Em polvorosa, o planeta Brasil busca o senso e o prumo

por Sulamita Esteliam

O mordomo usurpador golpista, pego com a boca na botija e denunciado por corrupção passiva pelo ministério público, tem a cara dura de invocar o nome de Deus em pronunciamento público. Posa de leso, como se diz aqui no Nordeste: “Não sei como Deus me colocou aqui”.

Tamanha desfaçatez não surpreende. O país que Michel Temer governa só pode ser o planeta avestruz. Ou quiçá aquele de Dorothy e o Mágico de Oz, ou ainda dos desejos de Alice maravilhada, correndo atrás do coelho até perder-se no buraco encantado.

Cá, no mundo real, no Brasil esfacelado, só se o mordomo refere-se ao deus ganância, traição, despudor. Deus mercado, com certeza, essa entidade deletéria que suga as veias dilaceradas da nação.

O deus golpe, mesmo, despresidente, o vale-tudo montado na carroça desembestada do barbarismo, da hipocrisia, do cinismo e do escárnio.

Ou, como bem lembra em nota replicada no Twitter, a presidenta legítima, Dilma Rousseff: foi “a ponte dos perdedores sobre a democracia para o desmonte do país“.

Foi a “grande mídia”, o “PSDB”, os “adeptos do Pato Amarelo conheciam a conduta do grupo que assaltou o Planalto e são responsáveis diretos por sua ascensão”.

Sob o silêncio covarde das panelas, as mesmas que há cerca de um ano repicavam contra a governante legitimamente eleita.

O mordomo diz que não há provas de que incorreu em corrupção passiva, objeto da denúncia do PGR.  Que nome dar a isso!?

Joaquim de Carvalho, define em duas palavras ao titular artigo no DCM: “bandido vulgar”.

Em bem traçadas linhas, descreve com vigor as incursões de Temer pelos caminhos das vantagens indevidas. Vale muito à pena conferir.

Enquanto isso, no Senado Federal, o líder do PMDB, Renan Calheiros acusa e ameaça brecar o desgoverno que ajudou a formar, por conta da pressa da camarilha em aprovar o degola dos direitos trabalhistas.

“O governo que está aí não tem condições de propor reformas para o país. O erro de Temer foi achar que poderia governar o Brasil influenciado por um presidiário de Curitiba.”

Renan se refere ao ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, preso preventivamente pela Lava Jato.

Cunha acatou o processo de impeachment contra a presidenta reeleita, Dilma Rousseff, como vingança por ela e o PT não terem aceitado sua chantagem para livrá-lo da Comissão de Ética, que acabou cassando-lhe o mandato – depois do pote trincado.

A lembrar que Renan, o probo, era o presidente da casa que poderia ter barrado a sequência da fraude. E não só não o fez, como votou, sem necessidade regimental ou numérica, pelo afastamento da presidenta.

No jogo do morde-assopra, como barata cascuda que é, propôs manter os direitos políticos da deposta, tal qual prevalece.

Agora, ameaça trocar as indicações do partido na Comissão de Constituição e Justiça, a persistir a determinação de revogar os direitos dos trabalhadores no afogadilho, como quer a liderança do desgoverno.

Renan é investigado na Lava Jato, assim como boa parte do atual Congresso; inclusive o presidente da Câmara e eventual substituto do mordomo, Rodrigo Maia (PMDB-RJ) e o líder do desgoverno no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR).

É raposa felpuda. Jogador habilidoso, não costuma pôr em risco a própria sobrevivência política.

O mordomo tentou removê-lo da liderança do partido, e agora paga o preço. Mas não é apenas isso: a rebeldia é conveniente, porém, indica que o mordomo não tem salvação.

Ao contrário dos personagens que Dorothy e seu cão Totó encontram pelo caminho na terra mágica – o Espantalho, o Homem de Lata e o Leão covarde – perdeu de vez  a chance de fazer bom uso do cérebro, do coração e de alguma coragem – que seja a de renunciar.

E as ruas, dia 30, em greve geral, podem dar um empurrãozinho básico.

Note-se que no afã de servir ao deus que o sustenta, e que financiou a patranha que o levou de assalto ao cargo que não lhe pertence, Temer e camarilha promoveram o estupro coletivo e reincidente da Constituição.

Derrubar Dilma era apenas o começo. O golpe é contra os trabalhadores, é no lombo do Zé e da Maria Povinho.

Vieram o bloqueio dos investimentos sociais, a terceirização, o desmonte das políticas públicas de cunho social, o assalto ao pré-sal e outras riquezas nacionais, o desmonte da Previdência Social e da proteção social ao trabalho.

Não fosse a agudização da crise política, a partir das delações da JBS e do flagrante da conversa com o dono da Friboi, Joesley Batista, corruptor de primeira, e tudo estaria de fato dominado.

Tudo, para tentar livrar-se, coletivamente – a camarilha política e empresarial – das garras da Justiça.

Tudo ótimo enquanto era só o PT. Mas algo saiu do controle, e o chicote que deu em Chico, virou para Francisco.

E agora, Michel e seus comparsas tentam fingir que a festa continua, mas a sede foi tanta que o pote quebrou.

Charge capturada no Conversa Afiada

Nesta terça, enquanto o mordomo arrogava-se jurista, o procurador-Geral da República, Rodrigo Janot – que acabou não se candidatando à própria sucessão – mostrava que não vai dar refresco ao desgoverno.

Apresentou à Suprema Corte o questionamento da constitucionalidade do projeto de terceirização, aprovado em abril pelo Congresso. Por ferir o princípio de proteção social ao trabalho, prescrito na Carta em vigor.

Lá no Sul do país, como se fosse eco de bom senso, o Tribunal Federal da quarta região declarou João Vaccari inocente da condenação imposta pelo justiceiro Moro de primeira instância, baseado única e exclusivamente em delações.

A absolvição de agora é relativa à primeira condenação, de 15 anos por, segundo os procuradores da Força Tarefa, operar dinheiro escuso para o partido. Sem provas.

O ex-tesoureiro do PT está preso “preventivamente” desde abril de 2015, e foi condenado em outros processos, que estão sob recurso ao mesmo TRF-4.

É o abusivo tragando vidas e reputações. Quem paga por isso?

A consequência imediata, a ser requerida pela defesa, é a liberdade de Vaccari. Há outras, apontadas por seu advogado, Luiz Flávio D’Urso, em entrevista ao Jornal GGN:

“É uma decisão simbólica e impacta em outros processos em geral. O Tribunal, ao absolver Vaccari, corrige sentença do Moro que foi feita só com delação. Isso com Vaccari tem se reiterado em outros processos. As condenações [há mais duas] se baseiam apenas em palavras de delator, em nenhuma outra prova. É necessário que existam provas. Até porque o delator tem interesse no resultado. A palavra do delator deve ser vista com reserva. As provas não existem porque as delações não eram verdadeiras.”

E agora, Moro, vai fazer o que com o Lula?

 

 

 

 

 

 


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