O Brasil é uma ‘imensa loja de conveniências’

por Sulamita Esteliam

Transcrevo, do Facebook, palavras certeiras do amigo Marcelo Freitas, jornalista, professor e escritor, com quem preservo uma amizade de décadas, nascida e cultivada desde a redação do velho Diário do Comércio, em Beagá. Perfeita a expressão “imensa loja de conveniência”.

O noticiário cotidiano de um país sob golpe parlamentar-jurídico-midiático está aí para garantir que que prevaleça a ocasião. Vigoram o escárnio e a desfaçatez.

Lembro-me do primeiro dia do Marcelo no jornal, inicinho dos anos 80. Euzinha mesma acabada de chegar – embora já transitasse na casa como colaboradora do Jornal de Casa – que fez história, mas não resistiu aos novos tempos.

Ele ainda garoto, franzino e tímido, com cara de assustado. Abri meu melhor sorriso, e creio ter ajudado a aliviar a sensação de peixe fora d’água, tão comum no primeiro dia de trabalho em qualquer lugar.

Bons tempos em que a ingenuidade, o recato, no bom sentido, e a generosidade não eram defeitos explícitos. Ou será que por que já estou descendo a ladeira?

Marcelo é cria de Formiga, no sudoeste do estado – terra do melhor pão de queijo e da melhor linguiça de porco das Gerais.

Seus escritos fogem à superficialidade, vão ao ponto, como convém, e levam à reflexão. Não à toa ministra cursos de Jornalismo Literário.

No  texto referido, só boto reparo numa coisa: o Brasil não “está se transformado em uma imensa loja de conveniências”. O Brasil é, desde antanho, uma imensa loja de conveniências.

A diferença é que, agora, o pudor se dissolveu, e o avanço tecnológico transforma as redes sociais num imenso, diverso e esquizofrênico botequim.

Vamos ao texto:

por Marcelo Freitas – no Facebook

O Brasil está transformando-se em uma imensa loja de conveniências. Hoje (segunda, 10), vi poucos amigos do FB reclamando da forma grosseira como Silvio Santos, em público, tratou a Raquel Sheherazade. Por conveniência política, o ideal é que ficassem em silêncio. Mas, se a fala do apresentador fosse elogiosa a ela, os protestos apareceriam. Seria conveniente.

Quando era conveniente, há oito anos, o diploma deixou de ser condição para o exercício do jornalismo. Agora, também por conveniência, o discurso passou a ser em sentido contrário. E o blogueiro foi punido porque não era jornalista.

No início da Lava-jato, quando todos os holofotes estavam voltados para o PT, os vazamentos já eram seletivos. Mas, por conveniência, ninguém que estava do outro lado reclamava. Era conveniente o silêncio. Agora, que o vento virou, os que estavam em silêncio passam a reclamar da seletividade. Fazem isso porque lhes convém que reclamem.

Quando Lula, seguidamente, era capa de “Veja”, seus correligionários diziam que a revista era mentirosa. E seus adversários se calavam. Agora, quando Aécio passou a ocupar aquele mesmo espaço, os seguidores de Lula se calam. E os de Aécio, porque lhes é conveniente, passam a dizer que “Veja” é uma revista mentirosa.

No início da Lava Jato, não havia muita distinção entre o que era propina e o que era doação feita dentro da lei a políticos e partidos. Naquela época, o PT era a bola da vez. Por isso, era conveniente que tudo fosse uma coisa só. Agora, que o jogo virou, os que antes se calavam passam a dizer que caixa 1 é uma coisa e que caixa 2 é outra coisa. É conveniente que o discurso passe a ser construído dessa forma.

Assim, de conveniência em conveniência, continuamos a moldar o Brasil do jeitinho. Onde o importante é levar vantagem em tudo. Certo?


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