A responsabilidade de ser jornalista e um discurso inspirador

por Sulamita Esteliam

Apesar de o 7 de abril ser Dia do Jornalista, aqui no Brasil, havia escolhido outro tema para tricotar por aqui. Ficaria restrita à postagem que fiz nas redes sociais, uma síntese do meu sentimento sobre a profissão que escolhi na infância, aos 9 anos, e que me deu alegrias e frustrações.

Escrevi: “A profissão degradou-se, mas resiste. A prática é cada vez mais desvirtuada, mas há contrapontos de dignidade. Parabéns a tds @s colegas que amam e honram a responsabilidade de ser jornalista”.

Aí, a navegação cotidiana me levou ao texto que reproduzo mas abaixo, do amigo Gilson Caroni Filho, professor e articulista, dos bons, na blogosfera alternativa. Capturei no blogue Quem Tem Medo da Democracia?, da coleguinha de nova geração, Ana Helena Tavares, jornalista, ativista e também escritora, profissional de grande valor.

Conheço nenhum dos dois pessoalmente. Há tempos, porém, trocamos figurinhas aqui pelo ambiente digital, o que nos levou a desenvolver boa camaradagem.

Trata-se do discurso de paraninfo de uma turma de Jornalismo na Facha-Rio, onde Gilson leciona Sociologia e Cultura, há poucos dias, no final de março. Suas palavras me levaram a refletir sobre o significado da minha própria opção.

Quase 40 anos após o bacharelado – sou da turma de 1979 da Fafich/UFMG -, digo que cada vez mais tenho certeza de que fiz a escolha certa. A despeito de, nos últimos tempos e em determinadas circunstâncias, chegar a ter vergonha de ser jornalista.

Trilhei caminhos diversos, labutei em diferentes lados do balcão, do sudeste ao nordeste, passando pelo Distrito Federal.

Estive repórter e editora de impresso, jornal e revista; produtora, repórter e editora de TV;  produtora, repórter, cronista e apresentadora no rádio, ainda que brevemente. Migrei para assessora de imprensa e de comunicação – de políticos, do poder público, de movimentos sociais – sindical, associativos, populares.

Sempre procurei servir o direito à informação, à cidadania. Sou das antigas: Jornalismo para mim é missão.

Por isso, jamais aluguei a pena, tampouco camuflei minha posição no espectro ideológico. Quase sempre pedi demissão. Algumas vezes escolhi ser demitida. Quando fica impraticável, a gente pega o boné e usa a serventia da casa.

Não dos meus dois últimos empregos. Num, fui dispensada por fazer Jornalismo, contrário aos interesses do poder reinante. Noutro, assessora por mais de uma década, tive a cabeça ceifada por motivos políticos.

Aposentei-me antes da última demissão. E continuo na lida cotidiana neste blogue. Trabalho voluntário de contra-informação, essencial em tempos de jornalismo de guerra e golpismo sem trégua.

O A Tal Mineira é meu território de liberdade, e mantém minha sanidade mental.

Naturalmente, pretendo contribuir para a reflexão sobre a realidade diversa aqui e alhures, a humanidade e nosso papel neste Planeta.

Para sobreviver, inteirar os caraminguás da aposentadoria, presto serviços eventuais de assessoria/consultoria, desde que não me impeçam de dormir em paz com a minha consciência.

Digo, porém, que não se está jornalista. Ser jornalista é estado permanente.

Confesso, temo pelo destino de quem opta por esta profissão, e não incentivo a escolha – muito menos dentre a minha vasta prole. Todavia, aplaudo jovens que, conscientes do desafio e da responsabilidade social que encerra, sigam por essa vereda.

Que o Universo seja bom cúmplice de seus bons desejos, de seus passos e suas ações pertinentes.

 

Ao texto inspirador*:

Discurso de Paraninfo do Curso de Jornalismo das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha) – Turma 2016.2

Prezados colegas que compõem a mesa, prezados formandos, familiares e amigos aqui presentes.

Uma formatura é sempre um momento especial. Nele rememoramos o que foi o convívio acadêmico, o aprendizado de saberes fundamentais (teóricos e práticos) para o bom exercício do jornalismo e o quanto lutamos para estarmos aqui, neste 29 de março de 2017, com a sensação de missão cumprida.

Meus queridos alunos, em toda solenidade como esta eu me emociono. Não só pela homenagem em si, mas pelo que ela contém: o entrelaçamento de duas histórias: a minha e a de vocês, que começou nas salas, em aulas de Sociologia e de Cultura, Memória e Sociedade, e, acreditem, não vai terminar aqui.

Mas a formatura de hoje é especial. Muito especial mesmo, pois o tempo em suspensão me faz transitar pelo passado e pelo presente.  Há exatos 30 anos, em 1987, eu era paraninfo pela primeira vez.  Continuar sendo homenageado três décadas depois, não me dá apenas a certeza de que trilho o caminho certo. Mas a de que sou predestinado a viver momentos mágicos com pessoas mágicas.

Há nítidas diferenças entre o horizonte e as expectativas daqueles alunos dos anos 1980 e os sonhos e aspirações de vocês. Mas também há muitas semelhanças. Duas formaturas: tão distantes no tempo, tão próximas no afeto.

Na primeira, vivíamos tempos mais esperançosos, com o país se redemocratizando, após uma longa noite de arbítrio, uma Constituição sendo escrita e a certeza de que viveríamos num mundo mais justo, plural e democrático. Ingressar nas redações e emissoras de rádio e televisão, se não era fácil, era bem menos difícil do que é hoje.

O engajamento dos jovens progressistas se dava em partidos de esquerda e movimentos sociais que lutavam (e ainda lutam) contra a concentração de renda, o latifúndio que a tantos mata e a falta de moradia.  O sindicalismo nascido no ABC paulista aparecia como novidade no mundo do trabalho.

Para o jovem dos anos 2000, sem prejuízo dos embates no campo político-econômico, os movimentos identitários adquiriram centralidade. E como são substantivos! No Brasil, uma mulher é estuprada a cada 11 minutos.  Sessenta e três negros são assassinados por dia e as violações de direitos cometidas contra a população LGBT atingem índices inaceitáveis.

Como afirmar que as novas agendas são politicamente menos relevantes do que a de gerações anteriores? É possível uma democracia misógina?  É plausível pensar a questão democrática ignorando que vivemos em uma sociedade fracionada, com fortes resquícios escravocratas? Como falar em liberdade sem abolir os preconceitos heteronormativos? E o que dizer de uma ordem cisnormativa que faz do corpo a prisão do desejo? Nunca subestimemos a vontade de potência desta garotada. Rotulada de individualista, uma boa parte dela luta, combate, nos interstícios do tecido social, pelo aprofundamento da democracia.

Para os que estavam no auditório da ABI, há 30 anos, o objetivo era fazer da imprensa uma ferramenta para a transformação social, para a promoção da cidadania. Era consenso, e isso eu destaquei no discurso de 1987, que só haveria democracia no país se conseguíssemos democratizar os meios de comunicação.

Naquele ano, e no primeiro mês de 1988, o jornalismo brasileiro perdia três nomes importantes: Claudio Abramo, Sandro Moreyra e Henfil . Os dois primeiros eram jornalistas. O terceiro, um cartunista e escritor, que com traços precisos, criou um desenho humorístico político, crítico e satírico, para lutar em diversos jornais e revistas, pelo fim da ditadura, pela anistia política e pelas Diretas Já .

Todos eles tinham um traço em comum: Eram a expressão exata de uma deontologia que não separa o profissional do cidadão. Pelo contrário, reforça, por ação recíproca, as duas dimensões de quem age a descoberto. E é disso que precisamos.

Faço questão de citá-los porque o legado que eles deixaram deve nortear os novos jornalistas. Seria interessante acompanharem o trabalho árduo de Luís Nassif, Luiz Carlos Azenha, Rodrigo Vianna, Marcelo Auler, Paulo Nogueira e Jânio de Freitas, entre outros. São exemplos de que o jornalismo pode ser a minha linda profissão, quando se nada contra a corrente do panfletarismo neoliberal.

Se para os alunos do passado a tarefa era ingressar no mercado e fazer da informação um instrumento para revelar o que, para a maioria, estava oculto,  a de vocês é reinventar uma imprensa que se perdeu de si mesma. Que ignora a relevante função social que deveria desempenhar, que se submete aos imperativos de mercado para derrubar governos democraticamente eleitos, legitimar ilegítimos e criar a narrativa que suprime direitos sociais e trabalhistas. E aí está o pensamento único, em telas e páginas, tratando o desmonte de conquistas como “reformas inadiáveis”

Prezados formandos, de lá pra cá, houve inovações tecnológicas, mídias digitalizada e mudança de plataformas, mas algumas coisas permanecem inalteradas para um bom profissional: a apuração rigorosa, a necessidade de um texto conciso, a primazia da informação sobre a opinião e uma ética que não pode ser negociada com nenhuma linha editorial.

Eu sei que é difícil. Mas difícil não e sinônimo de impossível. Aquele jovem paraninfo de 1987 é hoje um professor aposentado que continua na ativa por acreditar na juventude para a qual leciona. E com ela aprende e se comove.

Encerro com as palavras de Paul Valéry: “o homem vive e morre aquilo que vê, mas só vê aquilo que sonha”. Sonhem sempre, vocês hoje estão deixando a faculdade, mas permaneceremos juntos no firme propósito de acreditar na vida como invenção diária. Muita força, muita luta.

Muito obrigado.

Professor Gilson Caroni Filho.

Rio de Janeiro, 29 de março de 2017.

*Publicado originalmente no Jornal GGN, de Luis Nassif.

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