Brasileiro conta a reação alemã à condenação de Lula: ‘waaas??’

por Sulamita Esteliam

Minha fada-madrinha, Elma Heloíza, em férias numa praia do norte da Bahia, me envia por zap-zap um texto interessante com a informação pertinente. Foi no sábado.

Pergunto se conhece o autor. Ela diz que vai consultar o amigo que compartilhou.  Devolve no domingo: o texto foi publicado no perfil no Facebook de Antonio Salvador, estudante da Humboldt Universitäty zu Berlin, “um cidadão comum”.

Nem tão comum assim, devo observar.

Acrescenta: “Escritor, que tem uma bolsa literária Brasil-Alemanha. Resposta do meu amigo”.

Muito prazer, Antonio Salvador. Passo a seguir você, desde já.

O texto foi replicado pelo DCM sob o título, País estranho, esse Brasil: a repercussão na Alemanha da condenação de Lula.

Transcrevo, mantendo o título original:

ESSE TAL DE BRASIL

por Antonio Salvador – no Facebook

Finalmente o Brasil voltou aos noticiários da Alemanha. Eu já havia salientado aqui que, desde o impeachment da Presidenta Dilma, a imagem do Brasil foi lançada em queda livre. Na verdade, o país simplesmente deixou de despertar qualquer interesse na imprensa europeia. Hoje, todos os meios de imprensa, absolutamente todos, todos os jornais impressos, todas as tevês, todas as rádios noticiaram a condenação do Presidente Lula.

O clima, por aqui, é de estupefação total, não só porque Lula é o líder político mais importante do Brasil, mas também porque é considerado na Europa um dos líderes mais influentes da História contemporânea mundial. É do consenso geral, na Alemanha, que Lula ocupa o mesmo panteão de Obama, Merkel, Hatoyama, etc.

Durante esses anos todos que vivo por essas bandas, jamais encontrei um alemão que não soubesse quem era Lula e, mais, não o mencionasse espontaneamente com grande respeito. Em todos os congressos e eventos acadêmicos com foco em desenvolvimento socioeconômico dos quais participo, os programas de governo implementados por Lula para redução da pobreza e inclusão social são referência constante, posto que copiados em diversos países. Eu poderia citar centenas de trabalhos acadêmicos nesse sentido.

Hoje cedo, entro no departamento de direito público da Humboldt-Universität e dou a notícia à queima roupa – alguns ainda não haviam lido as notícias: “Lula foi condenado a nove anos e meio de prisão”. Reação unânime: Waaas?? (O quê??).

Nos jornais, os articulistas tentam, sem sucesso, explicar o caso. Falam de um tal apartamento de luxo numa praia, que teria sido reformado pela OAS, mas que não pertencia a Lula… Entre os comentários do jornal Zeit, um leitor indaga: “ Condenado a quase dez anos de prisão porque visitou um apartamento que, em seguida, recusou? País estranho esse tal de Brasil…”.

Na impossibilidade de explicar logicamente a condenação, todos os jornais, claro, aludem às eleições de 2018 e explicitam que Lula não só seria candidato, mas também é o favorito, segundo as pesquisas, muito à frente dos demais, o que certamente faz lançar sobre a condenação, concluem, “suspeitas de fundo político”.

Parênteses: nenhum jornal alemão é filiado ao Partido dos Trabalhadores.

O notório radialista Brendel, da Deutschlandradio, salientou que a condenação não era definitiva, mas fez questão de dizer que ela acentuava ainda mais o “caráter surreal” dos recentes acontecimentos no Brasil, já que, enquanto condenam o Presidente Lula, sem uma prova concreta que sacie a sanha midiática brasileira, os parlamentares brasileiros manobram para manter no cargo o presidente em exercício que foi, palavras do jornalista, “gravado em transações criminosas”.

Por fim, o NZZ fala em “tempos difíceis no Brasil” e diz que o que está em jogo é o “Comeback de Lula em 2018”.

Sem mais.

Antonio Salvador

*******

PS do  A Tal Mineira: o colega Fernando Brito, do Tijolaço, que cursou Direito, mas jamais exerceu, chama a atenção em diversas postagens sobre o caráter “surreal” da sentença de Sérgio Moro sobre Lula.

Nesta segunda, anotou mais uma pérola – queria dizer aberração: criticar Lula por, em seu tempo de presidente, não ter cometido o arbítrio de interferir para cessar a garantia de prisão do réu, qualquer cidadão, somente após o transitado e julgado, como determina a lei – agora re-interpretada pelo STF.

Escreve Brito:

“Um dos trechos mais ridículos da sentença de Sérgio Moro em que condena Lula está nos parágrafos em que ele reconhece o esforço de Lula no Governo para promover o combate à corrupção, mas diz que isso não prova nada, inclusive porque o ex-presidente não invadiu a competência do Supremo Tribunal Federal para mandar “prender logo” os condenados, antes de esgotados os recursos – entendimento centenário de nossa Justiça.”

Reproduzo os trechos pinçados do calhamaço de mais de 300 páginas que o justiceiro da República de Curitiba escreveu para tentar justificar porque condena Lula sem provas, mas por convicções, e a nove anos e meio de prisão – portanto em regime fechado:

793. É forçoso reconhecer o mérito do Governo do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva no fortalecimento dos mecanismos de controle, abrangendo a prevenção e repressão, do crime de corrupção, especialmente nos investimentos efetuados na Polícia Federal durante o primeiro mandato, no fortalecimento da Controladoria Geral da União e na preservação da independência do Ministério Público Federal mediante a escolha, para o cargo de Procurador Geral da República, de integrante da lista votada entre membros da instituição.
794. É certo que não se trata de exclusiva iniciativa presidencial, já que o enfrentamento à corrupção é uma demanda decorrente do amadurecimento das democracias, mas o mérito da liderança política não pode ser ignorado.
795. Algumas medidas cruciais, porém, foram deixadas de lado, como a necessária alteração da exigência do trânsito em julgado da condenação criminal para início da execução da pena, algo fundamental para a efetividade da Justiça Criminal e que só proveio, mais recentemente, da alteração da jurisprudência do Egrégio Supremo Tribunal Federal (no HC 126.292, julgado em 17/02/2016, e nas ADCs 43 e 44, julgadas em 05/10/2016). Isso poderia ter sido promovido pelo Governo Federal por emenda à Constituição ou ele poderia ter agido para tentar antes reverter a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal.

Prossegue Brito:

“Deus meu! É escandaloso que um juiz, numa sentença criminal condenatória, que implica em perda de liberdade, “julgue” o comportamento de um Presidente da República  por não ter  mandado “emenda à Constituição” para acabar com a prisão somente após o trânsito em julgado das sentenças. E muito mais ainda sugerir que “ele poderia ter agido para tentar antes reverter a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal”!

Como é que um Presidente da República “age para reverter jurisprudência” do Judiciário senão interferindo em outro poder, de forma espúria? O que o Doutor Moro está sugerindo, em sua sentença, que Lula deveria ter feito é cometer um crime!

Crime de responsabilidade, nos termos do Art. 4º  da Constituição Federal que elenca como um deles atentar contra “o  livre exercício do Poder Judiciário”.”

Vale ler a íntegra.


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