A arte e a liberdade não engolem desaforo, em Beagá…

por Sulamita Esteliam

Quando quer, minha Macondo de origem não guarda desaforo debaixo do tapete. Ainda bem. Os belo-horizontinos de boa cepa e de bom senso mostram que não toleram censura, quanto mais à arte. Liberdade, teu nome é cultura, e cultura é cidadania.

Vi pelas redes sociais: foi bonito e simbólico o ato de protesto contra a ignorância e/ou o oportunismo, mas obscurantismo com certeza, que tentam fazer da arte a besta do apocalipse – assim mesmo, com letra minúscula.

A exposição Faça você mesmo sua Capela Sistina, de Pedro Moraleida no Palácio das Artes, aberta em setembro, tem sido alvo de achaques fascistas.

A exemplo do que vem ocorrendo no Brasil em estado de golpe permanente. Começou no Sul do País, passou por São Paulo, ameaça no Rio e alcançou Beagá. A diferença é que nas Alterosas, a reação foi imediata.

Para início de conversa, a própria Fundação Clóvis Salgado, se posicionou devidamente, em nota, em que explicita o caráter de vanguarda da obra, tema do programa Arteminas deste ano. Uma frase de Guimarães Rosa inspira a edição:

“Não quis o que estava no ar”.

Lembra que à entrada da Grande Galeria há placa mostrando a classificação indicativa de 18 anos para a obra, que já foi visitada por 6 mil pessoas, desde 1º de setembro.

Moraleida encantou-se aos 22 anos; ele completaria 40 anos em 2017, quando sua obra atinge a maioridade. A mostra reúne 160 peças entre pinturas, desenhos e objetos.

Parêntese necessário: devo me penitenciar por não ter visitado a exposição. Estava na cidade, quando se deu a abertura, e até havia me comprometido com o querido Luiz Bernardes, pai do artista, a quem peço desculpas. Mas sempre me perco nos compromissos familiares e que tais quando estou na terrinha, e aí danço. Enfim, não consegui ver, azar o meu.

Retomo o curso da prosa: em nome da moral, da religião e dos bons costumes é que não se arvoram as vivandeiras. Em nome do cinismo e da hipocrisia se desmonta uma Nação. E por onde se começa?

É Bernardes que responde em trecho de sua fala emocionada no ato da noite de segunda-feira:

“A Cultura é o primeiro obstáculo a ser vencido quando se quer implantar o regime fascista. Hitler fez isso na Alemanha”.

A ditadura egressa do golpe civil-militar de 64 também perseguiu artistas e intelectuais. Pensar leva a questionamentos, e a intolerância é feita de certezas.

Em Beagá, um certo vereador, de nome Jair de Gregório, e, não bastasse, também um deputado estadual de nome João Leite, todos tucanos e evangélicos, resolveram insurgir-se contra a arte. Carrearam alguns seguidores barulhentos como eles, à guisa de movimento.

Um é pastor da Assembleia de Deus, e investiu contra a exposição de Moraleida; outro é pastor da Igreja Batista Central de Belo Horizonte e se arremeteu contra a peça O Evangelho segundo Jesus, rainha do céu,  em apresentação na Funarte.

Há de se imaginar que têm respaldo de suas igrejas… Mas veja o que meu amigo Marcelo Freitas, jornalista e professor, encontrou ao desconfiar da e investigar a razão da “histeria”. Está em seu perfil no FB:

“Com tanto barulho, imaginei que os veículos de comunicação das instituições às quais ambos pertencem estivessem dando guarida à campanha deles. Mas, no site da Assembleia de Deus de Belo Horizonte não há uma só palavra a respeito das raivosas intervenções do dito vereador contra a exposição. O site da Igreja Batista Central não tem noticiário.

Imaginei, então, que a fanpage da igreja trouxesse alguma manifestação contra a peça que João Leite queria impedir de ser encenada. Também não. Da mesma forma, o site da Convenção Batista Mineira ignorou o o assunto. Nenhuma manifestação houve.

Fico por aqui. Deixo a reflexão e nenhum comentário a mais, a não ser um ditado muito conhecido entre os antigos:
– Muito vento é sinal de pouca chuva.”

Comentei a postagem, e perguntei ao Marcelo se havia participado do ato. Quem me respondeu foi outro colega, Claudio Ramos de Souza, que me indicou o sítio Alto Astral News, onde topei com o vídeo que reproduzo ao final.

Singular a fala de outro pastor José Barbosa, da Igreja Batista, a partir do minuto 9:05 até o minuto 11:24 do vídeo. Contraponto na medida para o fundamentalismo gratuito.

Ele começa lembrando que segue “um transgressor”, que é Jesus, cita uma parábola do Mestre:

“A candeia do corpo são os olhos. Se seus olhos forem bons, todo seu corpo terá luz.”

E prossegue:

“Quando um vereador ou um deputado vem aqui e fala da imoralidade das obras, eles falam muito mais deles que das obras.

(…) Esse pessoal está cheio de pecado. Porque a injustiça é pecado, maltratar pobre é pecado. Isso eles deveriam denunciar e não denunciam. O golpe eles não denunciam. As crianças passando fome nas ruas eles não denunciam. Mas vão denunciar uma criança que é levada pela mãe a uma obra de arte.

Quem vê pedofilia, por exemplo, num corpo nu deitado é por que a pedofilia está dentro dele.”

E finaliza em tom maior e sob ovação:

“Esses caras não representam o espírito do Evangelho, que é o espírito de liberdade, de liberdade de consciência, principalmente de amor. É o amor que lança fora todo o medo. O medo é a prática de quem não sabe amar. Amem-se sempre. E que a arte sobreviva pelo amor.”

Pois é.

Além de tudo, como observa o colega João Claudio Sousa, responsável pela postagem do vídeo no Alto Astral News, os censores prestaram um bom serviço de divulgação da mostra: “enquanto o Ato em Apoio à Exposição Pedro Moraleida acontecia do lado de fora do Palácio das Artes, o público disputava lugar na imensa fila para ter acesso” à mostra.

Lembra mais: que “Lacan explica e Freud é incisivo quando recomenda que ‘reflitamos sobre nós mesmos'”.

Segue o vídeo sobre a manifestação “ordeira, cultural, didática e participativa dos principais movimentos em defesa dos direitos, da liberdade em geral, da cidadania“, como define o autor; “sem muita edição”:

 

Fotos: Exposição – Paulo Lacerda/FCS; Manifestação: Marcelo Passos/FB


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