Depois de Cláudia Cunha, Moro tem que declarar Lula inocente

por Sulamita Esteliam

Dois pesos, duas medidas. Eis o parâmetro pelo qual se pode dizer que a Lava Jato, operação da qual poderia emergir um novo Brasil, a partir da limpeza ampla, geral e irrestrita da corrupção enraizada em nosso DNA, perdeu o bonde da história. Teoricamente e metaforicamente.

Mas não é o que acontece, porque não foi para isso que a operação foi engendrada.

E quem é de bom senso sabe que essa é uma façanha fora da ordem para qualquer mortal. E não falo só no Brasil. Está aí a Operação Mãos Limpas, da Itália, inspiração de Moro, segundo ele próprio, que não nos deixa ilusões.

Se restava alguma dúvida quanto a isso, os fatos do dia contribuem para esclarecer: Sérgio Moro, o juiz responsável pelo braço principal da operação, que trata do esquema de corrupção na estatal Petrobrás, acaba de inocentar a mulher do megapropineiro, Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara, pela ausência de domínio dos fatos, digamos assim.

Ser mulher de bandido não é culpa de ninguém, é sina ou falta de percepção. Mas, Claúdia Cunha, sabe-se, movimentou coisa da ordem de R$ 1 milhão de reais em contas na Suíça em seu próprio nome.

O juiz, que optou por ser inquisidor e justiceiro, quando vem ao caso, alega que a madame, que é jornalista, e foi repórter, embora da Globo, “não tinha conhecimento da origem ilícita do dinheiro”. Ah, tá!

A probrezita não poderia saber do que era capaz o marido, para ela exemplo de “caráter e honestidade”, segundo translumbrante entrevista a programa de TV de uma concorrente aos seus ex-patrões.

Claro, ela não era capaz de sequer intuir que Cunha era o chefe de uma quadrilha de desvio de dinheiro público em proveito próprio e de seus pagadores, todos interessados em levar a melhor em cima do nosso, do seu, do meu dinheirinho.

A percepção da moça não lhe sugeriu que a vida de fausto que lhe proporcionava o maridão vinha de seus, nada modestos há que reconhecer, proventos de servidor parlamentar ou executivo.

Como se diz aqui em terras pernambucanas, chega a dar “um dó”.

Então, devemos concluir que o ínclito magistrado de primeira instância, se prepara para declarar o ex-presidente Lula inocente em todos os processos que correm sob sua pena; que ele e seus infantes terríveis do MPF curitibano penam para incluir no megapropinato da gigante do petróleo, ora em processo de exemplar depenação.

Como a do triplex que é da OAS e não do Lula – tanto que a empresa usou a posse como garantia de financiamento. E nunca foi da dona Marisa Letícia, que mesmo morta, em boa parte pela contribuição da pressão indevida sobre ela e a família, ele, juiz, se recusa a declarar inocente, como manda a lei para réus falecidos.

Ou o barco de alumínio, que a mesma dona Marisa comprou, ou os pedalinhos dos netos, que faziam o lazer da família num sítio emprestado em Atibaia, e que a Lava Jato quer provar, mas não consegue, que é do Lula.

Quer dizer que gastar dinheiro oriundo de propina para comprar bolsas de grife, não é crime? Também deixa de ser crime manter conta no exterior para lavar dinheiro de falcatruas em troca de favores em estatais?

Ou será que a mulher é a moeda de troca, em dólares ou euros, para garantir o silêncio do maridão presidiário? É preciso salvar a República do Mordomo e sua camarilha a qualquer preço, inclusive da reputação da ou república incrustada no Sul do País? Ou seria Curitiba o reino da hipocrisia e do cinismo?

As charges do conterrâneo Aroeira, de cujo talento e generosidade a gente acaba abusando, traduzem à perfeição o jogo jogado.

Senão vejamos. O que dizer da montagem indecente de agendas da Petrobras envolvendo o então presidente da República, Inácio Lula da Silva? Forjar provas deixa de ser crime quando é o Ministério Público ou o Judiciário que manipulam a verdade?

Nesta quinta, a defesa de Lula publicou extensa documentação, com fotos e tudo o mais, que mostra a falsificação grosseira de agendas de executivos da Petrobras para tentar provar que Lula tinha esquema com dirigentes corruptos da estatal de petróleo.

E a gente descobre, estupefata, que a agenda oficial do período Lula na Presidência da República foi apagada do portal oficial.  Sim, de gangsterismo se trata. Conluio institucional, como bem define o colega Fernando Brito, no Tijolaço.

Divulgaram semana passada – e a imprensa deu larga cobertura, sem checar, em nome do Jornalismo. Por exemplo, o então presidente se reuniu, ou almoçou, com este ou aquele diretor no mesmo dia em que estava em visita oficial na Coreia do Norte ou na Arábia Saudita.

A farsa chega a ser risível, não fosse tratar-se da reputação e da vida de pessoas. E olha que se trata de um ex-presidente da República, eleito e reeleito – e ainda em liderança preferencial do povo brasileiro em qualquer sondagem de opinião. Imagina se fosse um Zé Ninguém.

Ou talvez seja esse o caso, Lula pertence, e se orgulha disso, de ser um Zé Povinho. Querem impingir-lhe a imagem do ladrão de galinhas. Não cola. Mas querem prende-lo assim mesmo – para ele não voltar a ser presidente.

De uma coisa podemos ter certeza: se o Brasil fosse, de fato, um país digno do nome, os desvios, todos, desde que provados, teriam punição exemplar. Inclusive do Judiciário, ou da promotoria – que é essa coisa que é ligada o Executivo, deveria cuidar da cidadania, mas ganhou independência e, salvas as devidas e louváveis exceções, passou a usá-la para tramar com ou contra todos os poderes.

Transcrevo informação postada no sítio do Lula na blogosfera. É longa, mas é o desnudamento das contradições, da fraude montada pelo MPF, sob o comando do procurador especialista em power point, e pregador da decência – dos outros – e amplificada pela mídia venal. E  nela você não vai ler ou ver tal informação.

Então, aproveite.

A íntegra do documento você pode ver aqui.

Lava Jato e imprensa montaram farsa com agendas da Petrobrás

Órgãos de mídia deram destaque sem qualquer checagem a informação falsa da equipe do procurador Deltan Dallagnol sobre reuniões de que participou Lula quando era presidente da República
do sítio lula.com.br
Em dia em que Lava Jato e imprensa dizem que Lula estava em reunião privada com executivos da Petrobras, o então presidente e comitiva eram recebidos em Riad, na Arábia Saudita (Foto: Ricardo Stuckert)

Em conluio com procuradores da Lava Jato em Curitiba, a Rede Globo, a Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo produziram semana passada mais uma farsa contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Agendas de ex-diretores da Petrobras, anexadas pelos procuradores à ação sobre o tríplex do Guarujá, foram manipuladas pela imprensa de forma a apontar uma falsa contradição no depoimento de Lula ao juiz Sérgio Moro.

A juntada de “documentos” sobre supostas “reuniões” de Lula com a diretoria da Petrobras não foi fruto da descoberta de algum segredo em um trabalho de investigação sério, mas uma tentativa tosca de reescrever a história e criminalizar atos como viagens oficiais ao exterior, reuniões interministeriais e cerimônias da Presidência acompanhadas pela imprensa.

Uma irresponsabilidade que atenta contra o papel institucional do Ministério Público em uma democracia. Parece que para a equipe de Deltan Dallagnol, o crime de Lula foi ter sido presidente da República. E a mesma imprensa que acompanhou e divulgou essas agendas durante os dois mandatos de Lula, agora dá manchetes sem checar nem mesmo seus próprios arquivos.

A fraude começou a ser montada em 15 de maio, cinco dias depois do depoimento de Lula. Naquela data, os procuradores anexaram 78 documentos aos autos, sem explicitar o propósito. Destes, 27 são cópias de agendas de ex-diretores, registrando “reuniões”, “almoços” e “jantares” com Lula. As cópias das agendas foram entregues pela Petrobrás aos acusadores de Lula, mas não à sua defesa.

Na manchete de 17 de maio, a Folha afirmou: “Lava Jato contraria com documentos fala de Lula a Moro”. Segundo o jornal, as agendas mostrariam que Lula não teve apenas duas reuniões com a diretoria da Petrobrás em seu governo, como ele havia declarado a Moro, mas, pelo menos, 23. O Estadão destacou “reuniões de Lula” com três ex-diretores condenados na Lava Jato. O Jornal Nacional juntou as duas coisas, elevou para 28 as supostas “reuniões” e citou o Ministério Público como fonte de suas ilações, numa reportagem de três minutos.

A farsa desmorona quando se compara o que está escrito nas agendas da Petrobras e o que Lula realmente fez nas datas indicadas. Por exemplo: das 27 agendas, três se referem a recepções oferecidas por chefes de Estado a Lula e sua comitiva, em viagens internacionais: uma pelo presidente da China Hu Jintao, outra pelo rei da Arábia Saudita, Abdullah bin Abdul Aziz, e outra pela presidenta do Chile, Michelle Bachelet.

Pelo menos 14 agendas referem-se à participação de ex-diretores em cerimônias públicas nas quais Lula estava presente, em inaugurações, visitas a instalações da Petrobras ou em reuniões interministeriais, como as do Conselho Nacional de Política Energética. Não se tratam, portanto, de reuniões com a diretoria da Petrobras, muito menos de agendas com diretores específicos. E tudo realizado com cobertura da mídia.

Para verificar a veracidade das agendas (o que no jornalismo se chama checagem), basta conferir as datas mencionadas com a agenda de viagens nacionais e internacionais do ex-presidente Lula, que está disponível no site da Presidência da República. 

As agendas da Petrobras mencionam duas supostas reuniões do delator Paulo Roberto Costa em Brasília, que não podem ser confirmadas porque o atual governo retirou do site da Presidência as agendas diárias de Lula. Mas o próprio delator afirmou, em dois depoimentos ao juiz Sergio Moro, um deles feito ontem (24), que nunca teve reuniões individuais com o ex-presidente Lula. Confira:

Paulo Roberto da Costa fez essa declaração como testemunha, ou seja, com a obrigação de falar a verdade. Ele já havia dito o mesmo em depoimento anterior, mas a imprensa ignorou este fato para sustentar a farsa das agendas.

Não há dúvida de que as agendas foram plantadas no processo para desqualificar o depoimento de Lula em 10 de maio, o que nem mesmo seus maiores adversários conseguiram fazer. Uma imprensa imparcial ao menos teria checado os fatos antes de publicá-los sob o viés dos detratores de Lula. E não precisaria se esforçar tanto, pois muitos desses eventos foram noticiados pelos próprios jornais, como está registrado neste documento.

Lula foi o presidente brasileiro que mais visitou as diversas instalações da Petrobras em todo o País, em eventos públicos relacionados à empresa, que viveu forte valorização durante o seu mandato. Mais de 60 dessas visitas foram registradas pela imprensa. Quanto às reuniões com a diretoria, conforme declarou no depoimento, foram mesmo raríssimas. E Lula citou duas: uma para discutir o plano estratégico da empresa e outra para decidir o cancelamento de leilões para exploração de petróleo em áreas do pré-sal, quando ele foi descoberto, em 2008.

Os dados no link abaixo (por conveniência da edição, o A Tal Mineira o deslocou para a abertura da matéria) mostram a verdade sobre as agendas da Petrobras, revelam o golpe baixo dos procuradores de Curitiba e denunciam a indigência e parcialidade de um jornalismo que se comporta como papagaio da Lava Jato para difamar Lula.

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PS: Devo registrar: o mordomo usurpador, depois de mais um avanço de sinal, recuou e decretou a nulidade do decreto que colocou as tropas nas ruas do Distrito Federal, em nome da garantia da lei, da ordem e da segurança nacional. O anúncio foi feito pelo ajudante da Defesa, que leva a alcunha de ministro Jungmann.

Vexame amplo, geral e irrestrito. Só para variar.

A medida arbitrária e o massacre que as forças de repressão impingiram aos manifestantes na Esplanada dos Ministérios foi devidamente denunciado à ONU como violações dos direitos humanos. Ação das deputadas Maria do Rosário (PT-RS), Luíza Erundina (PSol-SP) e do deputado Paulão (PT-AL).


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