Criança, ser em questão…

por Sulamita Esteliam

Acaba de sair do forno. Foi cozido em fogo brando, em banho-maria. Pretende ser um poema, cometido assim no calor da alma.

Alguma rima e nenhuma métrica.

Livre como deve ser uma criança, aquela que tem respeitados seus direitos. Algo difícil no Brasil de sempre, mas sobretudo nesses tempos de desmantelo.

No Dia da Padroeira, quem sabe ecoe como prece!?

 

Dia das Crianças na Ocupação Carolina Maria de Jesus, em Beagá – Foto: Mídia Ninja

Criança, ser em questão

Quem disse que menina sonha em ser moça!?

Menina sonha em crescer e ser gente.

Menino também, não há diferença.

Só que menina cresce mais rápido,

e cedo descobre que nada é igual.

 

Quem foi que disse que criança não sabe?

Quem foi que disse que criança não sofre?

Quem foi que disse que criança só quer …?

E o que é ser criança?

Qual criança você prefere ser?

 

Tudo é diferente,

quando se vira gente.

De tão grande, se apequena.

 

Tem que pagar pedágio

quem se arvora em querer,

que dirá ser…

Assim, do jeito que a coisa é.

Desde criança.

Menos quem já nasce feito,

que aí a vida floresce sem mais nem por quê.

 

No mais é batalha.

Se é preta, se é pobre,

e se é favelada, então…

Nem me fale se é índio, porque índia a gente

nem sabe se existe.

E nem me fale se é cigano, que cigana já brota

na roda da saia que arrasta e molda…

 

Se é preto, se é pobre,

e se é favelado, então, meu irmão!

 

Mas a morte quer lá saber disso…

Se nasceu em lugar e hora marcados;

ou se brotou feito fruta nativa,

sob a lona ou a chuva do cerrado,

trepadeira de morro acima ou fogo de morro abaixo?

 

Tem lá a morte hora para colher?

 

E quando se é chamado é que tudo fica igualzinho…

A mesma pá de terra, os mesmos sete palmos.

Seja caixão de pinho ou engalanado.

Ao pó tudo torna.

Comida de bicho, de verme, de água ou de fogo;

essa, a escolha.

 

E alma, tem?

“Pense nas crianças mudas, telepáticas…”

No sinal de trânsito, nas calçadas.

Na beira-rio, se mar não há.

Na carvoaria, no roçado, nos lixões.

Na fábrica de farinha, aviões do tráfico.

 

Criança é luz e alegria, é graça.

Pois tá, se é escolha.

Erê, curumim, cunhatã.

Maça, jasmim, rosa, alecrim.

Preto, amarelo, branco, verde, rosado.

Ibeji.

 

Se tem alma, tem amor.

Então, abraça, beija.

Brinque, faça um chamego.

Pode rir, e pode chorar também;

feito criança em desassossego.

Se tem amor, não morre.

“Fica encantada”.


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