva do arbítrio correndo solta, feito mula desembestada.

 

E vamos à greve das Mulheres.

A gente se encontra no dia seguinte.

 

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Postagem revista e atualizada às 23:57: alteração de texto nos parágrafos 8, 15 e 27, para clarear… e correção de erros de digitação e pontuação em diferentes trechos.

 


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