Moro assim o determinou: agora Curitiba é de Lula

por Sulamita Esteliam

Ninguém tem bola de cristal para antever o que vai acontecer na capital do Paraná, há três anos nomeada República de Curitiba, ou Guatánamo brasileira, ou sede da Inquisição rediviva. Por obra e graça do juiz Sérgio Moro, nesta quarta-feira, Curitiba também é de Lula.

O depoimento do ex-presidente na 13ª Vara Federal do TRF da 4ª Região, encarregada de julgar os processos da Operação Lava Jato, está revestido de simbolismo político – para o bem ou para o mal.

Queiram ou não queiram os juízes.

Note-se que o próprio Moro, que critica e atribui a Lula a transformação do depoimento em “evento politico-partidário”, movimentou-se nesse sentido, obcecado que está em pegar Lula – ele e os rapazes midiáticos da Força Tarefa -, independentemente de provas, ao revés das escrituras legais. E Aroeira o traduz à perfeição, como sempre.

Como já se disse aqui no A Tal Mineira, ninguém está acima da lei; nem Lula, nem os procuradores do MPF, nem o juiz.

A começar pelo fato de que o processo-alvo desse interrogatório já foi arquivado em outras instâncias, como em São Paulo, por falta de “materialidade”, na expressão de Fernando Brito, do Tijolaço, jornalista com formação em Direito.

O colega lista a série recente de “passos em falso” de Moro, que terminou armando o palco ou arena para Lula desempenhar o papel de político que é, cotidiana e diuturnamente.

Registre-se: desde meados dos 70 do século passado, quando Moro ainda molhava as fraldas.

Não bastasse tudo o mais, Moro avançou ao cúmulo de gravar depoimento em redes sociais, divulgado pela Globo em sua revista de domingo, “desconvocando os seguidores” da mobilização prevista para quarta-feira.

Não contente, em entrevista publicada pela Folha, nesta terça, diz, em tom de ironia, que o depoimento “vai ser o jogo deu uma torcida só”.

Claro que a mídia venal traduz o gesto como “pacificação” de ânimos. Na minha terra o nome disso é outro.

Escreve Brito:

“Amanhã, o jovem juiz de modos autoritários vai enfrentar o velho político de jogo de espírito, acostumado com perguntas as mais agressivas, das quais a mídia jamais o poupou.

Lula sabe perfeitamente o que fazer, inclusive a hora de se indignar. Moro talvez, pela ânsia de culpa-lo, tenha dificuldades em não descambar para a grosseria e – se isso vai fazer vibrar os coxinhas, digo os “apoiadores da Lava Jato”, certamente irá empurrar mais gente para o crescente lado dos que acham que o juiz tem a ideia fixa de, a qualquer preço, condenar Lula.”

A bem da verdade, há exceções na mídia venal – o que só confirma o lixo em que se transformou o jornalismo de guerra nestas plagas. O mesmo Tijolaço reproduz comentário de Kennedy Alencar, na Rádio CBN.

O jornalista, uma raridade digna de nota, aponta a atitude política de Moro, o que dá razão a Lula de acusá-lo de perseguição.

Não é boa a imagem em que um juiz aparece como boxeador de uma luta, retrato feito por uma revista semanal a respeito de depoimento de Lula. Quando envereda pela política, Moro enfraquece a Lava Jato e fortalece Lula, que ganha argumentos a favor do seu ponto de vista.”

Kennedy se reporta às capas das revistas Óia-Veja e IstoQuantoÉ, desta semana, que tratam juiz e réu como contendores num ringue. Sutis ao ponto de dar cores características aos adversários: Moro, em azul ou verde e amarelo tucanos-nacionais; Lula em vermelho petralha-comunista.

É de fazer corar criancinhas.

Registre-se, para não dizer que não falei de prócer do PIG, até o insuspeito Merval, uma espécie de porta-voz dos irmãos Marinho, das Organizações Globo, parceira preferencial da Lava Jato, dá um “puxão de orelhas”, na expressão de Brito, no justiceiro inocente:

“Ao utilizar o Facebook para um chamamento aos “apoiadores da Operação Lava Jato” para que não façam manifestações em Curitiba amanhã, dia em que Lula será interrogado, Moro deu margem a que os advogados do ex-presidente o acusassem de ter um lado no processo que julgará.”

Não obstante, sabe-se que leis e ritos estão sujeitos à subjetividade da interpretação.

Assim, o TRF-4, com sede em Porto Alegre, negou, no início da noite, Habeas Corpus liminar impetrado pela defesa de Lula.

Os advogados pediram suspensão por três meses do processo, que alude ao famigerado triplex do Guarujá, que pertence à OAS; o que implicaria adiamento da ouvida de Lula.

O julgador rechaçou o argumento de que “é humanamente impossível” examinar todos os documentos, liberados há uma semana pela Petrobrás – que é assistente da acusação ao lado do MPF, implicando cerceamento da defesa. Nada menos do que 100 mil páginas para serem sidas em sete dias.

Embora tenha-se requerido há cerca de seis meses ao juiz Moro, que primeiro negou, e só concedeu após nova requisição, mas sem fixar prazo para a juntada.

O mesmo juiz federal Nivaldo Brumoni, que substitui o desembargador João Pedro Gebran Neto, relator da Lava Jato naquele tribunal, negou outro pedido da defesa: de gravar o depoimento de Lula com equipe própria, conforme prevê o artigo 5º do CPP.

Nenhuma surpresa. A lembrar que esse mesmo TRF-4 liberou a Lava Jato a cometer exceções legais, como grampear e divulgar conversas da presidenta da República com o ex-presidente, por exemplo.

Enquanto isso, o Tribunal de Justiça do Paraná negou liminar ao Habeas Corpus coletivo da Defensoria Pública do Estado, que visava garantir acampamentos e livre manifestação das caravanas de apoio a Lula, decidida por juíza de primeira instância da Vara da Fazenda Pública.

A juíza Diele Bernadin Zydek chegou ao requinte de estabelecer a bagatela de cem mil reais diários de multa para quem quebrar a regra.  A Defensoria recorreu ao Supremo Tribunal de Justiça, mas até a hora em que escrevo, não se conhece decisão.

À revelia do embate jurídico, milhares de apoiadores de Lula começaram a desembarcar em Curitiba logo cedo nesta terça-feira, e continuarão a chegar até a manhã da quarta. Estima-se em até 100 mil o número de pessoas que se deslocaram para a capital do paraná.

Barreira para revista da PRF-PR nos ônibus das caravanas para as Jornadas da Democracia em apoio a Lula em Curitiba – Eduardo Figueiredo/Mídia Ninja/Sul 21

Caravanas de todo o Brasil para as Jornadas pela Democracia, que ocorrem simultaneamente em várias capitais, nesta quarta-feira. Aqui no Recife, dá-se no Monumento Tortura Nunca Mais, a partir das 14 horas, horário previsto para início do depoimento de Lula.

Em Curitiba, os ônibus com os manifestantes foram parados para revista da Polícia Rodoviária Federal à entrada da cidade, segundo relato de Marco Aurélio Weissheimer, da capital paranaense para o Sul 21.

Constrangimento e intimidação, travestidos de cuidado com a segurança.

O que procuram as autoridades: armas, drogas ou o dinheiro da Odebrecht? A investida virou piada nas redes sociais.

As atividades da Jornada da Democracia em Curitiba começaram na manhã deste 09 de maio, com a montagem do Acampamento da Democracia, e se encerram na noite da quarta-feira com ato político na tradicional Boca Maldita, no centro da cidade, com a presença de Lula, se tudo correr normalmente.

Confira a programação, que pode ser acompanhada no sítio da Frente Brasil Popular:

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PS: Já havia subido está postagem quando vi a informação de que um juiz do Distrito Federal mandou fechar o Instituto Lula, no âmbito de ação penal em que o ex-presidente Lula é acusado de tentar obstruir a Lava Jato. O juiz Ricardo Soares Leite é o mesmo que, na operação Zelote virou alvo do próprio MPF por cercear o andamento da investigação.

Se isso não é perseguição jurídica, o que será?

O Instituto Lula divulgou nota em que afirma não ter conhecimento oficial da decisão do juiz, e que seus advogados tomarão as medidas cabíveis assim que se tornarem cientes de seu teor.

Transcrevo:

Nota: Instituto Lula tem histórico de 26 anos dedicados à transformação social

O Instituto Lula, desde sua primeira fase, tem uma história de 26 anos dedicados a apoiar a transformação da sociedade brasileira, superar a desigualdade, promover o desenvolvimento e apoiar a construção da democracia no Brasil e no mundo. Na mesma casa onde funciona há mais de duas décadas nasceram projetos como o “Fome Zero” e o “Projeto Moradia”, que mais tarde se consolidariam em políticas públicas no governo do ex-presidente Lula, como o “Fome Zero“, o “Bolsa Família“, o “Programa Minha Casa, Minha Vida“, o “Programa Luz Para Todos“ e o “Projovem“.

Em agosto de 2011, o Instituto Cidadania passou a se chamar Instituto Lula e continuou funcionando no mesmo endereço. Como Instituto Lula, promoveu debates públicos dentro e fora do país, reuniu estudiosos, acadêmicos, sindicalistas, empresários, jovens, religiosos, embaixadores, artistas, técnicos e produtores culturais, ativistas de redes sociais, blogueiros, jornalistas, representantes de movimentos sociais, de ONGs e dirigentes, além de autoridades e governantes do Brasil e de muitos outros países. O Instituto compartilhou sua produção com a sociedade em eventos, publicações e com ferramentas de educação e pesquisa como o Memorial da Democracia e o Brasil da Mudança.

Até agora, o Instituto não foi notificado oficialmente da decisão do juiz e seus advogados averiguarão as medidas cabíveis assim que tiverem o teor da decisão.

Leia no link abaixo o relatório completo das atividades do Instituto desde sua fundação:

http://www.institutolula.org/uploads/institutolula2015.pdf 


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