As entranhas da Lava Jato no depoimento de Tacla Durán à CPMI da JBS

Tacla Durán, Moro e Zucolotto – Foto: RBS
por Sulamita Esteliam

Assisti parte do depoimento, através de videoconferência, do advogado Rodrigo Tacla Durán, que da Espanha falou à CPMI da JBS no Congresso Nacional sobre abusos da operação Lava Jato nos acordos de delação premiada, dentre outros. A transmissão direta estava travando e perdi a paciência. Acompanhei pelo Twitter e, agora à noite, li as coberturas alternativas.

Ex-advogado da Odebrecht e da UTC, Durán tem dupla nacionalidade e se refugiou na Espanha para escapar à prisão decretada por Sérgio Moro. O Estado espanhol se recusou a extraditá-lo por não reconhecer no pedido da Justiça brasileira provas e motivos suficientes que justifiquem a prisão e a extradição; vai processá-lo segundo as leis espanholas.

Tacla Durán acusa a Força Tarefa de Curitiba de forçar acordos de delação premiada. Ele teria sido procurado por membros do Ministério Público para fechar acordo no qual assumiria crimes, que ele assegura não ter cometido, e delataria alguns políticos apontados numa lista prévia. Serviço à la carte.

As iniciais “DD” nomeiam um dos procuradores, o que supõe-se tratar-se de Deltan Dalangnol, o expert em power-point de convicções.  A propósito, no Twitter, o colega jornalista e blogueiro, Rodrigo Vianna provoca:

O intermediário dessas tratativas seria o advogado Carlos Zucolotto, que ele teria contratado para defendê-lo, a partir de recomendações, por integrar “a panela de Curitiba”. Zucolotto é amigo de Sérgio Moro, cuja mulher, Rosângela Moro, trabalha no mesmo escritório.

Zucolotto está convocado a depor na comissão investigativa do Congresso.

Provas periciadas da conversa foram enviadas para a CPMI. Aliás, já eram do conhecimento de integrantes da comissão: os deputados Paulo Pimenta (PT-RS) e Waldir Damous(OT-RJ) foram a Barcelona se encontrar com Durán, em viagem oficial para acertar o depoimento.

São denúncias graves, que, apontam, no mínimo, desvios de conduta jurídica importantes nos “subterrâneos da Lava Jato fora da lei”, nas palavras de Pimenta. E que, devo concordar com a colega Tereza Cruvinel, no Brasil 247, chamam às falas os conselhos nacionais de Justiça e do Ministério Público.

O depoimento do advogado se alongou manhã afora, e tornou-se um dos assuntos mais comentados no Twitter. Na contramão, a mídia venal nativa só entrou na história no final da tarde, ainda assim para destacar trechos da fala que beneficiam o mordomo-chefe do desgoverno.

O colega Bob Fernandez, comentarista político da TV Gazeta de São Paulo, registrou no microblog:

Curiosamente, a fala de Tacla Durán já provocou o primeiro efeito colateral, informa o colega carioca Antônio Mello em seu blogue: Rosângela Moro desativou a página do marido-juiz no FB, exatamente nesta quinta. “Eu Moro com Ele” deixa de ser pública será por quê?

Pelos motivos expostos na abertura, recomento a leitura da reportagem do colega Joaquim de Carvalho, do DCM, publicada simultaneamente pelo Jornal GGN, do Luis Nassif.

É parte da dobradinha que promoveu, via crowfunding, que produziu uma série sobre a indústria da delação premiada na Lava Jato e incluiu viagem do repórter à Espanha, onde falou com o depoente, após a visita dos parlamentares brasileiros.

Carvalho lista oito pontos importantes do depoimento que merecem ser aprofundados, e comenta os possíveis desdobramentos. São eles:

1 – Ele não fez acordo de delação premiada, mesmo nas condições favoráveis que lhe teriam sido oferecidas por um amigo de Sergio Moro, o advogado Carlos Zucolotto, por considerar que estava sendo extorquido.

Observação: Pode ser mentira de Tacla Durán, mas ignorá-lo não vai esclarecer o caso. Durán apresenta como prova imagem das conversas com Zucolotto através do aplicativo Wickr – que apaga as mensagens depois de seis dias. Durán fez print screen da tela do celular. As imagens das conversas foram analisadas por um perito da Espanha e, segundo Durán, o laudo concluiu que não houve adulteração.

Durán encaminhou o laudo do perito, bem como a cópia das conversas, num anexo de 45 páginas, precedidas por um ofício (veja no final do texto do texto). Pelas conversas, não fica dúvida: Zucolotto tentou vender facilidade.

Pelas conversas, o interlocutor que seria Zucolotto diz que estava negociando o acordo com DD – é possível que seja Deltan Dallagnol. Mas Tacla Durán não quis dizer de quem eram as iniciais e sugeriu que o amigo de Moro esclareça.

(…)

2 – A Lava Jato lhe propôs delação a la carte.

Observação: Rodrigo Tacla Durán narrou o episódio em que o então procurador Marcello Miller lhe apresentou uma alista de políticos e perguntou se podia incriminar algum deles. A colaboração tem que espontânea, não pode ser induzida.

(…)

3 — A Odebrecht (ou a Lava Jato) plantou provas falsas nos acordos de delação premiada e nas operações de busca da Polícia Federal.

Observação: Que provas são estas? Extratos bancários falsos do Meinl Bank, a instituição de Antígua que a Odebrecht usava para pagar propina. Isso é crime de fraude processual.

(…)

4 — O presidente e um diretor da UTC, Ricardo Pessoa e Walmir Pinheiro, mentiram à Procuradoria da República ao dizer que era ele, Tacla Durán, quem faziam as operações de câmbio ilegais.

Observação: essa acusação, feita bem depois do acordo de delação premiada, foi usada para vincular Tacla Durán ao caixa 2 da Odebrecht e, com isso, apertar o cerco contra o PT. Segundo os denunciantes, Tacla Durán entregava a cada dois meses pacotes de reais na garagem da sede da empresa. Mas a própria empresa diz que não tem registros de sua entrada na recepção nem imagens de vídeo. É uma acusação com jeitão de cascata. Para saber se Tacla Durán esteve ou não lá, poderia ser feita uma investigação de seu deslocamento, a partir dos registros das operadoras de telefonia. Não é difícil.

(…)

5 — Um consultor financeiro, Ivan Carratu, ligado à UTC, teria lhe recomendado contratar um advogado da “panela de Curitiba”, para acertar a delação.

Observação: essa recomendação lhe teria sido feita por conversa de WhatsApp, cuja cópia foi entregue à CPMI, periciada.

(…)

6 — A Lava Jato ameaçou perseguir parentes de Tacla Durán se ele não fizesse um acordo de colaboração premiada.

Observação: Em razão dessas ameaças, a mulher, a ex-mulher, os filhos, a irmã e a mãe de Tacla Durán deixaram o Brasil e foram morar com ele na Espanha.

(…)

7– O Meinl Bank adulterou a contabilidade para impedir o rastreamento de recursos, para ficar com ativos que nunca seriam liberados, bem como proteger delatores.

Observação — Os publicitários João Santana e Mônica Moura tiveram receitas através de contas não reveladas pela Lava Jato — nesse caso, com a aplicação de tarjas sobre registros de movimentação bancária.

(…)

8 — Sergio Moro está violando acordos internacionais ao processar no Brasil quem tem outra nacionalidade.

Observação: A Espanha se dispôs a conduzir o processo contra Tacla Durán, no território espanhol, com base nas leis espanholas, mas, para isso, recomendou que o Brasil envie as provas que Moro tem da suposta conduta criminosa do advogado. Moro não fez isso e encaminhou uma citação, para que Durán tome conhecimento lá do processo que ele quer conduzir no Brasil e se defenda, sob pena de ser processado à revelia. Na prática, Moro está estendendo sua jurisdição para o território europeu. Isso nunca será aceito, mas mostra o que pode ser interpretado como comportamento abusivo do magistrado.

(…)

Eis a íntegra do depoimento:

 

 

 


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