Lula, Dilma e o Brasil profundo que a elite desconhece

por Sulamita Esteliam

Luiz Inácio Lula da Civil encerra, na noite desta segundona, seu périplo de oito dias por Minas Gerais – na antológica Praça da Estação, à partir das 18:00 horas. Revisitou “o Brasil profundo”, como bem lembra a presidenta Dilma Rousseff, a legítima, que o acompanha. Minas retrata e resume o cerne da cultura deste País, assinala.

Um Brasil que o Brasil que se acha diferenciado, incluindo a mídia venal, não exerga e faz questão de desconhecer.

Lula escolheu passar o aniversário de 72 anos, o oficial, na terrinha. Com Dilma e o povo, celebrou em Montes Claros, dia 27 passado, também 15 anos de sua primeira eleição para presidente do Brasil, o primeiro operário no posto-maior da República; e 7 anos da eleição da primeira presidenta, deposta pelo conluio da casa-grande para por abaixo um projeto de país menos desigual.

E recorro à fala de Dilma, em Cordisburgo, terra do mestre Guimarães Rosa, última etapa antes da capital, que explica a gênese do golpe permanente a que assistimos mais impotentes que impávidos:

“Não podemos nos esquecer que o Brasil foi o último país do mundo a libertar os escravos e o último da América Latina a criar uma universidade”.

Eis a elite que temos. Uma elite tacanha, egoísta, covarde, medíocre, obscena, a serviço de quem estão os poderes, todos os podres poderes. Com Supremo, com tudo.

Não, não podemos aceitar a máxima de que cada povo tem o governo que merece.

Nesse sentido, é demolidora a postagem do Fernando Brito no Tijolaço, domingo que se foi, inspirado em outro mestre, Darcy Ribeiro, filho de Montes Claros das Gerais.

Transcrevo, para começar bem a semana de trabalho:

O mercado e o cotidiano

por Fernando Brito – no Tijolaço

Para a elite brasileira, uma coisa nada tem a ver com a outra.

Uma parte da classe média até acha muito chique e sonha com um Macron, ou um Dória, ou alguém que venha do mundo azul da riqueza para dar alguma farinha àqueles coitados.

Registra, no Facebook, meu amigo, o jornalista Fernando Molica:

A ‘Folha’ destaca hoje no caderno ‘Cotidiano’ uma ótima reportagem de três páginas sobre famílias que passam fome na cidade de São Paulo. A matéria é ilustrada com fotos de personagens e de suas geladeiras vazias. Aí você vira a página e dá de cara com uma foto – bonita, bem iluminada – de um balcão de supermercado entupido de alimentos, um anúncio imenso da rede St. Marche, um “mercado que entende de comida”.
Também hoje, na capa do caderno ‘Mercado’, a ‘Folha’ chama para outra importante reportagem. Estudo internacional mostra que os ricaços brasileiros têm ganhos superiores aos franceses que estão no mesmo patamar – o 1% da população mais abonada daqui recebe mais que o 1% que, por lá, garante vaga no topo da pirâmide social. 

Na reportagem citada por Molica, a repórter Joana Cunha conta que  “a renda média do 1% mais rico no Brasil ronda US$ 541 mil ao ano, na França, esse 1% ganha de US$ 450 mil a US$ 500 mil”, com base em estudo do World Wealth and Income Database, codirigido pelo economista Thomas Piketty, denota a assimetria brasileira.

Entre eles, além dos empresários – depois isso vai ser detalhado – estão os “incognitos: empresários, juízes, executivos e médicos,  pessoas que vivem de outras rendas que não a do salário.

Suba um pouco mais, para o ápice da pirâmide e você tem o ” 0,1% mais rico, um grupo de 140 mil indivíduos recebe ao menos US$ 799,2 mil todos os anos. Isso é só a faixa de corte. A média para tal grupo gira em torno de US$ 2,8 milhões ao ano”. Em reais, para as nossas pobres mentes: R$ 760 mil por mês.

Claro, são todos merecedores e bons para o país, por conta de uma daquelas “obviedades” ironicamente elencadas por Darcy Ribeiro: ” (…)os pobres vivem dos ricos. Está na cara! Sem os ricos o que é que seria dos pobres? Quem é que poderia fazer uma caridade? Me dá um empreguinho aí! Seria impossível arranjar qualquer ajuda. Me dá um dinheirinho aí! Sem rico o mundo estaria incompleto, os pobres estariam perdidos.”

Se há de uma coisa da qual não podemos reclamar é de nossa classe dominante Verdade que ultimamente meio sem classe, mas dominante como nunca, como Ribeiro escreveu:

Nunca se viu, em outra parte, ricos tão capacitados para gerar e desfrutar riquezas, e para subjugar o povo faminto no trabalho, como os nossos senhores empresários, doutores e comandantes. Quase sempre cordiais uns para com os outros, sempre duros e implacáveis para com subalternos, e insaciáveis na apropriação dos frutos do trabalho alheio. Eles tramam e retramam, há séculos, a malha estreita dentro da qual cresce, deformado, o povo brasileiro. Deformado e constrangido e atrasado. E assim é, sabemos agora, porque só assim a velha classe pode manter, sem sobressaltos, este tipo de prosperidade de que ela desfruta, uma prosperidade jamais generalizável aos que a produzem com o seu trabalho, mas uma prosperidade sempre suficiente para reproduzir, geração após geração, a riqueza, a distinção e a beleza de nossos ricos, suas mulheres e filhos.

Tão competente nisso é que, ao ver esta gente começar a desconfiar que existia, despejar sobre ela, via mídia,  a ideia de que a corrupção – aquela, que vem desde o Iscariotes – ser a dos trinta dinheiros e não a de um sistema econômico que corrompe tudo, sobretudo a maneira de viver e entender o mundo e o Brasil.

Pobreza e riqueza são, portanto, necessariamente apresentados como coisas distintas, quase estanques. Diz Molica no seu comentário, citando os nomes dos cadernos da Folha: “de um lado, a lógica do Mercado, do outro, a realidade do Cotidiano”.

Os ricos merecem e os pobres carecem, por desígnio divino, por merecimento ou por falta dele, porque “é assim mesmo”. E ainda precisamos cortar direitos e acabar com aquela pré-histórica CLT porque trabalhador é caro e isso contraria a ordem natural das coisas, de que pobre tem de ser barato.

Porque, dizia Darcy e eu só acrescento uma palavra:  na mídia, ” na lei ou na marra, ( o povo trabalhador tinha de ser convencido) de que seu reino não era para agora, que ele verdadeiramente não podia nem precisava comer hoje. Porém o que ele não come hoje, comerá acrescido amanhã. Porque só acumulando agora, sem nada desperdiçar comendo, se poderá progredir amanhã e sempre. O povão, hoje como ontem, sempre andou muito desconfiado de que jamais comerá depois de amanhã o feijão que deixou de comer anteontem”.

Nem eles se privam do seu caviar de hoje.

PS. O texto da palestra “Sobre o óbvio”, de Darcy Ribeiro merece ser lido inteiro, como o presente que nos dá este grande brasileiro, cujos 95 anos de nascimento – na quinta passada, 26 – jamais fazem ser menos uma linha atual seu pensamento. O texto, na íntegra, está aqui.

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PS ATM: As fotos do mosaico de abertura é do Ricardo Stuckert/IL

 

 


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