Agressor de mulher no BBB 17 dança, no programa e sob a Lei Maria da Penha

por Sulamita Esteliam
Marcos Hater sobre Emilly: violência física, psicológica e moral no BBB 17

Raramente assisto TV. Não ligo na Globo, muito menos vejo programas de voyeurismo explícito, tipo BBB. Mas ontem no Twitter só se falava nisso, e no show de violência machista e exibicionismo misógino de um personagem chamado Marcos, dizem que médico, sobre uma moça de nome Emilly, de apenas 20 anos.

A hashtag #GloboApoiaViolência, mobilizada pelo movimento feminista, ficou horas no no topo dos comentários no Twitter. E à noite, depois de “ouvir especialistas”, especialidade global, incluindo uma delegada da Mulher, a emissora expulsou o tal.

E a garota chorou em rede nacional, o que dá a medida de como relacionamentos abusivos destroem a capacidade de raciocínio e autopreservação.

Pobre menina, precisa de orientação e acolhimento, não de censura, como bem lembra uma amiga de um dos grupos de mulheres de que participo. Vale muito a leitura do texto de Bia Cardoso no Blogueiras Feministas.

Marcos está sendo investigado com base na Lei Maria da Penha.

E a Globo diz que cumpre a lei.

Exemplo de postagem no Twitter

Mas teve que chegar ao nível de violência física, explicita, e ouvir o barulho das redes sociais para tomar providências.

Assim como diz que “não tolera violência”, ao justificar o afastamento do astro José Mayer por assédio sexual e moral, que acontecia há meses, denunciado na internet pela figurista Su Tonani.

A atitude de Tonani foi essencial para expor o que todo mundo, se não sabe, intui que ocorre nos bastidores da fábrica de celebridades. Outras artistas tomaram as dores e chamaram a emissora às falas.

Até a atriz Lady Francisco, conterrânea que está com 82 anos confessos, tomou coragem para colocar de público o estupro de que foi vítima, no início de carreira”, por um diretor da Globo. Há coisa de 50 anos. Só conta o milagre. O santo só depois de morto. Está no Blog do Paulo Sampaio

Ocorre que não é a primeira vez que participantes do BBB, que está em sua 17ª edição, se vale de violência sexista para se afirmar no programa. Assim como já teve agressões homofóbicas e racistas e preconceitos de classe a rodo. Um estupro presumido em rede nacional foi um escândalo rapidamente esquecido.

É curioso observar que os perfis violentos se repetem, o que leva a crer que não estão ali por acaso. Ou como afirma a blogueira feminista e professora, Lola Aronovitch, em seu blogue Escreva, Lola, Escreva, “estão ali, exatamente por isso”.

Claro, a Globo não inventou o BBB. Para variar, importou. É prerrogativa da indústria do entretenimento.

Há quem goste, tanto que se repete, ano após ano. Perto de 2 milhões de pessoas se dispõem a ligar para eliminar este ou aquele participante do reality show, na emissora precursora do golpe que nos massacra.

Enquanto isso, o desgoverno do mordomo e a camarilha que tomou de assalto o Brasil faz o que quer com nossos direitos civis.

Mas há que se lembrar que, no caso do BBB e da violência tolerada, e que é conveniente refutar, não se trata de ficção, criação ou coisa que o valha. É a exploração comercial da deformação de caráter e dos sentidos.

A Rede Mulher e Mídia, na qual esta reles blogueira está inserida, requer ao Ministério Público Federal no Rio de Janeiro, providências de investigação da responsabilidade da Globo no caso em pauta. Afinal, TV é concessão pública, regida por leis constitucionalmente – por incrível que pareça.

Transcrevo a nota:

Nota de repúdio

BBB 2017 e Rede Globo: Por que expulsar o agressor não basta

Nesta segunda-feira (10/04), depois de ampla mobilização do movimento feminista nas redes sociais, de diversas denúncias feitas pelo Disque 180 e da atuação da Delegacia da Mulher do Rio de Janeiro, a Rede Globo decidiu expulsar da edição 17 do Big Brother Brasil o participante Marcos Harter. A conclusão da emissora, após consulta a especialistas – como explicou o apresentador Tiago Leifert – foi a de que a participante Emilly Araújo foi vítima de agressão física na madrugada deste domingo (09), após uma das festas do programa.

Diante do ocorrido e em função do nosso compromisso com a defesa dos direitos das mulheres nos meios de comunicação de massa, a Rede Mulher e Mídia – articulação que reúne dezenas de organizações da sociedade civil, movimentos sociais e centenas de ativistas de todo o país – vem a público manifestar sua indignação e repúdio diante da postura da Rede Globo. Ao contrário do que a produção do programa tenta fazer o público acreditar, a emissora não agiu imediatamente para garantir a integridade de Emilly, muito menos para combater a violência dentro da “casa do BBB”.

Quem acompanhou o programa viu, mesmo com as edições do conteúdo registrado, que a estudante, de 20 anos, foi vítima de inúmeras e diversas formas de violência, caracterizadas pela Lei Maria da Penha. A lei, em vigor desde 2006 no país, estabelece como tipos de violência contra a mulher a psicológica, a sexual, a patrimonial e a moral. E determina, em seu artigo 8o, inciso III, “o respeito, nos meios de comunicação social, dos valores éticos e sociais da pessoa e da família, de forma a coibir os papéis estereotipados que legitimem ou exacerbem a violência doméstica e familiar”.

Ao longo desta edição do BBB, as cenas exibidas pela Rede Globo na TV aberta já vinham mostrando a repetição e o agravamento de uma postura agressiva e machista por parte de Marcos, marcada por gritos, ameaças e violência psicológica, atitudes que caracterizam claramente um relacionamento abusivo, enquadrados como crime na legislação vigente. As agressões não se limitaram à Emilly, parceira de Marcos no programa. Em outras ocasiões, o médico agrediu verbalmente outras participantes. Outras cenas também mostraram situações de violência contra a mulher envolvendo os demais integrantes da casa. 

Tais episódios seriam motivos mais do que suficientes para que a emissora agisse e impedisse que a violência se naturalizasse naquele ambiente de confinamento. Mas não. Em vez de cumprir com a finalidade educativa de uma concessão pública de televisão, conforme dispõe a Constituição Federal, a Rede Globo, em busca de manter a audiência do programa e supostamente entreter os telespectadores com as brigas do casal, optou por aproveitar do sensacionalismo e das posturas inquestionavelmente abusadoras e agressivas do participante.

Mesmo alegando que alertava o casal sobre as agressões mútuas, a emissora permitiu que Emilly seguisse submetida a toda sorte de constrangimento, decorrente da exposição pública de sua imagem e da convivência com seu agressor. Marcos Harter não foi punido pela violência psicológica a que submeteu, dia após dia, sua colega de programa; só foi expulso do BBB depois que uma lesão física foi comprovada. Ou seja, além de transmitir uma ideia de permissividade diante de agressões – o que as legitima e perpetua –, este triste episódio faz crer que, para o Grupo Globo, a violência contra a mulher é tão somente circunscrita à violência física.

Necessário lembrar que não é a primeira vez que assistimos a casos de violência contra a mulher no Big Brother Brasil. Na edição veiculada em 2012, a Rede Mulher e Mídia chegou a enviar representação ao Ministério Público Federal pedindo a responsabilização da Rede Globo diante de um caso de violência sexual. Na ocasião, uma das participantes foi vítima de estupro presumido quando, embriagada e dormindo, teve a dignidade de seu corpo violada por outro participante.

Infelizmente, cinco anos depois, fica explícito que as condições a que os e as participantes do Big Brother Brasil são submetidas e as “regras do jogo” definidas pela Rede Globo estão longe de respeitar os princípios constitucionais previstos para o serviço de radiodifusão no país.

A agressão a que foi submetida Emilly diz respeito não só a ela, nem às demais participantes confinadas nessa edição do reality. Trata-se de mais uma agressão a todas nós, que assistimos, doloridas, à principal emissora de TV do Brasil explorar comercialmente uma situação que, cotidianamente, oprime, violenta e mata milhares de mulheres. Numa sociedade em que uma mulher é agredida a cada 5 minutos, aproveitar-se de uma situação de violência para acumular índices de audiência, até o ponto em que uma agressão física chega a ser praticada de fato, é, para nós, mais que omissão. É cumplicidade.

Sendo assim, uma vez mais, solicitamos que o Ministério Público Federal analise o caso em questão e, além das providências que a Delegacia da Mulher do Rio de Janeiro já está tomando, envolvendo Emilly e Marcos, avalie a responsabilidade da Rede Globo em silenciar durante semanas sobre a violência praticada diante e transmitida por suas câmeras.
Rede Mulher e Mídia
Rio de Janeiro, 11 de abril de 2017.

*******

Postagem revista e atualizada dia 12.04.2017, às 10:25 horas: substituição do acesso ao vídeo em que o apresentador do BBB explica para as mulheres a expulsão de Marcos Heart – o outro ficou indisponível; inclusão da sugestão de leitura a respeito de relacionamento abusivo no Blogueiras Feministas; retirada de frase repetida no segundo parágrafo.


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