Em respeito à dor, ‘é preciso baixar a câmera’; e a guarda…

por Sulamita Esteliam

 

Hoje, no café da manhã, me emocionei às lágrimas ao ler o texto do colega Lincon Zarbietti, no Facebook. Repórter fotográfico de grande talento, não foje às letras. É uma das boas referências na nova geração de jornalistas, que nos faz manter acesa a esperança no futuro da profissão tão aviltada e desgastada nesses tempos.

Contava o fotojornalista sobre o dilema profissional de cobrir um velório ou enterro sem causar maiores danos aos familiares, sobretudo, no limite da dor. Quem é ou foi repórter sabe o peso da tarefa. Euzinha, mesmo, sempre que pude, recusei o encargo. A gente se sente meio que… urubu.

Pois Lincon colocou a ética acima da foto, e depôs a máquina em respeito ao desejo e pedido da família do menino Matheus Felipe Rocha Santos.

Isso aconteceu na segunda-feira, e o texto está reproduzido mais abaixo.

Nesta terça, o pequeno, que queria ser policial militar, foi enterrado com honras da corporação: junto com os brinquedos que pedira à avó como presente do Dia das Crianças: um helicóptero e um caminhão.

Luiza Muzzi, a repórter que faz dupla com Zarbietti, neste trabalho para O Tempo, descreve a cerimônia num texto delicado, humano, sem medo de transmitir emoção. Faz juz à parceria, ou vice-versa; não a conheço.

Quanto ao rapaz, me ganhou ainda estudante, quando, anos passados, esteve no Recife para a Confecom. Saiu dela premiado, registre-se.

E Lincon pôde, enfim, exercer seu papel, sem agravar as feridas no coração da mãe e outros familiares de Matheus.

 

A semana dedicada às crianças carrega o luto no coração.

O luto dos anjos recolhidos em tenra idade.

O luto da dor das famílias que perdem suas crias e buscam um porquê.

Mães, pais, irmãos, avós e tias das crianças vítimas do ataque infeliz e trágico na creche Gente Inocente, no Bairro do Rio Novo, em Janaúba, Minas Gerais.

É preciso fé para sobreviver à tamanha prova.

Boas notícias emergem da tragédia incendiária, porém: uma das crianças feridas, a menina Maísa Barbosa dos Santos, de 5 anos, obteve alta médica no Hospital João XXIII nesta tarde, e pode voltar para casa.

Mais cinco pequenos e dois adultos continuam internados no mesmo hospital na capital das Gerais.

Todavia, são 10 as crianças que não resistiram aos ferimentos e estão enterradas no cemitério Campo da Paz no pequeno município do norte de Minas; além da professora heroína, Heley de Abreu Silva Batista, que deu a vida para salvar seus pequenos alunos.

Mas crianças são luz em quaisquer circunstâncias.

*******

Transcrevo o texto que me levou a esta postagem:

Palavras podem valer mais que mil fotografias!

por Lincon Zarbietti – no Facebook

Chegamos a Janaúba no fim da tarde de segunda (09). Já cientes da morte do Matheus, de apenas 5 anos, que não resistiu a três paradas cardíacas em Belo Horizonte, eu e a repórter Luiza Muzzi aguardamos o pequeno chegar à cidade do norte de Minas, onde tudo começou.

Por volta de 23h, em um terreno de frente larga e chão de terra batida, duas casas de uma mesma família acomodavam centenas de pessoas, que esperavam pelo último adeus ao garoto. Não demorou ao carro funerário estacionar na humilde rua do bairro Rio Novo, a um quarteirão da creche Gente Inocente, e um silêncio dramático e longo envolver as vozes que conversavam sobre amenidades. Era a hora do Matheus!

Só quem já acompanhou um velório ou enterro na função de repórter ou fotojornalista sabe o drama pessoal que é exercer a função sem causar maiores danos àqueles que já tanto sofrem. Luiza e eu buscamos alguma figura próxima para nos ajudar. Uma prima do garoto nos atendeu e nos informou que a família não queria foto. Eu, de câmera a tiracolo, não titubeei em responder: “Sem problemas. Não haverá registro”. Os jornais ou a internet não estampariam um registro daquele momento vindo da minha câmera.

Nos preocupamos em conversar com alguns presentes, de forma delicada, para saber mais sobre aquele garoto que reuniu na casa de sua avó uma fila de mais de meia hora para dizer adeus. Não informaria os leitores com minhas imagens naquela noite e, confesso, que aquilo me incomodou por certo momento. Entretanto, toda dúvida se foi no momento em que Dona Santa, avó de Matheus, me abraçou dizendo: “Obrigado por vir de tão longe e respeitar nosso momento”.

Conversamos por cerca de 20 minutos com uma senhora que, mesmo em uma hora tão difícil, foi capaz de nos lembrar de momentos tão ímpares e doces de seu neto. Tanta força para conversar com estranhos em um momento tão delicado! A câmera no banco de trás do carro não me incomodava mais. Sabia que, mais importante que meu trabalho como fotojornalista, estava minha missão como ser humano naquele momento: acolher, da mesma forma que todos ali acolhiam!

O cartão vazio na câmera não era mais um desconforto, o coração cheio de calor para aquecer aqueles que sofriam era mais importante. Falar menos e ouvir mais. Meus olhos não cabiam no visor da câmera, eles estavam ocupadas prestando atenção nas pessoas que nos recebiam; minhas mãos não podiam segurar a lente, elas precisavam estar abertas para um abraço forte; minha mente não podia se preocupar com enquadramentos ou fotometrias, ela precisa mentalizar pensamentos de paz para quem sofria naquela despedida. O fotojornalista não deve ser máquina, deve ser emoção! E se anular como profissional algumas vezes é o que mais nos torna profissional.

Às vezes é preciso abaixar a câmera!


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